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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A Biodiversidade da Ria de Aveiro


No passado dia 4 de Novembro a Biodiversidade da Ria de Aveiro foi tema de palestra seguida de debate em mais um encontro mensal do Clube Rotário da Murtosa.


Oxalá que em 2010, Ano Internacional da Biodiversidade, no nosso país (em que a Natureza é invariavelmente protelada em favor de interesses anti-ambientais) pequenos passos possam mesmo assim ser dados na Conservação da Natureza e na Preservação da Biodiversidade.

Não bastam ciclovias e painéis informativos nas margens da Ria de Aveiro. É preciso assegurar a manutenção das espécies e dos habitats da Ria! Afinal, sem estes, aquelas perdiam o seu justo sentido.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Grandes concentrações de aves na Ria de Aveiro

Na última semana a Ria de Aveiro albergou um grande número de indivíduos pertencentes a duas espécies que neste ecossistema parecem encontrar boas condições de alimentação: o Flamingo-rosado (Phoenicopterus ruber) e o Corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo).



A primeira espécie, cuja presença ao longo de todo o ano na Ria de Aveiro é relativamente recente, tem sido observada em grupos que rondam os 300 indivíduos. Contudo, no passado dia 25 de Fevereiro foram contadas 930 aves, um novo máximo para a espécie nesta região.

A segunda das espécies é regular na Ria de Aveiro, sobretudo durante o período invernal, sendo observada normalmente sob a forma de indivíduos isolados. A 28 de Fevereiro foi observada uma concentração de 760 aves num só local da ria.

Estas duas observações são da maior importância para o conhecimento actual da biodiversidade da Ria de Aveiro uma vez que os valores numéricos elevados poderão traduzir uma melhoria na qualidade das águas da laguna.

domingo, 30 de novembro de 2008

Seja bem-vindo o Decreto-Lei n.º 142/2008!

No passado dia dezanove foram entregues na Câmara Municipal de Ovar dois documentos fundamentais para a conservação da natureza no concelho. Um, referia-se à revisão de uma proposta, elaborada e apresentada por mim à Câmara de Ovar em Junho de 1994, para a criação de uma Área de Paisagem Protegida na Foz do Cáster e o outro, elaborado recentemente e que diz respeito à criação da Reserva Natural da Barrinha de Esmoriz.
Hoje dedicaremos uma atenção especial ao primeiro.
As zonas marginais do topo norte da Ria de Aveiro, no concelho de Ovar, constituem uma parcela do ecossistema, mais vasto, que é constituído pela Ria de Aveiro, funcionando aquelas como uma interface entre os ecossistemas terrestre e aquático.
Estas zonas, porque sujeitas ao regime das marés, apresentam extensas áreas de sapal, bem como, manchas significativas de juncal e caniçal. Estes biótopos apresentam excelentes condições para o abrigo e nidificação de muitas espécies de aves, algumas de conservação prioritária, nos termos da Directiva Comunitária 79/409/CEE (conhecida vulgarmente pela denominação de Directiva das Aves).
Também as águas da Ria, em Ovar, por se encontrarem bastante afastadas da entrada da laguna apresentam fracas correntes de maré, pelo que funcionam como maternidades para diferentes espécies piscícolas e bivalves.
Particularmente no Inverno, pode-se observar nas vasas desta região centenas de limícolas e ardeídeos. Durante as migrações, a vegetação palustre serve de abrigo a diversas espécies de passeriformes. E na época de nidificação, as matas envolventes são aproveitadas por diversas espécies de aves de rapina para aí procriarem.
Aves pouco frequentes e/ou de grande susceptibilidade, como o flamingo-rosado (Phoenicopteus roseus), o corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo), o falcão-peregrino (Falco peregrinus) e o colhereiro (Platalea leucorodia), ocorrentes nesta região denotam a importância da mesma no contexto do ecossistema lagunar.
Também do ponto de vista da flora se podem encontrar variadíssimas plantas autóctones ripícolas, como, o lírio-amarelo-dos-pântanos (Íris pseudacorus), o trevo-rasteiro (Trifolium repens) e a dedaleira (Digitalis purpúrea subsp. purpúrea). Nos esteiros e nas valas encontram-se também plantas autóctones, como, a pinheirinha-de-água (Myriophyllum aquaticum) e na zona de sapal, autóctones como o malmequer-da-praia (Aster tripolium subsp. pannonicus), a erva-do-brejo (Triglochin marítima) e a gramata-branca (Halimione portucaloides).
O canal de Ovar, o Largo da Coroa e o Regueirão da Carvalhosa constituem três bolsas de água que, pela sua dimensão e sobretudo aquando de marés-vivas e de temporais funcionam como importantes elementos naturais de defesa das margens lagunares, incluindo aquelas onde assentam núcleos habitacionais, como a Marinha, a Ribeira e a Tijosa. Requerem, por conseguinte, dragagens regulares de forma a manterem uma satisfatória capacidade de recepção das águas afluentes à laguna.
A actividade agrícola, a pesca artesanal e a caça são praticadas nesta região, havendo a necessidade urgente de serem disciplinadas, de modo a aumentar-se o potencial biológico da área e a evitar a degradação de habitats, também eles protegidos pela Directiva Comunitária 92/43/CEE (mais conhecida por Directiva Habitats), transposta para a legislação portuguesa pelo Decreto-Lei n.º 140/99, de 24 de Abril.
Esta região que se pretende transformar em Paisagem Protegida, assenta em território de Reserva Ecológica Nacional e pelo PDM de Ovar consta como Espaço Natural Protegido, incluindo no seu seio uma “Área de Reserva”.
O referido estatuto de ‘Área de Paisagem Protegida’ pressupunha em 1994, uma colaboração conjunta entre a Câmara Municipal de Ovar e o Ministério do Ambiente na gestão da mesma. Apesar dos pareceres favoráveis emitidos pelos técnicos do Ministério do Ambiente que visitaram e avaliaram a zona para os efeitos pretendidos, a verdade é que nunca mais esta proposta foi concretizada, possivelmente pela dificuldade em ser realizada a co-gestão daquela figura jurídica.
Acontece, que em 24 de Julho do corrente ano foi publicado o Decreto-lei n.º 142/2008, que estabelece o regime jurídico da conservação da natureza e da biodiversidade, permitindo aos municípios criarem por sua iniciativa e gerirem em regime de exclusividade áreas protegidas locais.
Pois é isto mesmo que agora se pretende, dotar esta região lagunar do nosso concelho com um estatuto de protecção da natureza (o estatuto de Paisagem Protegida Local) no quadro do referido regime jurídico e integrá-la, assim, na Rede Nacional de Áreas Protegidas.
É caso para dizer: bem-vindo, pois, o DL 142/2008!


(Artigo publicado no Jornal de Ovar de 28/11/08)

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Rio Cáster em debate.

No dia 21 de Novembro o rio Cáster esteve em foco em mais uma "Ciclone Conferência" organizada pela associação ambientalista vareira Amigos do Cáster.

Como oradores estiveram presentes o vereador de Ambiente da Câmara Municipal de Ovar, prof. José Américo, o vereador da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, Dr. Emídio Sousa e o Administrador da SIMRIA, Dr. Jorge Torres.

No decorrer da sessão a sala quase encheu, tendo havido lugar no fim das comunicações a interessantes trocas de pontos de vista.

Entre muitas outras questões foi abordado o facto da Fapovar continuar a lançar no rio Cáster efluentes não tratados devido à sub-capacidade demonstrada pela sua recente ETAR.

Foi também sugerido ao vereador da Câmara Municipal de Ovar que colha junto dos municípios de Santa Maria da Feira, Estarreja e S. João da Madeira algumas dicas sobre como pôr em marcha o arranque das obras de construção do parque urbano da cidade de Ovar e mais concretamente da reabilitação das margens do rio no centro da cidade, dada a experiência destes municípios vizinhos nesta matéria.



Por último, foi abordada a questão de rapidamente se ter que definir uma Paisagem Protegida na Foz do Cáster de acordo com a proposta entregue por Álvaro Reis na Câmara de Ovar a 19 de Novembro último.

domingo, 23 de novembro de 2008

Paisagem Protegida da Foz do Cáster e Reserva Natural da Barrinha de Esmoriz

No passado dia 19 de Novembro foram entregues na Câmara Municipal de Ovar duas versões provisórias elaboradas pelo autor para constituição de áreas protegidas no concelho, a serem geridas pela autarquia no âmbito do Decreto-Lei n.º 142/2008.




Um dos documentos referia-se a um velho projecto de classificar na foz do Cáster uma Paisagem Protegida, que permitiria a salvarguarda, entre outros valores, das espécies selvagens aí ocorrentes.





O outro documento consiste numa proposta de classificação de Reserva Natural da Barrinha de Esmoriz, com o objectivo de recuperação, valorização e conservação daquela lagoa costeira, única no contexto da região norte do país.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A propósito do Dia Mundial do Habitat

Na década de noventa tive a oportunidade de delinear projectos que visavam recuperar, manter e gerir alguns espaços naturais ovarenses, relativamente aos quais considerava serem os mesmos da maior importância para a biodiversidade do concelho. Um desses espaços, sobre o qual escrevi diversos artigos e um livro, divulguei em diversas palestras, bem como, promovi a intervenção de instituições universitárias, correspondia à pretensa “Área de Paisagem Protegida da Foz do Cáster”.
A referida região, localizada no limite sul do concelho, ao integrar os terrenos da beira-ria e as águas da laguna englobava (e engloba) um conjunto de biótopos e de comunidades de grande interesse, nomeadamente, pelo facto dos primeiros representarem sistemas de alta produtividade orgânica e entre as segundas existirem espécies vulneráveis, nomeadamente pela perda de habitats e por conseguinte a necessitarem de protecção.
À data - já lá vão catorze anos - e pese embora todo o meu esforço devotado à causa, bem como, o entusiasmo demonstrado pelos técnicos do Ministério do Ambiente que se deslocaram em visita ao local, a verdade é que esta vontade de preservar a foz do Cáster apenas teve prossecução através do apoio dado por algumas associações nacionais de defesa do ambiente, de escolas e de alguns partidos políticos locais. Ao longo dos longos meses que se seguiram e da parte da Divisão de Ambiente da Câmara Municipal de Ovar apenas iam saindo palavras silenciosas… o silêncio próprio de quem não era capaz de se bater pelas grandes causas ambientais do concelho.
Ao longo destes anos, em Ovar, foi corrente ouvir-se, vindo dos Paços do Concelho, um discurso bipolar: por um lado, a retórica assumida publicamente e de forma frequente de que o ambiente era e seria sempre uma prioridade, e por outro lado, a argumentação de que não se concretizavam os projectos ambientais no concelho porque o poder central (Instituto de Conservação da Natureza e/ou Comissões de Coordenação) não facilitava, não apoiava ou não o permitia.
Foi sempre difícil interpretar tal polaridade discursiva, pelo que frequentemente se colocou a dúvida se, ser técnico ou político de ambiente numa autarquia em Portugal seria um cargo condenado à frustração da impotência ou se não seria antes um cargo tão cheio de argumentos que se auto-sustentava na busca do seu próprio « aconchego ».
Seja lá como for, desde Julho deste ano que se acabaram os pretextos para as habituais desculpas de nada se poder fazer em termos conservacionistas devido aos obstáculos levantados pelo governo central. A vinte e quatro do referido mês foi publicado em Diário da República o Decreto-Lei n.º 142/2008 que estabelece o novo regime jurídico da conservação da natureza e da biodiversidade. Segundo o artigo 11.º deste diploma as áreas protegidas podem ser de âmbito local, deliberação que só por si não constitui nenhuma novidade pois já era contemplada em legislação anterior; contudo, a grande novidade está no artigo 13.º do recente diploma, segundo o qual a gestão destas áreas cabe agora e em exclusivo às autarquias.
Deste modo, com o «papão» do governo central afastado dos processos de classificação de áreas protegidas de âmbito local resta à Câmara Municipal de Ovar assumir por inteiro o protagonismo de proteger e valorizar o seu território e os recursos nele existentes.
Aproveitando a evocação, no passado dia 6 de Outubro, do Dia Mundial do Habitat e relativamente à área abordada neste artigo, cabe dizer que a necessidade de acção não passa, de modo algum, por aquilo que é um «déjà-vue», habitual por estas bandas, sempre que está em causa espaços naturais: proceder ou apoiar a quem proceda à identificação e delimitação de trilhos. Os trilhos já lá estão e bem identificados (como o fiz na pág. 110 do meu livro). Também não é necessário gastar mais tempo com estudos sobre inventariação de espécies, pois as espécies então inventariadas (algumas de protecção urgente) são mais que suficientes para justificarem a classificação da área.
O que é realmente necessário é o órgão institucional competente mostrar aquilo que ainda não foi capaz de mostrar: o passar das palavras aos actos, ou dito de outro modo, trocar a oratória dos discursos pelo pragmatismo das intervenções. Deste modo ganhará Ovar e ganhará a Natureza.


(Artigo publicado no Jornal de Ovar de 31/10/08)

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Área de Paisagem Protegida da Foz do Cáster - para quando?

Em 1994 foi entregue na Câmara Municipal de Ovar uma proposta de classificação da Área de Paisagem Protegida da Foz do Cáster, uma área correspondente às águas e aos terrenos marginais da Ria de Aveiro, partes integrantes do concelho de Ovar.
Tal como no passado, esta Zona Húmida apresenta uma diversidade de espécies e habitats de grande importância que merecem uma postura conservacionista por parte da autarquia vareira.
A importância da referida classificação é tanto mais premente quanto o facto:
- positivo, de nesta região procriarem espécies muito vulneráveis à pressão humana, como a águia-sapeira (Circus aeruginosus) e a garça-vermelha (Ardea purpurea);
- positivo, de na área em causa se poderem compatibilizar as actividades agrícolas com a protecção dos recursos naturais;
- negativo, da autarquia permitir a ocupação do Domínio Público Hídrico com abarracamentos diversos.
- negativo, da autarquia não revelar sensibilidade para a valorização do espaço natural que é a Ria de Ovar.
(se te apetecer liga as colunas)

domingo, 2 de julho de 2006

A propósito do Dia Nacional da Conservação da Natureza: APPFC, ICN & CMO



        É já no próximo dia 28 do corrente mês que mais uma data ecológica surge no calendário nacional – o dia dedicado à conservação da natureza, que o mesmo quer dizer, à conservação dos recursos naturais existentes no planeta, muitos dos quais de reposição demorada e por conseguinte ditos não renováveis. Florestas, animais selvagens, espécies piscícolas, minérios ou combustíveis fósseis são alguns dos recursos que o homem tem vindo a explorar frequentemente de forma irracional tendo já conduzido à extinção de muitas espécies vivas, colocado outras em vias de extinção e em estado de grande vulnerabilidade, muitas mais.
        Falar de conservação da natureza e de conservação dos recursos naturais seria falar, por conseguinte, entre outros, de personagens que afirmam ter grandes preocupações ambientais e que simultaneamente, pelos cargos que ocupam, reúnem capacidade de intervenção em prol dessas mesmas preocupações, com competências para corrigir o que está mal ou tentar melhorar aquilo que merece cuidados. Contudo e infelizmente, este é o falatório que menos interessa recordar, numa época de líderes e gestores públicos, para a maioria dos quais o ambiente é efectivamente menosprezado e se fala de políticas ambientais apenas para dar um ar “democrático” à causa, assumindo-se, deste modo, uma postura “politicamente correcta”.
        Assim, falar de conservação da natureza e de conservação dos recursos naturais é importante, muito importante mesmo, mas desde que em torno de personagens que demonstram efectivamente coragem em levar à prática os seus discursos sobre a resolução dos problemas no âmbito das suas áreas de intervenção. Vem isto a propósito de uma ideia lançada há doze anos e apelidada de “Área de Paisagem Protegida da Foz do Cáster” (a partir daqui referida como APPFC). Uma ideia para conservar um rincão de território da beira-ria no concelho ovarense e que foi a essa data proposta à Câmara Municipal de Ovar (a partir daqui referida como CMO), para ser concretizada em parceria com o Instituto de Conservação da Natureza (a partir daqui referido como ICN).
        A APPFC pretendia ser a figura jurídica que iria permitir preservar as Moitas e Marinhas de Ovar (localizadas na parte sul do concelho, em plena área da Ria de Aveiro), com todos os recursos naturais a elas associados. De facto, entre os objectivos que se pretendiam alcançar com esta área protegida, contavam-se a garantia da manutenção da nidificação de várias espécies de aves vulneráveis, entre as quais, a águia-sapeira (Circus aeruginosus) e a garça-vermelha (Ardea purpurea), bem como, o ordenamento do local para a promoção da educação ambiental e do turismo ”verde”.
        E o que foi feito, então? Após o interesse inicial (pelo menos aparente) por parte da CMO na ideia, e logo após a visita de alguns técnicos do ICN que demonstraram grande satisfação pela área visitada e pelos recursos que esta apresentava, garantindo ter a mesma condições para poder usufruir do estatuto de APPFC, simplesmente, o projecto desapareceu... desapareceu dos interesses municipais sem qualquer justificação... desapareceu, porque decerto alguém, pelo cargo que ocupa, decidiu engavetá-lo nalgum gabinete dos Paços do Concelho vareiro. Contudo, é importante salientar que com mais este imprudente desleixo da CMO... desapareceu a importante colónia de garça-vermelha que à data existia no local.
São exemplos destes que reforçam, assim, a malfadada verdade contida no segundo parágrafo deste texto e que obrigam aqueles que desejarem fazer a diferença a enquadrar-se antes na letra do quarto parágrafo, para um dia poderem afirmar que no âmbito das suas responsabilidades também contribuíram decisivamente para a conservação da natureza e dos recursos naturais da sua região.
A natureza ovarense agradecerá.
        
(Artigo publicado a 13.07.06 no Jornal de Ovar)

domingo, 2 de novembro de 2003

A riqueza natural dos campos do Baixo-Vouga (Ria de Aveiro)


      
          Este mês comemoram-se os vinte anos sobre a descoberta do Baixo-Vouga como refúgio de vida selvagem.
       De facto, até essa data nunca ninguém tinha posto a descoberto que muito pertinho das povoações da beira-ria, do tráfego automóvel da EN 109, das intensas fumaradas das indústrias pesadas de Estarreja e Cacia se encontrava uma tão grande variedade de espécies da fauna selvagem, habitualmente conhecidas das séries televisivas e das enciclopédias da especialidade, pelos então ainda raros, apaixonados pelo "campo". 
       Nunca ninguém, à excepção dos agricultores e caçadores obviamente, tinha tido a mínima noção de que espécies como a águia-sapeira, as garças-vermelhas, as garças-boeiras, os maçaricos e tantas outras existiam naquelas paragens em número tão razoável. Ao contrário das visões e motivações sentidas pelos caçadores, o trabalho desenrolado nos muitos anos que se seguiriam resultariam no estudo dos hábitos dessas espécies, bem como, na inventariação de algumas populações.

        A diversidade de biótopos existentes em toda a região do Baixo-Vouga (juncais, caniçais, arrozais, esteiros com sua vegetação ripícola, prados, sebes, etc.) transforma esta região num complexo ecossistema e por conseguinte num importante refúgio para a vida animal. Quer como nidificantes, quer como invernantes, quer como migradores ou mesmo como residentes, várias espécies, apesar das ameaças que constantemente se lhes colocam (abate de árvores e corte de arbustos, descargas para a laguna, excessos da caça, etc.) têm vindo a resistir estoicamente mantendo os seus níveis populacionais. Outras porém, como a garça-vermelha (
Ardea purpurea) diminuíram drasticamente os seus efectivos na região depois de aqui terem mantido durante vários anos o principal núcleo populacional da Ria de Aveiro.
     
        Se a data presente é motivo de júbilo pelo facto de assinalar a descoberta daqueles valores naturais na região aveirense (conhecida àquela data pela cor negra das suas águas, pelo ar carregado de poeiras e partículas e pelos cheiros nauseabundos que fluíam em seu redor) é também motivo de grande apreensão por tudo aquilo que se devia ter feito em termos da conservação dos recursos naturais do Baixo-Vouga e não se fez. Exactamente isso, a atitude passiva, a atitude de se ter cruzado os braços, a falta de coragem de intervir a tempo, de preservar. Afinal era aquilo que era importante realmente fazer: preservar e se possível melhorar.
      Ao invés tentaram-se muitos disparates. Drenar, emparcelar, monocultivar, poluir. Por outras palavras destruir a única riqueza realmente característica do Baixo-Vouga: as práticas agrícolas associadas ao Bocage e as espécies selvagens delas dependentes. Tudo em nome de uma agricultura desnecessária, pois sem quaisquer bases de sustentação e de competitividade dentro do mercado comunitário.
      Ao invés continua-se a pensar mal para esta região. Construir uma estrada (IC 1) sobre o Baixo-Vouga é tão somente uma forma de trazer ruído, lixo, gases tóxicos e tantas outras agressões a esta bela região. Será tão somente um modo de agredir os seres que naturalmente aqui têm vivido.

      Tudo em nome de um (pseudo)desenvolvimento de algumas terras da beira-ria. Será isto justo? Será que em nome deste desenvolvimento que uns quantos apregoam se podem aniquilar para sempre um património que é de muitos mais? E se se pusesse de parte definitivamente os compromissos eleitorais assumidos a quente em tais períodos e se pensasse racionalmente sobre a melhor forma de rentabilizar o Portugal pobrezinho a que se chegou?
        Claro que as irreflectidas (assim me parece) promessas políticas da altura estão a ser seguidas por uma caprichosa e tonta vontade de as cumprir na actualidade. Esta tonteria é tanto mais grave quanto o facto de estar em causa uma ZPE ou seja um território da Comunidade com especial interesse para a conservação dos habitats e da vida natural associada aos mesmos. Ou será que em matéria de conservação não se aplicam os mesmos preciosismos que se querem cumprir noutros campos? 

quarta-feira, 29 de janeiro de 1997

Ria de Aveiro, poluída de calculismos políticos


     Sobre esta laguna, sua região envolvente e seus problemas, já muito se falou e muita tinta se gastou. Seminários, colóquios, artigos na imprensa, etc., têm servido para atrair a atenção de plêiades de interessados nas mensagens de um conjunto crescente de comunicadores, todos muito sabedores mas quase sempre pouco determinados nas suas recomendações, bem como, demasiadamente parcos de soluções.
      Será pela falta de projectos claros, claríssimos, destes senhores (técnicos) e pela revelada falta de sensibilidade (leia-se, conveniências políticas) dos outros senhores (do poder e das decisões) que penso não ficar por aqui a necessidade da realização de outros tantos eventos do género, de puro marketing institucional e político.

     É verdade que na Ria de Aveiro existem problemas tão graves quanto complexas serão as acções a desenvolver para a sua correcção. Mas este facto não justifica de modo algum que, uma Associação dos Municípios da Ria e uma Universidade “plantada” à beira das suas águas, onde o Ambiente e o Ordenamento até têm honras departamentais, não tenham revelado ao longo dos últimos vinte anos, um plano global de gestão e de resolução daqueles problemas, tendo pelo contrário, revelado uma nítida falta de posicionamento, como verdadeiras forças de pressão junto dos governos, no sentido da valorização desta região natural.

        Atentemos apenas, dada a natureza deste apontamento, a quatro situações concretas cuja resolução, não estando à vista, justifica a angústia traduzida nas palavras acabadas de escrever.

        Repare-se na teatral representação da peça “Vamos dragar a Ria”. Há vários anos anunciada, mas na verdade até agora ainda está por ser levada à cena. Para quando a sua estreia? Quem souber que o diga, por favor. Mas o que toda a gente bem sabe, é que a remoção dos lodos constitui uma necessidade primária para a melhoria da qualidade das suas águas, bem como, permitirá uma melhor navegabilidade nos seus principais canais.

        Repare-se nas queixas constantes de marnotos e agricultores relativas aos desmoronamentos das motas de protecção e consequente invasão dos terrenos pela força das marés. Custos, à priori já esperados, resultantes da ampliação do Porto de Aveiro, mas que deviam ter merecido a concretização atempada de um plano de recuperação e reforço de motas degradadas. Para quando esse plano? Parece estar prometido (pela Junta Autónoma do Porto de Aveiro)!

        Repare-se ainda na localização do pipe-line subaquático para transporte de cloreto de vinilo, desde o Porto de Aveiro até Estarreja, o qual após concluído e por certo devidamente vistoriado, situa-se simplesmente, a cotas de tal modo perigosas, que em determinadas zonas e na maré-baixa fica praticamente a descoberto. Restam agora os muitos cuidados, a quem por ele passar.

        Por último, repare-se também, na beleza paisagística de toda a região, bem como, nos seus valores naturais cujo status poderia e deveria ser melhorado. Bastava que para isso e tão simplesmente se substituíssem os estudos e mais estudos e mais estudos que aqui se fazem, que na verdade a nada têm levado, senão ao cumprimento da própria “ocupação” de investigar, pela tarefa de demarcar, legislar e preservar áreas, cujo valor é sobejamente conhecido desde há muito. E o Instituto de Conservação da Natureza sabe-o bem. Só que não tem demonstrado vontade para tal. Sempre que o chamam para “coisas destas”, não responde, não aparece.
        
         Doloroso, confrangedor, poluente...

 (Artigo publicado a 28.02.97 no Jornal de Ovar)