segunda-feira, 15 de junho de 2026

O pecado ecológico (II)





 

(continuação)


O tempo passa rápido, sobretudo aquando do maquinar de decisões que surgem como imposições. 

Parece que foi ontem, mas foi há três anos que neste espaço se alertava para o que se antevia: a destruição total, sem motivo justificativo, do arvoredo existente na envolvência da Igreja Matriz de Ovar!


                                                                                                                                            Fonte: Google Earth (1985)

À data e face a uma argumentação falaciosa de que o referido arvoredo estava doente (com apenas um exemplar alegadamente confirmado) deu-se então início ao primeiro ensaio de agressão ao património natural e paisagístico, que durante décadas ornamentou a Igreja Matriz de Ovar, tal como se registou na primeira parte desta abordagem.

No momento presente e a pretexto duma pretensa “requalificação das áreas envolventes” da igreja, todas as árvores sobreviventes ao primeiro assalto foram destruídas.




É difícil acreditar que, perante tantas prioridades onde gastar os sempre magros recursos financeiros, os naturais de Ovar alguma vez tenham sentido como uma premência reformular as áreas envolventes da igreja e muito menos considerar o abate das inofensivas árvores!

Mas a verdade nua e crua é que o atentado está consumado! 




É claro que este tipo de intervenções danosas para com os espaços verdes, normalmente são acompanhadas de medidas compensatórias, que no caso concreto deveriam passar pela plantação de outras espécies arbóreas de copas capazes de, a médio prazo, conferirem sombras e um ambiente acolhedor. 

Só que não! O projecto recentemente tornado público parece privilegiar, pelo contrário, um ambiente árido, onde se destaca a altivez … dos ciprestes e não só.

  


De facto, é curiosa e muito pouco equilibrada a composição arbórea prevista para o lado norte da igreja, com a presença de um único cedro do Líbano e um conjunto de doze ciprestes. 

Curioso é ainda mais, esta área ser designada (no desdobrável de apresentação) como "jardim introspectivo", dado que será pouco apetecível fazer-se qualquer exercício desta natureza sentado sob um sol intenso, sem o abrigo de uma boa sombra e a levar com uma forte chapada de luz nos olhos, como consequência do reflexo dos raios nos muretes brancos. 



E porque não colocar apenas dois ciprestes junto à entrada principal do cemitério e requalificar a restante área com exemplares de Quercus sp. ou outras similares? É que estas espécies são autóctones, caducifólias e cumprem perfeitamente com todas as funções estéticas e de protecção! Ou não? 

 

Sobre o conteúdo de um pequeno texto contido no referido desdobrável, intitulado "Um caminho de futuro", parece assertivo que no momento presente seja importante requalificar o património paroquial "pelos valores que representa para a comunidade", bem como, por "ir ao encontro de novas formas de acessibilidade" aos espaços em causa. 

Contudo, e no que respeita à citação contida no último parágrafo de que "... valores, crenças, memórias e histórias (devam estar) em contínua evolução", apraz-me recordar que nem toda a mudança traduz evolução; frequentemente as mudanças impetuosas e irreflectidas resultam em involução.  E é por demais evidente que, infelizmente, a requalificação arbórea anunciada para o espaço envolvente à igreja cabe nesta última categoria.

Também não me parece razoável (nem evolutivo) que não tenha sido dada a oportunidade aos paroquianos de poderem ter uma palavra sobre as intervenções pensadas para a envolvência paisagística da sua própria igreja matriz. Tanto mais que, é sobretudo a eles que é sempre solicitada a comparticipação nas obras paroquiais.



Em boa verdade deveriam ter sido oferecidas a estes últimos diferentes propostas para a requalificação do espaço em causa, as quais seriam posteriormente alvo de apreciação por parte dos mesmos. 

Uma vez que os autores do projecto, os seus donos e os esperados contribuintes estão devidamente identificados ...





... as opiniões de cada paroquiano, à falta de melhores opções, poderiam chegar facilmente a quem de direito mediante, por exemplo, os habituais envelopes que são usados para as ofertas monetárias para este tipo de obras.

 


 

Todos ganhariam. 

Uns ganhariam humildade no serviço a que se propõem, outros sentir-se-iam participativos no processo de decisão e até os envelopes ganhariam outra valência, pois deixariam de ser unicamente meio de transporte de notas bancárias para passarem a transportar também (e democraticamente) as opiniões dos paroquianos.

Por último, resta esperar que toda esta obra de pretensa requalificação, cujo orçamento não se conseguiu enxergar, não tenha sido perpetrada para no seu término, tão-sòmente, garantir o direito a alguém de ver o seu nome gravado numa almejada placa comemorativa!



segunda-feira, 11 de maio de 2026

Entre as planícies cerealíferas e as florestas boreais

 





Numa gélida manhã do mês de Abril, sons secos repetitivos sentidos cada vez mais próximos fazem erguer o olhar por entre a densa malha de imponentes espruces e pinheiros nórdicos.

Trata-se da passagem de mais um bando de centenas de grous-comuns (Grus grus) batendo compassadamente as asas a caminho dos terrenos encharcados que emergem na floresta boreal.



Por meados de Maio, os casais formados, com uma única postura anual, incubam já, entre um a três ovos, sobre um amplo ninho construído com material vegetal, nas proximidades de charcos pouco profundos, de juncais ou de ribeiros, sempre ao abrigo das manchas florestais próximas. 

Embora a tarefa da incubação possa ser levada a cabo por ambos os progenitores, a maior parte das vezes é a fêmea que incuba, permanecendo o macho na sua proximidade em atitude de vigia.



A incubação dos ovos irá demorar cerca de um mês dando continuidade a uma maravilhosa epopeia, que poderá ser aqui abordada em futuro apontamento, ...

... mas a qual teve início há mais de meio ano, quando estas grandes pernaltas, fugindo aos gelos do norte da Europa se banquetearam plàcidamente durante meses, dispersas em bandos pelas planícies e montados do sul da Ibéria.



O grou-comum é uma ave com uma envergadura pouco superior à da cegonha-branca (Ciconia ciconia), pois tal como esta possui patas e pescoço bastante compridos. 

As aves adultas apresentam a plumagem com uma tonalidade geral de cor cinza, com branco e preto na cabeça e no pescoço e a coroa tingida de vermelho.



Ao contemplar estas encantadoras aves na sua lenta locomoção, ressaltam as suas compridas penas da cauda, por assumirem uma forma intumescente.



Os juvenis distinguem-se facilmente por não apresentarem o padrão contrastante da cabeça e pescoço dos adultos, apresentando essas partes com uma tonalidade mais acastanhada.



Quando emitem os seus chamamentos, com o pescoço esticado e o bico dirigido para cima, os grous fazem-se ouvir ao longe, na calmaria da planície.



Enquanto pastam há sempre algum indivíduo de sentinela! De cabeça levantada e olhando em redor, estes atentos vigilantes, quando assustados, emitem um grito de alarme que faz lembrar o som de uma corneta. 




Então, uma a uma, as aves começam a levantar ...




até que, a dada altura, todo o bando já está no ar, afastando-se do local.


Durante o Outono e o Inverno, passados nas planícies alentejanas e andaluzas, o grou-comum tem uma alimentação de base predominantemente herbívora. 

Além da disponibilidade de bolota oferecida pelos montados de azinho e de diversos grãos e cereais nos campos de cultivo, a espécie ingere ainda raízes, tubérculos e caules de plantas silvestres.  

Embora menos comum, a dieta pode integrar grandes insectos, pequenos mamíferos, répteis, anfíbios e pequenos pássaros. 

Deste modo, com tanto alimento disponível, uma boa parte do dia é passado a comer!




Contudo, é durante estes momentos de repasto comunitário que as aves, por vezes, se envolvem em algumas breves escaramuças.





Ao longe e em voo, o grou-comum diferencia-se da garça-real (Ardea cinerea), não só pelo seu maior tamanho mas sobretudo por voar com o fino pescoço completamente estendido e as asas aplanadas ...



... enquanto esta, voa com o pescoço recolhido e as asas arqueadas para baixo.




Após passarem o dia deambulando pelos campos, onde comem e repousam, os grous-comuns dirigem-se ao pôr-do-sol para os locais de dormitório, onde passarão a noite. 

É então que, de qualquer lugar no monte, se poderá observar a passagem de grupos de aves provindas de diferentes direcções mas convergindo todas no mesmo destino. 

A chegada dos grous-comuns aos dormitórios é um espectáculo natural de grande beleza, face à forma aerodinâmica assumida por estas esquadrilhas durante a aterragem.





Bem nutridos de gordura e por conseguinte preparados para uma fase decisiva das suas vidas, é por meados de Fevereiro que os milhares de aves que se dispersaram durante o inverno pelas planícies da península irão abandonar definitivamente esta região para encetarem a época reprodutiva.

Empreendendo a longa viagem migratória de cerca de 4000 Km para norte, voando bem alto, aproveitando sempre que possível as correntes térmicas e numa formação em V de forma a conseguirem uma maior economia de energia, os grous-comuns partem, seguindo a rota europeia ocidental.



As estepes cerealíferas de Portugal e Espanha ficam, assim, vazias desta bela e vulnerável espécie invernante, que regressará mais uma vez a estas regiões lá para o próximo mês de Novembro.





domingo, 8 de março de 2026

Do ameno outono ao gélido inverno ! (VI)


 


(continuação)


De quando em vez, descortina-se bem alto no céu a passagem de uma cegonha-branca (Ciconia ciconia), planando segundo uma trajectória ampla e demorada.



Chegadas aos ninhos do ano anterior por finais de Novembro ou princípios de Dezembro, as cegonhas-brancas deambulam, agora, pelos campos húmidos em busca do alimento, que as recentes descargas de chuva tornaram mais acessível.



Quem também explora a vasta população insectívora que pulula por estes prados húmidos é a pequena e esbelta petinha-dos-prados (Anthus pratensis), uma espécie da família das alvéolas, mas que ao contrário destas apresenta o dorso, flancos e peito riscados. 



A meio da tarde, quando se torna já perceptível uma quebra na temperatura do ar e na luminosidade ambiente, começa a fazer-se ouvir o coro dos gregários pardais-comuns (Passer domesticus), cujos bandos já se preparam para o recolhimento nos arbustos mais densos.



Ao longo de todo o dia, quer as pegas-rabudas quer as rolas-turcas não se cansaram de cruzar os parques com os seus apelativos voosUmas e outras deram mostras de que a natureza apesar de muito encharcada continua extraordinariamente viva!


Quando a tarde finalmente declina ...



bandos de gaivotas-de-patas-amarelas (Larus michahellis) voam sobre a cidade e sobre o parque. Estas aves, impossibilitadas de encontrarem alimento nas águas revoltas do oceano ....



deixaram-se arrastar pelos fortes ventos até à urbe, onde aí encontram seguramente desperdícios que lhes satisfazem o apetite. 



Entretanto, a noite aproxima-se em correria, pois o crepúsculo já se acabou de instalar. 



As garças-brancas-pequenas, (Egretta garzetta) que durante o dia pescaram em distintos sectores do rio, já começaram a chegar ao acacial (Acacia sp.) para aí passarem a noite.



Os imponentes bordos (Acer sp.), de copas arredondadas mas totalmente despidos de folhas, apresentam-se ao crepúsculo como uma pálida imagem daquilo que representavam há uns três meses atrás.



Então, repletos ainda de uma densa cobertura de folhas, eram palco de um majestoso espectáculo natural.


Diariamente, durante este final do dia, surgiam de forma repentina e bem alto no céu, provenientes dos campos agricultáveis da periferia da cidade e nos quais se banqueteavam ao longo do dia, grandes grupos de estorninhos-pretos (Sturnus unicolor), os quais evoluindo em trajectórias incertas, ...



acabavam por se desagregar em grupos mais pequenos....




para logo se voltarem a reagrupar, volteando de novo todos em conjunto. 

Após estes elaborados exercícios, as muitas dezenas de aves desciam vertiginosamente em direcção aos seus dormitórios, representados pelas mais altas copas do arvoredo, nomeadamente as dos plátanos-bastardos (Acer pseudoplatanus) existentes nos parques. 



O que se seguia depois era um intenso clamor de assobiadelas produzidas por parte dos elementos entretanto chegados com os que já lá se achavam antes, em que cada ave reivindicava um lugar de poiso para passar a noite. 



Assim, durante o inverno, os estorninhos-pretos são obrigados a procurar fora dos parques outras copas perenes que lhes sirvam de dormitórios.


Outono e inverno são duas estações maravilhosas e ricas de vida. 

As intempéries que durante estes dois períodos do ano se produzem afectam os mais distintos ecossistemas da região, incluindo aqueles que se encaixam na malha urbana, como é o caso dos parques citadinos. 

Contudo e apesar das ventanias e das cheias transformarem os parques urbanos, os habitats e os seres vivos que lá se encontram não fogem, não migram, não desaparecem. 

A natureza dos parques adapta-se e sobrevive, rejuvenescendo logo de seguida.


O irromper das primeiras flores, pequeninas e róseas, nas jovens ramagens da ameixieira-de-jardim (Prunus cerasifera)...



bem como, das igualmente simples e belas, do dente-de-leão (Taraxacum ekmanii), que emergem no solo encharcado, pré-anunciam a chegada da Primavera.



Alguns dias depois, a chuva deixou de ser uma presença diária, a temperatura do ar tornou-se mais amena, o sol finalmente brilha e os seres vivos sentem-se uns sobreviventes!

Quem se adianta em comprová-lo é o chamariz (Serinus serinus) com as suas cantorias matinais, impossíveis de não serem escutadas por quem o encontra.



Mais alguma chuva virá, mais ventos chegarão, uma ou outra nova depressão se fará sentir. Mas o caminho para a primavera é já de todo irreversível.



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Do ameno outono ao gélido inverno ! (V)


 




(continuação)


O inverno tem decorrido ao sabor de sucessivas depressões, frentes e tempestades, as quais têm arrastado consigo muita, mas mesmo muita chuva.



Os rios e ribeiros que atravessam as zonas verdes da cidade correm, por isso, com grandes caudais, que acabam por transbordar para as margens, alagando superfícies até então inatingíveis.



São estes caudais de cheia que arrastam, invariavelmente, materiais das mais diversas características e proveniências.



Sempre atenta ao que a forte corrente do rio lhe pode oferecer, a garça-branca-pequena (Egretta garzetta), qual estátua viva, espera pacientemente junto ao açude pela oportunidade de capturar alguma presa aturdida.



O corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbojá foi mais assíduo por estes cursos de água, podendo este facto revelar uma escassez de peixe nos mesmos. Tal escassez poderá estar relacionada com a frequente má qualidade das águas.

Esta ave negra, com a ponta do bico em gancho e que voa com o pescoço esticado alinhado com o corpo...



ao contrário da garça-branca-pequena, escolhe para pescar sectores onde a água corre com menor turbulência.



Após a pescaria, o corvo-marinho-de-faces-brancas sai da água e já na margem abre as suas grandes asas durante um bom intervalo de tempo, de modo a proceder à secagem das mesmas. 

Este comportamento tem a ver com o facto desta ave não possuir a capacidade que outras aves aquáticas têm de impermeabilizar as suas penas.



Algumas famílias de patos-reais (Anas platyrhynchos) descansam nas margens, recuperando do dispêndio energético a que a natação nestas águas agitadas obriga.



Quem prefere fugir à intempérie invernal protegendo-se dos fortes ventos e da chuva em catadupa, são as andorinhas-das-rochas (Ptyonoprogne rupestris) que, durante estes períodos mais agrestes, se deixam aninhar nos abrigados parapeitos dos prédios implantados na periferia das áreas verdes.



Sobre as ramagens nuas dos salgueiros (Salix sp.), outros acrobatas - não menos belos mas muito menos melódicos do que os fringilídeos abordados no apontamento anterior - desenham trajectórias semelhantes a estes. 

Tratam-se dos belíssimos chapins-rabilongos (Aegithalos caudatus) ...


que, com as suas imponentes caudas a funcionarem como balancé, conseguem posicionar-se igualmente de cabeça para baixo para mais facilmente apanharem os pequenos insectos.



Os seus parentes afastados, porque pertencentes a uma outra família, os chapins-reais (Parus major), por seu lado, preferem antes as coníferas e as árvores perenes onde é mais fácil encontrar insectos e pulgões entre os ramos e as folhas.



(continua)