Numa gélida manhã do mês de Abril, sons secos repetitivos sentidos cada vez mais próximos fazem erguer o olhar por entre a densa malha de imponentes espruces e pinheiros nórdicos.
Trata-se da passagem de mais um bando de centenas de grous-comuns (Grus grus) batendo compassadamente as asas a caminho dos terrenos encharcados que emergem na floresta boreal.
Por meados de Maio, os casais formados, com uma única postura anual, incubam já, entre um a três ovos, sobre um amplo ninho construído com material vegetal, nas proximidades de charcos pouco profundos, de juncais ou de ribeiros, sempre ao abrigo das manchas florestais próximas.
Embora a tarefa da incubação possa ser levada a cabo por ambos os progenitores, a maior parte das vezes é a fêmea que incuba, permanecendo o macho na sua proximidade em atitude de vigia.
A incubação dos ovos irá demorar cerca de um mês dando continuidade a uma maravilhosa epopeia, que poderá ser aqui abordada em futuro apontamento, ...
... mas a qual teve início há mais de meio ano, quando estas grandes pernaltas, fugindo aos gelos do norte da Europa se banquetearam plàcidamente durante meses, dispersas em bandos pelas planícies e montados do sul da Ibéria.
O grou-comum é uma ave com uma envergadura pouco superior à da cegonha-branca (Ciconia ciconia), pois tal como esta possui patas e pescoço bastante compridos.
As aves adultas apresentam a plumagem com uma tonalidade geral de cor cinza, com branco e preto na cabeça e no pescoço e a coroa tingida de vermelho.
Ao contemplar estas encantadoras aves na sua lenta locomoção, ressaltam as suas compridas penas da cauda, por assumirem uma forma intumescente.
Os juvenis distinguem-se facilmente por não apresentarem o padrão contrastante da cabeça e pescoço dos adultos, apresentando essas partes com uma tonalidade mais acastanhada.
Quando emitem os seus chamamentos, com o pescoço esticado e o bico dirigido para cima, os grous fazem-se ouvir ao longe, na calmaria da planície.
Enquanto pastam há sempre algum indivíduo de sentinela! De cabeça levantada e olhando em redor, estes atentos vigilantes, quando assustados, emitem um grito de alarme que faz lembrar o som de uma corneta.
Então, uma a uma, as aves começam a levantar ...
até que, a dada altura, todo o bando já está no ar, afastando-se do local.
Durante o Outono e o Inverno, passados nas planícies alentejanas e andaluzas, o grou-comum tem uma alimentação de base predominantemente herbívora.
Além da disponibilidade de bolota oferecida pelos montados de azinho e de diversos grãos e cereais nos campos de cultivo, a espécie ingere ainda raízes, tubérculos e caules de plantas silvestres.
Embora menos comum, a dieta pode integrar grandes insectos, pequenos mamíferos, répteis, anfíbios e pequenos pássaros.
Deste modo, com tanto alimento disponível, uma boa parte do dia é passado a comer!
Ao longe e em voo, o grou-comum diferencia-se da garça-real (Ardea cinerea), não só pelo seu maior tamanho mas sobretudo por voar com o fino pescoço completamente estendido e as asas aplanadas ...
... enquanto esta, voa com o pescoço recolhido e as asas arqueadas para baixo.
Bem nutridos de gordura e por conseguinte preparados para uma fase decisiva das suas vidas, é por meados de Fevereiro que os milhares de aves que se dispersaram durante o inverno pelas planícies da península irão abandonar definitivamente esta região para encetarem a época reprodutiva.
Empreendendo a longa viagem migratória de cerca de 4000 Km para norte, voando bem alto, aproveitando sempre que possível as correntes térmicas e numa formação em V de forma a conseguirem uma maior economia de energia, os grous-comuns partem, seguindo a rota europeia ocidental.
As estepes cerealíferas de Portugal e Espanha ficam, assim, vazias desta bela e vulnerável espécie invernante, que regressará mais uma vez a estas regiões lá para o próximo mês de Novembro.



























































