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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Nova ameaça para a floresta de Ovar

 





Depois das acácias (Acacia sp.) e da erva-das-pampas (Cortaderia selloana) chegou a háquea-espinhosa (Hakea sericea) ao concelho de Ovar. 

Originária do sul da Austrália, esta espécie está já instalada, faz algum tempo, em alguns sectores do perímetro florestal norte das dunas de Ovar, constituindo-se, assim, como a mais recente espécie invasora da nossa floresta.



A háquea-espinhosa apresenta-se sob a forma de arbusto ...



ou de árvore de médio porte.




Com folhas perenes, em forma de agulha e muito picantes...




possuem flores brancas e agrupadas, que despontam entre Janeiro e Abril. 




A reprodução da espécie faz-se através das sementes contidas nos seus frutos acastanhados.



Estes, depois de formados podem permanecer fixos à árvore durante bastante tempo constituindo, deste modo, um importante aglomerado de depósitos de sementes.



E é neste ponto que advém simultaneamente o perigo e o sucesso da expansão desta espécie, uma vez que este grande número de sementes, caso se libertem dos frutos, podem ser transportadas pelo vento até grandes distâncias implantando a háquea-espinhosa em áreas até então não afectadas.



E quando é que a libertação das sementes pode acontecer? Precisamente quando estas árvores são queimadas ou cortadas de forma inapropriada. Tal como aconteceu na mata junto à Habitovar/variante para o Centro Comercial Vida.



Acresce ainda que, a falta de controlo dos povoamentos de háquea permite que a espécie forme bosques impenetráveis para os animais além de impeditivos da fixação de espécies sensíveis da flora autóctone, como a camarinha (Corema album).




Mais uma vez será esta "desatenção" para com a gestão dos recursos naturais que irá agravar o desequilíbrio ecológico do Perímetro Florestal das Dunas de Ovar.

É pois necessário retirar de imediato os espécimenes presentes nesta parcela florestal, bem como em outras parcelas de Maceda e Cortegaça, antes da maturação das sementes, mas sempre de acordo com a metodologia técnica apropriada, conhecida e documentada.



quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Vida para além da morte: os troncos

 






Por entre a multidão de folhas que anualmente revestem a floresta, os sóbrios troncos que já assistiram à viragem de séculos e os contorcidos ramos das manchas remanescentes da primitiva floresta caducifólia portuguesa, constituída por carvalhos, cerejeiras, ulmeiros, castanheiros, freixos, azereiros, azevinhos, loureiros entre outras espécies ...



... deambulam outros tantos seres, também eles numerosos, ... 



... igualmente sóbrios ...




... e de sagaz agilidade.




Na verdade, o estrato arbóreo da floresta de folha caduca, só por si, constitui uma autêntica auto-estrada de vida! 



Enquanto nos píncaros das copas, corvídeos, como a gralha-preta (Corvus corone), repousam à espreita de alguma oportunidade que se lhes afigure certa ...



...nos grossos e enrugados troncos, uma plêiade de aves insectívoras banqueteiam-se com os insectos xilófagos, responsáveis por doenças e morte das árvores, funcionando por isso como controladores naturais destas populações insectívoras e consequentemente contribuindo para a sanidade florestal.


Constatar-se-á que cada tronco, só por si, constitui um verdadeiro mosaico de nichos ecológicos.


Trepadeiras-comuns (Certhia brachydactyla), mimetizadas pela sua plumagem castanha sarapintada, identificam-se claramente pelo seu comprido e encurvado bico, que utilizam à medida que trepam em espiral pelos troncos, para da casca dos mesmos extraírem os referidos xilófagos.




Pertencentes a uma família diferente da espécie anterior, as trepadeiras-azuis (Sitta europaea), com a plumagem dorsal azul-acinzentada e um bico pontiagudo e comprido, apesar de incluírem na sua dieta frutos secos e sementes, também não desperdiçam os insectos xilófagos. E fazem-no de uma forma que a sua parenta não o consegue de todo; explorando os troncos, descendo de cabeça para baixo!    



Também o pica-pau-malhado-grande (Dendrocopus major) é outra das espécies para quem os troncos das caducifólias constituem habitat privilegiado. Fazendo-se ouvir à distância, quer pelos seus estridentes chamamentos, quer pelo tamborilar na madeira do seu forte e aguçado bico ao escavar cavidades profundas, incluem, sobretudo na sua dieta de verão, grande quantidade destes mesmos insectos, que extraem do interior dos buracos.



São também estes atraentes marceneiros florestais que, ao abrirem esses inúmeros orifícios nos troncos, irão disponibilizar alojamento para outras aves, roedores e rapinas nocturnas.




A vaquinha (Dorcus parallelipipedus), um escaravelho-veado de menores dimensões que a sua parente vaca-loura, é uma espécie para quem a floresta caducifólia é imprescindível pois, enquanto adulto, alimenta-se da seiva que corre nos troncos dessas árvores. É também nos tocos mortos dos carvalhais que as fêmeas depositarão os seus ovos.





(continua)

terça-feira, 29 de julho de 2025

Vida para além da morte: a floresta

 




 

A floresta é um mundo extraordinário! 

Mundo, onde um número incomensurável de viventes se escondem por entre folhas, troncos e ramos, sempre pintados por uma luminosidade coada. 



Este mundo extraordinário desenrola-se e sobrevive graças a um outro, não menos assombroso, que por ter uma existência ao nível do subsolo não está sujeito ao complexo jogo de sombras que a floresta oferece. Neste novo mundo, a escuridão é total.



Absorvendo o dióxido de carbono existente no ar, a água e os sais minerais existentes no subsolo, alguns dos inquilinos desse mundo superficial, como as árvores, crescem numa competição pela altura e pela luz solar directa, .....



.... enquanto outros, como a vegetação rasteira, estendem os seus caules na horizontal, de modo a ocuparem a maior superfície possível evitando serem sufocadas por outras espécies. 



Outros ainda, como os fungos e os líquenes,  formam associações simbióticas com espécies animais e plantas, vivendo tanto no solo como nos troncos.



A floresta é, pois, um mundo assombroso, onde esta comunidade silenciosa e de grande imobilidade, garante lar, alimento e abrigo a uma outra comunidade que prima pelo movimento e pelos sons, sejam estes sussurrantes ou clamorosos.  




A floresta vive, deste modo, de variadíssimas interacções. 

Interacções entre reinos. O vegetal, o animal e esse outro não menos mágico onde se incluem os decompositores. 

Os seres da floresta nascem, crescem, reproduzem-se, envelhecem e morrem, cumprindo, assim, o ciclo inevitável da vida e da morte. 


Só que a morte neste mundo fantástico constitui o impulso decisivo que dá lugar a novas vidas.

De facto, sempre que as células falecem e os seres vivos tombam no solo florestal, entram em jogo aqueles outros intervenientes, aqueles que integram esse terceiro reino. Um reino de seres, que de uma forma ou de outra, conseguem decompor ossos, pêlos, penas, tecidos e células. 



Tudo convertido em água, dióxido de carbono, sais minerais e energia. 

Sais minerais que dissolvidos na água entrarão de novo em circulação, permitindo a manutenção do impulso vital.

Todos estes nutrientes libertados no solo e na água serão absorvidos em primeira instância pelos produtores (plantas) e mais tarde integrados nos consumidores (animais).

Processo quase invisível mas de existência imprescindível!

  

(continua)


quinta-feira, 5 de junho de 2025

Dia Mundial do Ambiente em Ovar - Agir pelo desenvolvimento da nossa terra!

 





O concelho de Ovar precisa urgentemente de políticas de conservação e valorização do seu património ambiental.

Há que Agir de forma decidida no sentido de inverter a contínua falta de políticas ambientais assertivas.




sexta-feira, 21 de março de 2025

Dia da Árvore / Dia da Floresta

 




 

Distantes vão os anos em que as mentes de então tomaram consciência da importância em plantar árvores sobre as dunas litorais de modo a fixarem-se as areias levadas pelos fortes ventos de noroeste.

Plantar e cuidar dessas mesmas plantações eram os objectivos dos Serviços Florestais em finais do sec XIX .

Surgiriam, assim, extensas plantações de pinhal em distintos sectores da faixa marítima portuguesa. Entre Esmoriz e Leiria os areais passaram a suportar uma extensa mancha de pinheiros-bravos (Pinus pinaster), com os quais conviviam pinheiros-mansos (Pinus pinea), choupos-negros (Populus nigra), amieiros (Alnus glutinosa), salgueiros (Salix sp.) samouco (Myrica faya), ……, e camarinheiras (Corema album), entre outras.      



Apesar das matas não constituírem um verdadeiro bosque, nunca deixaram de representar um ecossistema muito particular, com uma importância relevante na biodiversidade litoral.

Aqui instalaram-se comunidades de aves, como a águia-d’asa-redonda (Buteo buteo), o gavião (Accipiter nisus), o açor (Accipiter gentilis), a coruja-do-mato (Strix aluco), a galinhola (Scolopax rusticola), a rola-brava (Streptopelia turtur), além de variadíssimas espécies de pássaros, como o pica-pau-malhado-grande (Dendrocopus major), o torcicolo (Jynx torquilla) e a trepadeira azul (Sitta europaea).

Aqui se instalaram, igualmente, comunidades de mamíferos, como o coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus), a gineta (Genetta genetta) e o texugo (Meles meles). De répteis, como a cobra-rateira (Malpolon monspessulanus), a cobra-de-escada (Elaphe scalaris) e a lagartixa-do-mato-comum (Psammodromus algirus). De anfíbios, como o sapo-de-unha-negra (Pelobates cultripes) e o sapinho-de-verrugas-verdes (Pelodytes punctatus), ….. de insectos, de musgos e de líquenes.




Instalaram-se, porque agora na mata ovarense (localmente designada como mata da Bicha ou mata de Maceda e administrativamente designada como Perímetro Florestal de Ovar) não se instalam. Não se instalam, porque deixaram de ter condições para tal.

As comunidades faunísticas e botânicas no presente são, por isso, uma pálida imagem do que foram no passado. É que enquanto os Serviços Florestais de outrora plantavam e cuidavam das matas, o ICNF de agora corta árvores e vende madeira, permitindo, ademais, que as autarquias ávidas de “ecologia” desafectem áreas sem qualquer motivo justificador.



Nos últimos anos tem sido “um vê se te avias”. Os cortes nesta zona multiplicam-se. E recentemente o ICNF com o beneplácito da autarquia vareira estruturaram um novo Plano de intervenção nesta mata, ainda mais gravoso que o anterior.

A mata vareira será destruída às parcelas. Uma aqui, outra acolá, em zonas interiores da mancha florestal (para não dar tanto nas vistas), até ao destino final que será a perda de um recurso municipal secular.

Espécies emblemáticas dos habitats costeiros como a camarinheira, já extinta noutros sectores ibéricos, mas aqui ainda presente como uma relíquia natural, corre o risco de se extinguir a curto prazo juntando-se, assim, a várias das espécies atrás mencionadas que aqui abundavam.



Este estado de coisas não deve e não pode continuar. A mata que constitui o Perímetro Florestal de Ovar deve continuar a constituir o ecossistema de outros tempos.

A destruição de sucessivas parcelas da mata contrariam, aliás, o disposto no art.º 25 da parte VI do Decreto de 24 de Dezembro de 1901 (em que assenta a gestão actual da área por parte do ICNF) ao desprotegerem o solo, fomentando a mobilização dos areais.

Dado que o estatuto de Perímetro Florestal não garante a sobrevivência deste ecossistema, é importante que o mesmo integre a rede nacional de áreas protegidas através da figura de “Área de Paisagem Protegida da Floresta de Ovar”.

É urgente que a União Europeia tome conhecimento do que de errado se faz por aqui e da vontade das populações locais em preservarem o seu património florestal!


sábado, 2 de novembro de 2024

Roncos de Outono

 




Estamos em finais de Setembro. 

Os dias notam-se um pouco mais frios e as caducifólias começaram a desprender as suas primeiras folhas.

Pelos dispersos redutos da floresta mediterrânica, saída do Verão quente que se abateu dramaticamente sobre a exagerada mancha de eucaliptos - notáveis  poluentes dos ecossistemas ibéricos - ecoam os roncos dos gamos (Dama dama). Os machos adultos acabaram de entrar no cio.



Com um comprimento de cerca de metro e meio, uma altura pouco acima do metro, armações espalmadas, ainda com a plumagem de Verão - acastanhada e mosqueada de branco no dorso, com uma linha dorsal preta estendível até à cauda comprida - ... 



... e com a garupa bordejada de negro, em forma de ferradura...



... estes machos procuram reunir o maior número possível de fêmeas, de forma a assegurarem os seus haréns. 

É, então, frequente verem-se os machos dominantes a seguirem as fêmeas, para perceberem se as mesmas se encontram predispostas para a cópula. 



Por vezes, neste período de acasalamentos, ao macho dominante junta-se um segundo macho subalterno hierarquicamente, sem direito a acasalar. 




Nas clareiras da floresta, os machos em cio, ao mesmo tempo que vão emitindo os seus roncos vão raspando o solo com os cascos, pisando arbustos, agredindo troncos de árvores, ao mesmo tempo que urinam para delimitar território.



O dia-a-dia de um destes machos dominantes é tudo menos tranquilo. 

Entre as lutas com machos rivais que o desafiam e querem ficar com o seu harém de fêmeas ...




... até à vigia e cobertura das mesmas ...




... o macho reprodutor vê as suas energias esgotarem-se rapidamente, pois quase não tem tempo para se alimentar e descansar convenientemente.


A partir do início de Outubro a pelagem do gamo começa a escurecer tornando-se cinzenta escura, com as manchas dorsais a escurecerem também. Apenas a região ventral permanecerá de cor clara. 



A espécie apresenta dimorfismo sexual evidente. Os machos adultos apresentam hastes que chegam ao meio metro de comprimento...




... enquanto as fêmeas estão desprovidas de protuberâncias na cabeça.



Os machos quando ainda jovens e sem armações distinguem-se das fêmeas pelo tufo de pêlos que envolve o pénis.



A brama do gamo é o prelúdio de um novo ciclo para a espécie, que se irá desenrolar ao longo de todo o ano.