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quinta-feira, 5 de junho de 2025

Dia Mundial do Ambiente em Ovar - Agir pelo desenvolvimento da nossa terra!

 





O concelho de Ovar precisa urgentemente de políticas de conservação e valorização do seu património ambiental.

Há que Agir de forma decidida no sentido de inverter a contínua falta de políticas ambientais assertivas.




quinta-feira, 22 de maio de 2025

Dia Internacional da Biodiversidade: que sentido tem em Ovar?

 



 

A biodiversidade de uma região traduz-se na variedade e interdependência existentes entre as espécies, os habitats e os ecossistemas que nela existem. A degradação dos habitats naturais e semi-naturais, a poluição e a exploração excessiva dos recursos enfraquece os ecossistemas e leva inevitavelmente à perda da biodiversidade. Deste modo, a biodiversidade é fundamental para o equilíbrio natural de uma dada região pois, em última instância, garante o bem-estar das suas comunidades humanas.



Estas premissas devem, assim, servir de pontos de partida para toda a acção autárquica - ainda por iniciar - de garantia da biodiversidade no concelho de Ovar.



Ovar é mar. Por isso, o ecossistema costeiro, areal, dunas, vegetação dunar e respectiva fauna devem ser acautelados através de medidas concretas, como a regular deposição de areias nas praias e no cordão dunar.




Ovar é mata. Predominantemente de pinheiro-marítimo, mas não só. Além da vegetação a mata alberga uma fauna variada e importantes comunidades de fungos e líquenes. Ademais constitui um verdadeiro pulmão para toda a região envolvente. Por isso, é imperioso que se trave esse desastroso plano, em curso, de destruição da mata concelhia. Não há argumentos decentes que justifiquem semelhante perda de biodiversidade.



Ovar é Ria. Canais, esteiros, valas, praias de vasa, caniçais, juncais abundam e asseguram uma enorme biodiversidade aquática. Dezenas de espécies aqui ocorrem, entre residentes, estivais, invernantes e migradores de passagem. Algumas com estatuto de vulnerabilidade e outras com estatuto de ameaçadas. Algumas raras, outras acidentais. É, pois, importante que se tomem medidas apertadas com vista à protecção deste ecossistema. 



Uma dessas medidas há muito proposta, mas sem nunca ter sido implementada diz respeito à delimitação de uma área protegida na ria de Ovar. A “Área de Paisagem Protegida da Foz do Cáster” visa a conservação das espécies e habitats que existem no espaço lagunar do concelho, numa óptica de desenvolvimento sustentável.



Ovar é urbe. Tem rios, parques, jardins, fontes de água. À priori, todos ao serviço da qualidade de vida e bem-estar dos ovarenses. Mas para isso ser possível os rios não podem correr poluídos, os parques e jardins têm de estar limpos de papéis, copos de plástico, latas de refrigerantes e dejectos de cães espalhados pelos relvados.



Assinalar a Biodiversidade ovarense passará sempre, hoje e amanhã, por uma educação ambiental que terá por base a adopção de uma cidadania comprometida. Só com cidadãos respeitadores do ambiente e participativos poderemos conservar os recursos que são nossos e não de outros, sejam estes negociantes oportunistas ou governantes incompetentes.

 


sábado, 22 de março de 2025

Dia Mundial da Água e Dia Mundial da Meteorologia

 






Assinalar estes dias evocativos de temas ambientais – como os da floresta, da árvore, do solo, do ar ou outros afins – deveria servir não para palestras de circunstância vazias de boas intenções ou para inaugurações de alguma obra recentemente concluída, mas sobretudo para repensar aquilo que ainda não está feito e aquilo que estando feito justifica correcção ou melhoria de acordo com as necessidades ambientais da actualidade.

Sendo a água a base da vida deveria ser dos primeiros recursos naturais, a ser mimado em todo o planeta e das mais variadas formas.

Sendo o mundo tão vasto e em cada um dos seus cantos existirem problemáticas específicas relacionadas com os recursos hídricos será mais razoável concentrarmo-nos no nosso cantinho e nos contributos que se poderão dar para a protecção e valorização das nossas águas.

A poupança no consumo de água, que é um apelo mundial feito a todos nós, será talvez o problema de mais rápida solução, uma vez que esse consumo está directamente relacionado com o esvaziar de cada carteira.

Mas há outras abordagens à água que não parecendo afectar cada indivíduo isoladamente, afectam, de facto, toda a comunidade vareira.

O rio Cáster e a ribeira da Sr.ª da Graça ao passarem pelo centro de Ovar, nomeadamente pelo parque urbano, têm todas as características para embelezarem a cidade e proporcionarem momentos prazerosos a quem circula junto deles … desde que as suas águas não corram oleosas, com espumas, lixos sólidos e maus odores, como às vezes acontece.



Por outro lado, estes dois cursos de água não deveriam ter os leitos entupidos de vegetação, cuja presença na época das chuvas só serve para dificultar o fluxo das águas facilitando o alagamento das margens. Essa vegetação que cresce espontaneamente no meio do leito deve ser limpa anualmente a partir do mês de Setembro, de modo a não afectar a reprodução das espécies que nela se abrigam.



Estes dois cursos de água também não precisam que se lhes cortem as árvores das margens, bem pelo contrário. O arvoredo das margens é o coração e os pulmões de qualquer galeria ripícola, contribuindo para o controlo das cheias durante o inverno.




Mas Ovar, cidade rodeada de mar salgado e ria salobra é também rica em água doce. Pelo menos deveria ter sido no passado, dada a quantidade de fontes que se construíram, algumas artisticamente decoradas e que hoje, moribundas de tanto desleixo, aguardam que a autarquia lhes preste o socorro merecido.




A Barrinha de Esmoriz, designada pelos ovarenses deste modo, é Lagoa de Paramos para os espinhenses, devido ao facto de ser pertença dos dois concelhos. Mas designações à parte, ela tem características e problemas comuns.

A sua característica principal é ser uma lagoa costeira, rodeada por uma extensa mancha de caniçal, onde várias espécies animais se reproduzem, outras invernam e outras tantas a usam como local de descanso e alimentação durante as passagens migratórias. Dito de outro modo, um importante ecossistema natural onde até ocorrem espécies acidentais provenientes do continente norte-americano.

Tal condição levou à sua integração na rede europeia Natura 2000. E o que é que daqui resultou? Que se criaram passadiços e uma ponte atravessando o coração desta área promovendo a perturbação em áreas que antes eram inacessíveis à pressão humana, desvirtuando o conceito do estatuto adquirido. É que para efeitos turísticos e de passeio/caminhada bastaria a existência do passadiço ao longo da periferia da lagoa.



Além desta concepção “ecológica” que as duas autarquias arquitectaram, as mesmas continuam a nada fazer (apesar de ao longo de décadas terem sido apresentados projectos elaborados por associações ecologistas) para que este espaço seja efectivamente uma Reserva Natural, onde as espécies que de lá se ausentaram possam encontrar condições para regressarem e por lá se fixarem.

 

O dia de hoje, Dia Mundial da Meteorologia, pretende chamar a atenção para a importância do clima nas nossas vidas e no planeta em geral. Objectivos, à priori, consensuais pese embora em certas situações haja sempre alguém que parece querer negar essa mesma certeza.

É o clima que faz tombar em poucas horas a chuva que deveria cair em meses. Chuva, que apesar de ser esperada e anunciada pelos meteorologistas e pela protecção civil, não deixa de inundar estradas e habitações, criar torrentes mortais, fazer transbordar rios e obrigar à descarga de enormes massas de água das barragens. Não há sacos de areia nem taipais que valham. O excesso de água não infiltrada no solo tem de passar, mesmo que para isso tenha que levar tudo à sua frente. No final é sempre o homem que tem de correr atrás do prejuízo.

É o clima que faz tombar impiedosamente sobre a linha de costa a água que cada vez existe em maior quantidade nos oceanos devido ao degelo e que inunda e destrói as ruas e habitações marginais. Não há muralha de pedra que valha. As vagas têm de se despenhar sobre a frente costeira, pois a sua força e energia não se dissipam milagrosamente. Para já apenas molhando, um dia com a possibilidade de a água arrastar consigo blocos rochosos. Será sempre o homem a colher aquilo que semear.




Água, clima, ……., ambiente, homem, decisões. Uma engrenagem, que cada vez mais, tem de estar bem oleada.

 

sexta-feira, 21 de março de 2025

Dia da Árvore / Dia da Floresta

 




 

Distantes vão os anos em que as mentes de então tomaram consciência da importância em plantar árvores sobre as dunas litorais de modo a fixarem-se as areias levadas pelos fortes ventos de noroeste.

Plantar e cuidar dessas mesmas plantações eram os objectivos dos Serviços Florestais em finais do sec XIX .

Surgiriam, assim, extensas plantações de pinhal em distintos sectores da faixa marítima portuguesa. Entre Esmoriz e Leiria os areais passaram a suportar uma extensa mancha de pinheiros-bravos (Pinus pinaster), com os quais conviviam pinheiros-mansos (Pinus pinea), choupos-negros (Populus nigra), amieiros (Alnus glutinosa), salgueiros (Salix sp.) samouco (Myrica faya), ……, e camarinheiras (Corema album), entre outras.      



Apesar das matas não constituírem um verdadeiro bosque, nunca deixaram de representar um ecossistema muito particular, com uma importância relevante na biodiversidade litoral.

Aqui instalaram-se comunidades de aves, como a águia-d’asa-redonda (Buteo buteo), o gavião (Accipiter nisus), o açor (Accipiter gentilis), a coruja-do-mato (Strix aluco), a galinhola (Scolopax rusticola), a rola-brava (Streptopelia turtur), além de variadíssimas espécies de pássaros, como o pica-pau-malhado-grande (Dendrocopus major), o torcicolo (Jynx torquilla) e a trepadeira azul (Sitta europaea).

Aqui se instalaram, igualmente, comunidades de mamíferos, como o coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus), a gineta (Genetta genetta) e o texugo (Meles meles). De répteis, como a cobra-rateira (Malpolon monspessulanus), a cobra-de-escada (Elaphe scalaris) e a lagartixa-do-mato-comum (Psammodromus algirus). De anfíbios, como o sapo-de-unha-negra (Pelobates cultripes) e o sapinho-de-verrugas-verdes (Pelodytes punctatus), ….. de insectos, de musgos e de líquenes.




Instalaram-se, porque agora na mata ovarense (localmente designada como mata da Bicha ou mata de Maceda e administrativamente designada como Perímetro Florestal de Ovar) não se instalam. Não se instalam, porque deixaram de ter condições para tal.

As comunidades faunísticas e botânicas no presente são, por isso, uma pálida imagem do que foram no passado. É que enquanto os Serviços Florestais de outrora plantavam e cuidavam das matas, o ICNF de agora corta árvores e vende madeira, permitindo, ademais, que as autarquias ávidas de “ecologia” desafectem áreas sem qualquer motivo justificador.



Nos últimos anos tem sido “um vê se te avias”. Os cortes nesta zona multiplicam-se. E recentemente o ICNF com o beneplácito da autarquia vareira estruturaram um novo Plano de intervenção nesta mata, ainda mais gravoso que o anterior.

A mata vareira será destruída às parcelas. Uma aqui, outra acolá, em zonas interiores da mancha florestal (para não dar tanto nas vistas), até ao destino final que será a perda de um recurso municipal secular.

Espécies emblemáticas dos habitats costeiros como a camarinheira, já extinta noutros sectores ibéricos, mas aqui ainda presente como uma relíquia natural, corre o risco de se extinguir a curto prazo juntando-se, assim, a várias das espécies atrás mencionadas que aqui abundavam.



Este estado de coisas não deve e não pode continuar. A mata que constitui o Perímetro Florestal de Ovar deve continuar a constituir o ecossistema de outros tempos.

A destruição de sucessivas parcelas da mata contrariam, aliás, o disposto no art.º 25 da parte VI do Decreto de 24 de Dezembro de 1901 (em que assenta a gestão actual da área por parte do ICNF) ao desprotegerem o solo, fomentando a mobilização dos areais.

Dado que o estatuto de Perímetro Florestal não garante a sobrevivência deste ecossistema, é importante que o mesmo integre a rede nacional de áreas protegidas através da figura de “Área de Paisagem Protegida da Floresta de Ovar”.

É urgente que a União Europeia tome conhecimento do que de errado se faz por aqui e da vontade das populações locais em preservarem o seu património florestal!


sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Inverno (II)

 




(continuação)


A ventania amainou, a chuva abalou e o frio regressou.

As noites frias tornam os amanheceres gélidos. A geada formada durante a noite confere aos solos, pela manhãzinha, um tom alvo, que não sendo intenso como o da neve, não deixa de inebriar o olhar.



Apesar da atmosfera matinal estar a temperaturas próximas dos zero graus Celsius a passarada não está calada nem quieta. Rabirruivos-pretos (Phoenicurus ochruros) empoleirados nos frágeis ramos despidos fazem-se ouvir dali e dacolá .



As rolas-turcas (Streptopelia decaocto) não param de cantar enquanto esvoaçam de árvore em árvore, acabando por confraternizar em grupo.



As pegas-rabudas (Pica pica) cruzam o parque em diferentes direcções até encontrarem poiso. Deste, lançam de forma intermitente os seus chamamentos roucos que se ouvem mesmo a grande distância. 



O frio e a redução de alimento disponível na natureza leva estas verdadeiras rainhas dos parques citadinos a aproximarem-se das habitações onde, sempre muito desconfiadas, acabam por aproveitar alguma parcela orgânica por mais pequena que seja. 



Na costa, o mar continua muito revolto, pois o efeito da depressão perdura no tempo. A neblina densa, contudo, já desapareceu podendo-se apreciar os sucessivos trens de ondas que se abatem  sobre a praia... 



... e assistir a pescarias de verdadeiros especialistas.


Sobre a ondulação, um grupo de aves negras baloiçando-se ao sabor da mesma despertam a atenção. Tratam-se de patos-negros (Melanitta nigra) - machos, fêmeas e juvenis - entretidos em sucessivos mergulhos que lhes valem o sustento em moluscos, crustáceos, pequenos peixes e até algas.



Estes bandos, que surgem em determinados locais da costa - onde os cardumes e demais seres marinhos se concentram de forma preferencial - permanecem durante largas horas neste vertical vaivém oceânico, efectuando apenas curtos voos para mudarem de sítio quando a isso são impelidos. 



Não demora muito que sobre este mar tormentoso, onde nadam plàcidamente os patos-negros, surjam os especialistas em mergulho de profundidade. 

Voando rápido, rasando a água para melhor detectarem os cardumes de sardinha, cavala ou carapau, estas aves, que têm tanto de esbeltas quanto de aerodinâmicas, ...



... logo se elevam no ar para se deixarem cair de seguida em extraordinários mergulhos a pique, podendo atingir em mar aberto os 40 metros de profundidade; tratam-se de gansos-patolas (Morus bassanus). 


Mais próximo do areal, sobre a zona de rebentação, passam gaivotas-d'asas-escuras (Larus fuscus) prospectando desperdícios que flutuem à superfície. 



No areal e quando a maré começa a subir, pilritos-das-praias (Calidris alba) surgem do nada e poisam junto ao espraio da vaga para colherem larvas e pequenos vermes.




(continua)


terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Inverno

 



O Inverno do calendário chegou. 

As baixas temperaturas que se fizeram sentir durante os primeiros dias do novo ano mostraram que o Sol, correndo muito baixo no seu movimento virtual, não apresentou competência para aquecer convenientemente a atmosfera, o solo e os corpos.



Estes dias, em que por um lado, o astro-rei se deixou contemplar desde a manhã até ao entardecer e por outro, em que as estrelas puderam brilhar a noite inteira, não demoraram muito a abalar.  




De semblante carregado, o verdadeiro Inverno aproximou-se repentinamente. Com ele veio um frio mordaz, capaz de penetrar a carne e os ossos com a humidade própria desta faixa atlântica.




As massas de ar, até então de grande estatismo, começaram a evoluir para um quadro de ventos murmurantes, que rapidamente transitaram para moderados e não menos rápido ganharam o estatuto de desabridos vendavais. São estes últimos, nascidos dias atrás sobre o oceano distante, que ao chegarem a terra se encarregam de vergar como palha os troncos esguios e compridos das árvores mais altas ...



... e arrastar para cima da cidade as gaivotas, que na costa deixaram de encontrar as condições ideais para poderem aí viver.



Com toda esta turbulência atmosférica não demorou a chegada da chuva, tocada por estes fortes vendavais de sul. Intensa e repetitiva ao longo de vários dias, tudo encharcou, mandando para dentro de suas casas homens e animais.



As rajadas, que umas vezes assobiam e outras vezes roncam, dependendo dos obstáculos que encontram pela frente, não deixam os seres vivos sossegar. Garças, patos e limícolas voam por áreas imprevistas, enquanto melros, pegas e outros passeriformes de menor estatura seguem trajectórias ziguezagueantes. 



Todas estas personagens parecem apresentar grandes dificuldades em controlar os seus próprios hábitos instintivos!


Na costa, o céu cinzento saturado de água e o oceano igualmente cinza e também feito dessa mesma matéria parecem fundir-se sem uma nítida fronteira entre os dois. 



Dias houve, em que do areal da praia não se conseguia vislumbrar o mar apenas alguns metros à frente, tal era a neblina densa que sobre aquele se abatia. 



Na cidade, a neblina que acompanha o acordar húmido das manhãs silencia a natureza.



É preciso esperar mais algum tempo para se conseguir descortinar aquilo que antes era incógnito... 



... e finalmente poder-se ouvir o chilrear da passarada, especialmente o arrulhar das rolas-turcas (Streptopelia decaocto).



Na laguna as águas correm agitadas, sobretudo na vazante, quando a corrente ao encontrar os ventos rijos de sul faz levantar a mareta. A ondulação forte afasta da actividade piscatória muitos daqueles seres que exploram este meio salobre.



Nos campos e prados envolventes à laguna a terra está ensopada de água, dado já não ser capaz de a absorver em profundidade. Formam-se, assim, lameiros, sobretudo quando os ribeiros próximos extravasam as suas fronteiras habituais.

 


Os seres que aqui habitam são obrigados a grandes mudanças no seu padrão de vida.


O Inverno parece não dar mesmo tréguas aos seres vivos, independentemente do meio onde vivem e convivem!


(continua)


sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Degelo glaciar: bater em retirada!

 




(continuação)


Parecia tardar, mas chegou. Chegou mais uma vez.

Não sei se será coincidência ou se será antes uma tendência. O costume de fazer sair apressadamente do armário bolorento os fantasmas da “protecção” do litoral.

No passado 28 de Agosto foi produzida uma deliberação pela Agência Portuguesa do Ambiente, IP, provavelmente a reboque de uma pressão do poder local, no sentido de levar a cabo a empreitada de reabilitação e reforço da estrutura longitudinal aderente e dos esporões na praia do Furadouro, no valor de dois milhões, quatrocentos e trinta e nove mil, vinte e quatro euros e trinta e nove cêntimos acrescido de IVA.

 

Esta notícia vem confirmar a grande e permanente dificuldade destes personagens da governança em entenderem que o problema da erosão da linha de costa, não sendo de agora, toma no presente contornos cada vez mais graves, também pela incorrecta adopção de medidas.

 

Senão vejamos.

A subida do nível do mar, intensificada nas últimas décadas, previsivelmente será agravada nos próximos anos, pelas consequências que o aquecimento global continua a provocar no degelo das calotas polares e nos glaciares.

O volume oceânico irá, assim, continuar a expandir, independentemente das construções ou obras de engenharia que se queiram implementar na faixa litoral. 

Não é a pedra que irá travar este processo da subida do nível médio do mar.

 

A falta de areia na corrente de deriva litoral foi sendo agravada, por décadas de exploração de inertes nos rios e nas bacias portuárias, sem que tenha havido preocupações com o impacto que estas explorações comerciais viriam a ter nas praias. Esse impacto foi muito alto e as praias foram desaparecendo porque a areia a elas não chegava.

Não é com pedra que se vai colmatar este défice arenoso das praias.

 

Apesar dos drásticos efeitos da erosão litoral constituírem um acontecimento antigo no concelho de Ovar (emagrecimento das praias e destruição de palheiros e outras construções), apesar de o mar nunca ter deixado de galgar terra adentro nos anos subsequentes, apesar dos alertas feitos com base em estudos realizados nas praias do concelho de que a regressão da linha de costa era uma realidade, apesar das recomendações feitas sobre a gestão destes problemas, a verdade é que se preferiu assobiar para o lado umas vezes e chutar para canto das outras.

 


E como se nada de grave estivesse a acontecer nestas praias ameaçadas do concelho ovarense foram-se permitindo novas construções habitacionais e hoteleiras na frente marginal, ignorando os perigos daí decorrentes.

E coloca-se a questão. Porque é que em vez de uma gestão danosa não se agiu em sentido oposto, relocalizando estes interesses instalados para locais mais recuados e seguros da linha de costa?

 

Por isso, apesar das toneladas e toneladas de pedra que se colocaram nas praias do concelho e que não resolveram coisa nenhuma (antes pelo contrário fragilizaram sectores que não sofriam erosão), restam duas certezas absolutas.

A primeira é que estas descargas de pedra não são uma oferta dos deuses. Elas são pagas por todos nós.

E aqui coloca-se uma nova questão: porque teremos todos de pagar este custo de protecção dos interesses particulares de quem quer continuar a viver com os pés dentro de água e com projectos turísticos mirabolantes na cabeça?

A segunda certeza é que, embora as praias não encham de areia e o medo do mar de Inverno esteja sempre presente, alguém vai dormir muito mais aconchegado com os lucros deste negócio.

 

Na verdade, o problema da erosão costeira transformou-se hoje em dia num desafio de gestão costeira!

E para fazer uma gestão séria é preciso ter … coragem na sua abordagem, a qual nada tem a ver com uma atitude de Pilatos em mandar descarregar uns quantos camiões de pedra sobre o litoral.

Caso não aconteça um milagre, o abandono da faixa litoral do concelho, será uma sentença ditada pelo oceano a curto prazo!

Não é agradável esta visão, de facto. Mas não há como a contornar. Será, então, necessário retirar as populações da faixa litoral. Bater em retirada.  

Mas para tomar esta decisão é preciso que surjam políticos com … a tal coragem.