Durante toda a noite, os fortes ventos, a ocorrência de trovoada e a chuva impiedosa açoitaram a natureza. Mais uma tempestade que se colou à anterior, não dando tréguas aos animais que andam desauridos, ao arvoredo cada vez mais fragilizado e aos homens que começam a sofrer danos irreparáveis de vidas e bens.
Na verdade, o vento em tropel varreu os parques sob a forma de intensas rajadas, vergando até ao limite da elasticidade os altos troncos arbóreos.
Após o pico da tempestade, a manhã acordou com um semblante que reflectia o dramatismo da noite, não indiciando contudo, melhorias para o novo dia que estava a começar.
Com as raízes ensopadas de água e fragilizados pela enorme pressão exercida pelas desenfreadas massas de ar, os mais débeis e mais velhos daqueles matulões acabaram por tombar durante a noite. Pela manhã, ao serem decepados deixaram os seus lugares vagos nestes ecossistemas verdes da cidade.
Verdade seja dita que, sempre que desaparece uma árvore, no resquício sobrante logo se instala uma comunidade de fungos e líquenes, que tratarão rapidamente do enriquecimento em nutrientes desse mesmo local.
A natureza é mesmo assim. Nela, não há lugar para espaços nem tempos mortos. As adversidades constituem um trampolim para novas oportunidades de vida.
A tempestade vigente, à semelhança das anteriores, não conhece tréguas, pois apesar da chuva amainar por algum tempo, o ribombar dos trovões ao longe, num céu de nuvens em correria e fechado completamente ao sol vai para duas semanas, anunciam que essas trombas de água não deverão demorar muito tempo a cair mais uma vez.
Os animais dos parques vão, pois, ter que aguardar recolhidos até que a ventania e a chuva diluviana passem a assolar outras paragens.
Com a bonança entretanto instalada, a vida selvagem é retomada nos parques citadinos.
As tardes, contudo, são invariavelmente escuras, porque o sol além de não ser capaz de romper a alta camada de nuvens e projectar os seus raios sobre a terra, deita-se bem cedo sobre o horizonte no seu aparente movimento.
Esta escassez de luminosidade não impede que uma das famílias mais agitadas, mais coloridas e mais sonoras, que habitam os parques, se entreguem às suas deliciosas acrobacias. A referida família é a dos fringilídeos (Fringillidae).
Apesar dos tentilhões, verdilhões, chamarizes, ... serem bem conhecidos de todos, não impede que, sempre que se deparam aos nossos olhos, fiquemos a contemplá-los demoradamente.
Todas estas espécies, granívoras por excelência, encontram nos parques citadinos locais que os atraem de sobremaneira. Um desses pólos de atracção são os velhos frutos dos liquidambares (Liquidambar styraciflua), onde algumas destas aves encontram as sementes que tanto apreciam.
Os liquidambares, que nos deliciam no outono pelo colorido avermelhado das suas folhas ...
são, então, o palco das acrobacias de alguns fringilídeos durante o inverno.
Neste palco natural encontramos os belíssimos pintassilgos (Carduelis carduelis), espécie aqui residente ao longo de todo o ano ...
bem como, os invernantes lugres (Carduelis spinus), que no final da estação hão-de subir até às grandes florestas boreais para aí nidificarem.
Cada copa de liquidambar é, então, invadida por bandos mistos destas duas referidas espécies.
Volteando os ramos para mais facilmente alcançarem as sementes, frequentemente pendurados de cabeça para baixo, sem cantorias e com bastante pressa, abastecem-se de energia ...
Um pouco afastados deste local e poisados num imponente salgueiro-branco (Salix alba) está um outro membro da família. O tentilhão (Fringilla coelebs).
Mais pesado e com um padrão cromático mais esbatido do que aquele que apresenta na primavera e no verão, procura sementes de forma mais acessível, evitando as arrojadas acrobacias dos seus parentes.
Com a mesma frequência com que explora os ramos, desce igualmente ao solo onde encontra alimento.
Neste húmido e lúgubre fim de tarde, em que a chuva volta a cair, embora de forma menos intensa, pegas-rabudas (Pica pica) correm sobre o relvado na procura de alimento, detendo-se subitamente à escuta, para avançarem logo de seguida caso não haja qualquer suspeição de perigo.
Os melros-pretos (Turdus merula) também lhes seguem o exemplo.
A uma certa distância destes protagonistas, alvéolas-brancas (Motacilla alba) caminham compassadamente sobre a relva, muito atentas aos insectos que precisam de encontrar.
(continua)















































