domingo, 8 de março de 2026

Do ameno outono ao gélido inverno ! (VI)


 


(continuação)


De quando em vez, descortina-se bem alto no céu a passagem de uma cegonha-branca (Ciconia ciconia), planando segundo uma trajectória ampla e demorada.



Chegadas aos ninhos do ano anterior por finais de Novembro ou princípios de Dezembro, as cegonhas-brancas deambulam, agora, pelos campos húmidos em busca do alimento, que as recentes descargas de chuva tornaram mais acessível.



Quem também explora a vasta população insectívora que pulula por estes prados húmidos é a pequena e esbelta petinha-dos-prados (Anthus pratensis), uma espécie da família das alvéolas, mas que ao contrário destas apresenta o dorso, flancos e peito riscados. 



A meio da tarde, quando se torna já perceptível uma quebra na temperatura do ar e na luminosidade ambiente, começa a fazer-se ouvir o coro dos gregários pardais-comuns (Passer domesticus), cujos bandos já se preparam para o recolhimento nos arbustos mais densos.



Ao longo de todo o dia, quer as pegas-rabudas quer as rolas-turcas não se cansaram de cruzar os parques com os seus apelativos voosUmas e outras deram mostras de que a natureza apesar de muito encharcada continua extraordinariamente viva!


Quando a tarde finalmente declina ...



bandos de gaivotas-de-patas-amarelas (Larus michahellis) voam sobre a cidade e sobre o parque. Estas aves, impossibilitadas de encontrarem alimento nas águas revoltas do oceano ....



deixaram-se arrastar pelos fortes ventos até à urbe, onde aí encontram seguramente desperdícios que lhes satisfazem o apetite. 



Entretanto, a noite aproxima-se em correria, pois o crepúsculo já se acabou de instalar. 



As garças-brancas-pequenas, (Egretta garzetta) que durante o dia pescaram em distintos sectores do rio, já começaram a chegar ao acacial (Acacia sp.) para aí passarem a noite.



Os imponentes bordos (Acer sp.), de copas arredondadas mas totalmente despidos de folhas, apresentam-se ao crepúsculo como uma pálida imagem daquilo que representavam há uns três meses atrás.



Então, repletos ainda de uma densa cobertura de folhas, eram palco de um majestoso espectáculo natural.


Diariamente, durante este final do dia, surgiam de forma repentina e bem alto no céu, provenientes dos campos agricultáveis da periferia da cidade e nos quais se banqueteavam ao longo do dia, grandes grupos de estorninhos-pretos (Sturnus unicolor), os quais evoluindo em trajectórias incertas, ...



acabavam por se desagregar em grupos mais pequenos....




para logo se voltarem a reagrupar, volteando de novo todos em conjunto. 

Após estes elaborados exercícios, as muitas dezenas de aves desciam vertiginosamente em direcção aos seus dormitórios, representados pelas mais altas copas do arvoredo, nomeadamente as dos plátanos-bastardos (Acer pseudoplatanus) existentes nos parques. 



O que se seguia depois era um intenso clamor de assobiadelas produzidas por parte dos elementos entretanto chegados com os que já lá se achavam antes, em que cada ave reivindicava um lugar de poiso para passar a noite. 



Assim, durante o inverno, os estorninhos-pretos são obrigados a procurar fora dos parques outras copas perenes que lhes sirvam de dormitórios.


Outono e inverno são duas estações maravilhosas e ricas de vida. 

As intempéries que durante estes dois períodos do ano se produzem afectam os mais distintos ecossistemas da região, incluindo aqueles que se encaixam na malha urbana, como é o caso dos parques citadinos. 

Contudo e apesar das ventanias e das cheias transformarem os parques urbanos, os habitats e os seres vivos que lá se encontram não fogem, não migram, não desaparecem. 

A natureza dos parques adapta-se e sobrevive, rejuvenescendo logo de seguida.


O irromper das primeiras flores, pequeninas e róseas, nas jovens ramagens da ameixieira-de-jardim (Prunus cerasifera)...



bem como, das igualmente simples e belas, do dente-de-leão (Taraxacum ekmanii), que emergem no solo encharcado, pré-anunciam a chegada da Primavera.



Alguns dias depois, a chuva deixou de ser uma presença diária, a temperatura do ar tornou-se mais amena, o sol finalmente brilha e os seres vivos sentem-se uns sobreviventes!

Quem se adianta em comprová-lo é o chamariz (Serinus serinus) com as suas cantorias matinais, impossíveis de não serem escutadas por quem o encontra.



Mais alguma chuva virá, mais ventos chegarão, uma ou outra nova depressão se fará sentir. Mas o caminho para a primavera é já de todo irreversível.



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Do ameno outono ao gélido inverno ! (V)


 




(continuação)


O inverno tem decorrido ao sabor de sucessivas depressões, frentes e tempestades, as quais têm arrastado consigo muita, mas mesmo muita chuva.



Os rios e ribeiros que atravessam as zonas verdes da cidade correm, por isso, com grandes caudais, que acabam por transbordar para as margens, alagando superfícies até então inatingíveis.



São estes caudais de cheia que arrastam, invariavelmente, materiais das mais diversas características e proveniências.



Sempre atenta ao que a forte corrente do rio lhe pode oferecer, a garça-branca-pequena (Egretta garzetta), qual estátua viva, espera pacientemente junto ao açude pela oportunidade de capturar alguma presa aturdida.



O corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbojá foi mais assíduo por estes cursos de água, podendo este facto revelar uma escassez de peixe nos mesmos. Tal escassez poderá estar relacionada com a frequente má qualidade das águas.

Esta ave negra, com a ponta do bico em gancho e que voa com o pescoço esticado alinhado com o corpo...



ao contrário da garça-branca-pequena, escolhe para pescar sectores onde a água corre com menor turbulência.



Após a pescaria, o corvo-marinho-de-faces-brancas sai da água e já na margem abre as suas grandes asas durante um bom intervalo de tempo, de modo a proceder à secagem das mesmas. 

Este comportamento tem a ver com o facto desta ave não possuir a capacidade que outras aves aquáticas têm de impermeabilizar as suas penas.



Algumas famílias de patos-reais (Anas platyrhynchos) descansam nas margens, recuperando do dispêndio energético a que a natação nestas águas agitadas obriga.



Quem prefere fugir à intempérie invernal protegendo-se dos fortes ventos e da chuva em catadupa, são as andorinhas-das-rochas (Ptyonoprogne rupestris) que, durante estes períodos mais agrestes, se deixam aninhar nos abrigados parapeitos dos prédios implantados na periferia das áreas verdes.



Sobre as ramagens nuas dos salgueiros (Salix sp.), outros acrobatas - não menos belos mas muito menos melódicos do que os fringilídeos abordados no apontamento anterior - desenham trajectórias semelhantes a estes. 

Tratam-se dos belíssimos chapins-rabilongos (Aegithalos caudatus) ...


que, com as suas imponentes caudas a funcionarem como balancé, conseguem posicionar-se igualmente de cabeça para baixo para mais facilmente apanharem os pequenos insectos.



Os seus parentes afastados, porque pertencentes a uma outra família, os chapins-reais (Parus major), por seu lado, preferem antes as coníferas e as árvores perenes onde é mais fácil encontrar insectos e pulgões entre os ramos e as folhas.



(continua)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Do ameno outono ao gélido inverno ! (IV)

 




(continuação)


Durante toda a noite, os fortes ventos, a ocorrência de trovoada e a chuva impiedosa açoitaram a natureza. Mais uma tempestade que se colou à anterior, não dando tréguas aos animais que andam desauridos, ao arvoredo cada vez mais fragilizado e aos homens que começam a sofrer danos irreparáveis de vidas e bens.

Na verdade, o vento em tropel varreu os parques sob a forma de intensas rajadas, vergando até ao limite da elasticidade os altos troncos arbóreos. 



Após o pico da tempestade, a manhã acordou com um semblante que reflectia o dramatismo da noite, não indiciando contudo, melhorias para o novo dia que estava a começar. 



Com as raízes ensopadas de água e fragilizados pela enorme pressão exercida pelas desenfreadas massas de ar, os mais débeis e mais velhos daqueles matulões acabaram por tombar durante a noite. Pela manhã, ao serem decepados deixaram os seus lugares vagos nestes ecossistemas verdes da cidade.



Verdade seja dita que, sempre que desaparece uma árvore, no resquício sobrante logo se instala uma comunidade de fungos e líquenes, que tratarão rapidamente do enriquecimento em nutrientes desse mesmo local. 



A natureza é mesmo assim. Nela, não há lugar para espaços nem tempos mortos. As adversidades constituem um trampolim para novas oportunidades de vida.


A tempestade vigente, à semelhança das anteriores, não conhece tréguas, pois apesar da chuva amainar por algum tempo, o ribombar dos trovões ao longe, num céu de nuvens em correria e fechado completamente ao sol vai para duas semanas, anunciam que essas trombas de água não deverão demorar muito tempo a cair mais uma vez.



Os animais dos parques vão, pois, ter que aguardar recolhidos até que a ventania e a chuva diluviana passem a assolar outras paragens.


Com a bonança entretanto instalada, a vida selvagem é retomada nos parques citadinos. 


As tardes, contudo, são invariavelmente escuras, porque o sol além de não ser capaz de romper a alta camada de nuvens e projectar os seus raios sobre a terra, deita-se bem cedo sobre o horizonte no seu aparente movimento.  

Esta escassez de luminosidade não impede que uma das famílias mais agitadas, mais coloridas e mais sonoras, que habitam os parques, se entreguem às suas deliciosas acrobacias. A referida família é a dos fringilídeos (Fringillidae).

Apesar dos tentilhões, verdilhões, chamarizes, ... serem bem conhecidos de todos, não impede que, sempre que se deparam aos nossos olhos, fiquemos a contemplá-los demoradamente. 

Todas estas espécies, granívoras por excelência, encontram nos parques citadinos locais que os atraem de sobremaneira. Um desses pólos de atracção são os velhos frutos dos liquidambares (Liquidambar styraciflua), onde algumas destas aves encontram as sementes que tanto apreciam.



Os liquidambares, que nos deliciam no outono pelo colorido avermelhado das suas folhas ...



são, então, o palco das acrobacias de alguns fringilídeos durante o inverno.

Neste palco natural encontramos os belíssimos pintassilgos (Carduelis carduelis), espécie aqui residente ao longo de todo o ano ...



bem como, os invernantes lugres (Carduelis spinus), que no final da estação hão-de subir até às grandes florestas boreais para aí nidificarem.



Cada copa de liquidambar é, então, invadida por bandos mistos destas duas referidas espécies. 

Volteando os ramos para mais facilmente alcançarem as sementes, frequentemente pendurados de cabeça para baixo, sem cantorias e com bastante pressa, abastecem-se de energia ...




antes de esvoaçarem alarmados para qualquer outro sector do parque.


Um pouco afastados deste local e poisados num imponente salgueiro-branco (Salix alba) está um outro membro da família. O tentilhão (Fringilla coelebs).

Mais pesado e com um padrão cromático mais esbatido do que aquele que apresenta na primavera e no verão, procura sementes de forma mais acessível, evitando as arrojadas acrobacias dos seus parentes.



Com a mesma frequência com que explora os ramos, desce igualmente ao solo onde encontra alimento.



Neste húmido e lúgubre fim de tarde, em que a chuva volta a cair, embora de forma menos intensa, pegas-rabudas (Pica pica) correm sobre o relvado na procura de alimento, detendo-se subitamente à escuta, para avançarem logo de seguida caso não haja qualquer suspeição de perigo.




Os melros-pretos (Turdus merula) também lhes seguem o exemplo.




A uma certa distância destes protagonistas, alvéolas-brancas (Motacilla alba) caminham compassadamente sobre a relva, muito atentas aos insectos que precisam de encontrar.



(continua)   



sábado, 14 de fevereiro de 2026

Do ameno outono ao gélido inverno ! (III)





(continuação)


Há mais de uma semana que os dias, bastante frios, decorrem sob a capa cinza de um céu que vai desabando água de forma intermitente. 



O solo dos parques está, por esta razão, saturado de água, formando-se charcas em zonas rebaixadas.




Ademais, os cursos de água que neles transitam, correndo já bem encorpados  ...



vão engrossando, dia após dia, esses caudais, começando a transbordar para as margens.

 


Vive-se a passagem de duas depressões sucessivas, responsáveis por estas características climatéricas.


É durante os intervalos de tempo que medeiam as bátegas que os habitantes dos parques aproveitam para fazer aquilo que lhes é essencial. Alimentarem-se. 


Como pequenos fantasmas que parecem surgir do nada, os rabirruivos-pretos (Phoenicurus ochruros) esvoaçam bem perto, acabando por poisar nalgum ramo, muro ou num dos muitos blocos de pedra que servem de ornamento paisagístico aos parques. 



De postura erecta e painel branco nas asas, é a sua cauda, de tonalidade avermelhada e agitada insistentemente, que mais nos prende a atenção.



Num voo rápido descem ao solo onde não se demoram mais do que um segundo, tempo suficiente para capturarem um insecto ou um verme.



Os melros-pretos (Turdus merula) são uma presença constante, ao longo de todo o dia, nos parques. 

Esgravatando o solo em busca de minhocas e de outros pequenos invertebrados aí escondidos ... 

 


ou pousados nos ramos despidos do arvoredo, os machos de plumagem negra e bico amareloconferem a esta espécie o estatuto de verdadeiros reis dos nossos parques.



É durante este período de inverno, especialmente quando o mesmo é muito friorento, que o número de piscos-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula), essa encantadora ave de peito alaranjado, aumenta nos parques, pois as aves do norte da Europa tendem a descer para latitudes mais amenas. 

Este facto explica a razão pela qual, de todas as direcções se ouvem os cantos e chamamentos deste pequeno pássaro. É precisamente esta vontade de cantar que denuncia a sua presença, mesmo quando encobertos nas árvores de folhagem duradoura. 



Se o pequeno e rechonchudo pisco atrai a nossa atenção pelas suas cantorias, a felosa-comum (Phylloscopus collybita), ainda mais pequena e com um abafado e melancólico chamamento, atrai antes pela sua irrequietude e acrobacia, que a leva a não demorar mais do que alguns poucos segundos em cada ponto onde assenta as patas.



Tal como acontece com o pisco, esta espécie abunda durante o inverno nos parques, dado que à população residente juntam-se os indivíduos invernantes que migram do norte da Europa.

A sua chegada em força numa altura do ano em que as árvores caducifólias ainda possuem as suas últimas folhas e já se desenrola o despontar das novas gemas, permite que a espécie se banqueteie de pequenos pulgões nas copas dos choupos. 




A agitação destes pequenos pássaros cessa de repente quando nova bátega de água cai sobre tudo e sobre todos. É então chegada a hora destes irrequietos protagonistas recolherem ao abrigo da vegetação mais densa que encontrarem e de nós regressarmos a casa.




(continua)