sábado, 31 de janeiro de 2026

Do ameno outono ao gélido inverno !

 




As amenas temperaturas que habitualmente marcam o fim do verão e o início do outono permitem assistir todos os anos, em habitats arbustivos como os parques de uma cidade, à estadia massiva dos papa-moscas (família Muscicapidae). Esta família de passeriformes representa, de facto, um dos ícones da migração outonal das aves quando a caminho do sul.

Sem pudor algum, estas vivas e pequenas aves, de que o papa-moscas-preto (Ficedula hypoleuca) é o exemplo de maior visibilidade, esvoaçam sem coacção entre as ramagens do arvoredo em redor,...



depois de em voo já se terem banqueteado com os tão desejados insectos que lhes servem de alimento. 



A espécie apresenta um claro dimorfismo sexual que passa essencialmente pela tonalidade da cobertura superior do corpo, sendo esta castanha na fêmea e em alguns machos e negra na maioria destes últimos. Como elemento de diferenciação decisiva entre os dois sexos está o facto dos machos apresentarem, ao contrário das fêmeas, uma mancha branca em cada lado da fronte.



Quando pousados têm o costume de elevar uma das asas enquanto agitam nervosamente a cauda. A sua presença é frequentemente acompanhada pelas suas vocalizações, entre as quais um característico e curto estalido. 



Neste período do calendário, outros migradores, até então presentes nos parques durante a primavera e o verão, como a encantadora poupa (Upupa epops), vão já a caminho do continente africano, pese embora, muito raramente no centro do país, um ou outro indivíduo possa não cumprir este desígnio migratório deixando-se ficar durante toda a estação fria.




À medida que o outono avança e sobretudo quando o inverno chega, as sucessivas vagas de frio, que pintam de branco as montanhas mais altas do país, tornam a planície costeira húmida, gélida e cinzenta.




Os parques citadinos, muito despidos de folhagem e com as perenes a marcarem alguma diferença, parecem resumir-se a conjuntos de troncos, em que apenas a variabilidade da forma e estatura dos mesmos são capazes de quebrar a monotonia da paisagem e do silêncio produzido por aqueles que por estes sombrios dias não ousam por aqui deambular.




Não se enganem, contudo, com esta aparência! Porque, na verdade, trata-se apenas e só de aparência!


Na realidade, caminhar num destes dias de frio intenso permite-nos ter uma percepção bem diferente destes espaços verdes, quer seja durante a fria manhã ...



quer seja durante o prematuro e sombrio fim de tarde.




(continua)


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Nova ameaça para a floresta de Ovar

 





Depois das acácias (Acacia sp.) e da erva-das-pampas (Cortaderia selloana) chegou a háquea-espinhosa (Hakea sericea) ao concelho de Ovar. 

Originária do sul da Austrália, esta espécie está já instalada, faz algum tempo, em alguns sectores do perímetro florestal norte das dunas de Ovar, constituindo-se, assim, como a mais recente espécie invasora da nossa floresta.



A háquea-espinhosa apresenta-se sob a forma de arbusto ...



ou de árvore de médio porte.




Com folhas perenes, em forma de agulha e muito picantes...




possuem flores brancas e agrupadas, que despontam entre Janeiro e Abril. 




A reprodução da espécie faz-se através das sementes contidas nos seus frutos acastanhados.



Estes, depois de formados podem permanecer fixos à árvore durante bastante tempo constituindo, deste modo, um importante aglomerado de depósitos de sementes.



E é neste ponto que advém simultaneamente o perigo e o sucesso da expansão desta espécie, uma vez que este grande número de sementes, caso se libertem dos frutos, podem ser transportadas pelo vento até grandes distâncias implantando a háquea-espinhosa em áreas até então não afectadas.



E quando é que a libertação das sementes pode acontecer? Precisamente quando estas árvores são queimadas ou cortadas de forma inapropriada. Tal como aconteceu na mata junto à Habitovar/variante para o Centro Comercial Vida.



Acresce ainda que, a falta de controlo dos povoamentos de háquea permite que a espécie forme bosques impenetráveis para os animais além de impeditivos da fixação de espécies sensíveis da flora autóctone, como a camarinha (Corema album).




Mais uma vez será esta "desatenção" para com a gestão dos recursos naturais que irá agravar o desequilíbrio ecológico do Perímetro Florestal das Dunas de Ovar.

É pois necessário retirar de imediato os espécimenes presentes nesta parcela florestal, bem como em outras parcelas de Maceda e Cortegaça, antes da maturação das sementes, mas sempre de acordo com a metodologia técnica apropriada, conhecida e documentada.



quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Vida para além da morte: os troncos

 






Por entre a multidão de folhas que anualmente revestem a floresta, os sóbrios troncos que já assistiram à viragem de séculos e os contorcidos ramos das manchas remanescentes da primitiva floresta caducifólia portuguesa, constituída por carvalhos, cerejeiras, ulmeiros, castanheiros, freixos, azereiros, azevinhos, loureiros entre outras espécies ...



... deambulam outros tantos seres, também eles numerosos, ... 



... igualmente sóbrios ...




... e de sagaz agilidade.




Na verdade, o estrato arbóreo da floresta de folha caduca, só por si, constitui uma autêntica auto-estrada de vida! 



Enquanto nos píncaros das copas, corvídeos, como a gralha-preta (Corvus corone), repousam à espreita de alguma oportunidade que se lhes afigure certa ...



...nos grossos e enrugados troncos, uma plêiade de aves insectívoras banqueteiam-se com os insectos xilófagos, responsáveis por doenças e morte das árvores, funcionando por isso como controladores naturais destas populações insectívoras e consequentemente contribuindo para a sanidade florestal.


Constatar-se-á que cada tronco, só por si, constitui um verdadeiro mosaico de nichos ecológicos.


Trepadeiras-comuns (Certhia brachydactyla), mimetizadas pela sua plumagem castanha sarapintada, identificam-se claramente pelo seu comprido e encurvado bico, que utilizam à medida que trepam em espiral pelos troncos, para da casca dos mesmos extraírem os referidos xilófagos.




Pertencentes a uma família diferente da espécie anterior, as trepadeiras-azuis (Sitta europaea), com a plumagem dorsal azul-acinzentada e um bico pontiagudo e comprido, apesar de incluírem na sua dieta frutos secos e sementes, também não desperdiçam os insectos xilófagos. E fazem-no de uma forma que a sua parenta não o consegue de todo; explorando os troncos, descendo de cabeça para baixo!    



Também o pica-pau-malhado-grande (Dendrocopus major) é outra das espécies para quem os troncos das caducifólias constituem habitat privilegiado. Fazendo-se ouvir à distância, quer pelos seus estridentes chamamentos, quer pelo tamborilar na madeira do seu forte e aguçado bico ao escavar cavidades profundas, incluem, sobretudo na sua dieta de verão, grande quantidade destes mesmos insectos, que extraem do interior dos buracos.



São também estes atraentes marceneiros florestais que, ao abrirem esses inúmeros orifícios nos troncos, irão disponibilizar alojamento para outras aves, roedores e rapinas nocturnas.




A vaquinha (Dorcus parallelipipedus), um escaravelho-veado de menores dimensões que a sua parente vaca-loura, é uma espécie para quem a floresta caducifólia é imprescindível pois, enquanto adulto, alimenta-se da seiva que corre nos troncos dessas árvores. É também nos tocos mortos dos carvalhais que as fêmeas depositarão os seus ovos.





(continua)

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Por detrás das palavras: a cegonha-branca (3.ª parte)

 





A etapa de emancipação dos juvenis de cegonha-branca, bem como, todo o período de tempo gasto na preparação da espécie para a grande epopeia migratória que acontece no final de cada verão, foi o tema do apontamento apresentado neste espaço, intitulado "A cegonha-branca (IV)".


O vídeo apresentado enquadra toda a moldura dinâmica em que o texto assentou.

 



segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Por detrás das palavras: a cegonha-branca (2.ª parte)

 




Depois da sua chegada primaveril ao centro e norte de Portugal e após ter dado início à nidificação, a cegonha-branca entra numa nova fase: a de criar os seus filhotes até ao momento em que os mesmos se irão tornar independentes. 

Esta fase da vida das cegonhas havia sido abordada neste mesmo espaço, predominantemente em dois artigos: A cegonha-branca (II) e a cegonha-branca (III).  

O presente vídeo dedicado à espécie vem enquadrar a mensagem contida nos referidos textos.




domingo, 31 de agosto de 2025

Em boas mãos!

 




Não há dúvida nenhuma! 

O compromisso da Câmara Municipal de Ovar tem sido total. Compromisso com a cidade e com o ambiente.

Basta ver o estado actual do rio Cáster ao atravessar o Parque Urbano, bem no centro da cidade. 

Um luxo, um verdadeiro colírio para os olhos! 







A continuidade do percurso ao longo do Cáster no seu troço mais erudito, se assim se poderá designar, uma vez que vai do pólo Biblioteca/Centro de Artes até à Escola de Artes e Ofícios, mostra-nos mais do mesmo. 

Será que na biblioteca há falta de literatura técnica sobre manutenção de rios ou será antes necessário criar na escola de artes o ofício de guarda-rios?
















Seja lá qual for a razão, não se pense que todo este cenário, que obriga qualquer transeunte a parar e a questionar-se, foi arquitectado somente durante este ano. De forma alguma! 

Isto é o resultado de um trabalho aturado de vários anos de compromisso.


De compromisso com o desleixo e a falta de brio por esta cidade, afinal e apenas  sede do concelho! Será caso para se dizer que Ovar está em boas mãos?


p.s: melhor sorte teve Júlio Dinis quando por aqui passou há um século e meio atrás e conseguiu (hoje seria muito difícil...) inspirar-se no bucolismo destes lugares, para nos deixar as encantadoras Pupilas do Senhor Reitor...restam-nos, assim, essas belas recordações registadas por esse grande romancista! 


terça-feira, 29 de julho de 2025

Vida para além da morte: a floresta

 




 

A floresta é um mundo extraordinário! 

Mundo, onde um número incomensurável de viventes se escondem por entre folhas, troncos e ramos, sempre pintados por uma luminosidade coada. 



Este mundo extraordinário desenrola-se e sobrevive graças a um outro, não menos assombroso, que por ter uma existência ao nível do subsolo não está sujeito ao complexo jogo de sombras que a floresta oferece. Neste novo mundo, a escuridão é total.



Absorvendo o dióxido de carbono existente no ar, a água e os sais minerais existentes no subsolo, alguns dos inquilinos desse mundo superficial, como as árvores, crescem numa competição pela altura e pela luz solar directa, .....



.... enquanto outros, como a vegetação rasteira, estendem os seus caules na horizontal, de modo a ocuparem a maior superfície possível evitando serem sufocadas por outras espécies. 



Outros ainda, como os fungos e os líquenes,  formam associações simbióticas com espécies animais e plantas, vivendo tanto no solo como nos troncos.



A floresta é, pois, um mundo assombroso, onde esta comunidade silenciosa e de grande imobilidade, garante lar, alimento e abrigo a uma outra comunidade que prima pelo movimento e pelos sons, sejam estes sussurrantes ou clamorosos.  




A floresta vive, deste modo, de variadíssimas interacções. 

Interacções entre reinos. O vegetal, o animal e esse outro não menos mágico onde se incluem os decompositores. 

Os seres da floresta nascem, crescem, reproduzem-se, envelhecem e morrem, cumprindo, assim, o ciclo inevitável da vida e da morte. 


Só que a morte neste mundo fantástico constitui o impulso decisivo que dá lugar a novas vidas.

De facto, sempre que as células falecem e os seres vivos tombam no solo florestal, entram em jogo aqueles outros intervenientes, aqueles que integram esse terceiro reino. Um reino de seres, que de uma forma ou de outra, conseguem decompor ossos, pêlos, penas, tecidos e células. 



Tudo convertido em água, dióxido de carbono, sais minerais e energia. 

Sais minerais que dissolvidos na água entrarão de novo em circulação, permitindo a manutenção do impulso vital.

Todos estes nutrientes libertados no solo e na água serão absorvidos em primeira instância pelos produtores (plantas) e mais tarde integrados nos consumidores (animais).

Processo quase invisível mas de existência imprescindível!

  

(continua)