quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Do ameno outono ao gélido inverno ! (IV)

 




(continuação)


Durante toda a noite, os fortes ventos, a ocorrência de trovoada e a chuva impiedosa açoitaram a natureza. Mais uma tempestade que se colou à anterior, não dando tréguas aos animais que andam desauridos, ao arvoredo cada vez mais fragilizado e aos homens que começam a sofrer danos irreparáveis de vidas e bens.

Na verdade, o vento em tropel varreu os parques sob a forma de intensas rajadas, vergando até ao limite da elasticidade os altos troncos arbóreos. 



Após o pico da tempestade, a manhã acordou com um semblante que reflectia o dramatismo da noite, não indiciando contudo, melhorias para o novo dia que estava a começar. 



Com as raízes ensopadas de água e fragilizados pela enorme pressão exercida pelas desenfreadas massas de ar, os mais débeis e mais velhos daqueles matulões acabaram por tombar durante a noite. Pela manhã, ao serem decepados deixaram os seus lugares vagos nestes ecossistemas verdes da cidade.



Verdade seja dita que, sempre que desaparece uma árvore, no resquício sobrante logo se instala uma comunidade de fungos e líquenes, que tratarão rapidamente do enriquecimento em nutrientes desse mesmo local. 



A natureza é mesmo assim. Nela, não há lugar para espaços nem tempos mortos. As adversidades constituem um trampolim para novas oportunidades de vida.


A tempestade vigente, à semelhança das anteriores, não conhece tréguas, pois apesar da chuva amainar por algum tempo, o ribombar dos trovões ao longe, num céu de nuvens em correria e fechado completamente ao sol vai para duas semanas, anunciam que essas trombas de água não deverão demorar muito tempo a cair mais uma vez.



Os animais dos parques vão, pois, ter que aguardar recolhidos até que a ventania e a chuva diluviana passem a assolar outras paragens.


Com a bonança entretanto instalada, a vida selvagem é retomada nos parques citadinos. 


As tardes, contudo, são invariavelmente escuras, porque o sol além de não ser capaz de romper a alta camada de nuvens e projectar os seus raios sobre a terra, deita-se bem cedo sobre o horizonte no seu aparente movimento.  

Esta escassez de luminosidade não impede que uma das famílias mais agitadas, mais coloridas e mais sonoras, que habitam os parques, se entreguem às suas deliciosas acrobacias. A referida família é a dos fringilídeos (Fringillidae).

Apesar dos tentilhões, verdilhões, chamarizes, ... serem bem conhecidos de todos, não impede que, sempre que se deparam aos nossos olhos, fiquemos a contemplá-los demoradamente. 

Todas estas espécies, granívoras por excelência, encontram nos parques citadinos locais que os atraem de sobremaneira. Um desses pólos de atracção são os velhos frutos dos liquidambares (Liquidambar styraciflua), onde algumas destas aves encontram as sementes que tanto apreciam.



Os liquidambares, que nos deliciam no outono pelo colorido avermelhado das suas folhas ...



são, então, o palco das acrobacias de alguns fringilídeos durante o inverno.

Neste palco natural encontramos os belíssimos pintassilgos (Carduelis carduelis), espécie aqui residente ao longo de todo o ano ...



bem como, os invernantes lugres (Carduelis spinus), que no final da estação hão-de subir até às grandes florestas boreais para aí nidificarem.



Cada copa de liquidambar é, então, invadida por bandos mistos destas duas referidas espécies. 

Volteando os ramos para mais facilmente alcançarem as sementes, frequentemente pendurados de cabeça para baixo, sem cantorias e com bastante pressa, abastecem-se de energia ...




antes de esvoaçarem alarmados para qualquer outro sector do parque.


Um pouco afastados deste local e poisados num imponente salgueiro-branco (Salix alba) está um outro membro da família. O tentilhão (Fringilla coelebs).

Mais pesado e com um padrão cromático mais esbatido do que aquele que apresenta na primavera e no verão, procura sementes de forma mais acessível, evitando as arrojadas acrobacias dos seus parentes.



Com a mesma frequência com que explora os ramos, desce igualmente ao solo onde encontra alimento.



Neste húmido e lúgubre fim de tarde, em que a chuva volta a cair, embora de forma menos intensa, pegas-rabudas (Pica pica) correm sobre o relvado na procura de alimento, detendo-se subitamente à escuta, para avançarem logo de seguida caso não haja qualquer suspeição de perigo.



Os melros-pretos (Turdus merula) também lhes seguem o exemplo.




A uma certa distância destes protagonistas, alvéolas-brancas (Motacilla alba) caminham compassadamente sobre a relva, muito atentas aos insectos que precisam de encontrar.



(continua)   



sábado, 14 de fevereiro de 2026

Do ameno outono ao gélido inverno ! (III)





(continuação)


Há mais de uma semana que os dias, bastante frios, decorrem sob a capa cinza de um céu que vai desabando água de forma intermitente. 



O solo dos parques está, por esta razão, saturado de água, formando-se charcas em zonas rebaixadas.




Ademais, os cursos de água que neles transitam, correndo já bem encorpados  ...



vão engrossando, dia após dia, esses caudais, começando a transbordar para as margens.

 


Vive-se a passagem de duas depressões sucessivas, responsáveis por estas características climatéricas.


É durante os intervalos de tempo que medeiam as bátegas que os habitantes dos parques aproveitam para fazer aquilo que lhes é essencial. Alimentarem-se. 


Como pequenos fantasmas que parecem surgir do nada, os rabirruivos-pretos (Phoenicurus ochruros) esvoaçam bem perto, acabando por poisar nalgum ramo, muro ou num dos muitos blocos de pedra que servem de ornamento paisagístico aos parques. 



De postura erecta e painel branco nas asas, é a sua cauda, de tonalidade avermelhada e agitada insistentemente, que mais nos prende a atenção.



Num voo rápido descem ao solo onde não se demoram mais do que um segundo, tempo suficiente para capturarem um insecto ou um verme.



Os melros-pretos (Turdus merula) são uma presença constante, ao longo de todo o dia, nos parques. 

Esgravatando o solo em busca de minhocas e de outros pequenos invertebrados aí escondidos ... 

 


ou pousados nos ramos despidos do arvoredo, os machos de plumagem negra e bico amareloconferem a esta espécie o estatuto de verdadeiros reis dos nossos parques.



É durante este período de inverno, especialmente quando o mesmo é muito friorento, que o número de piscos-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula), essa encantadora ave de peito alaranjado, aumenta nos parques, pois as aves do norte da Europa tendem a descer para latitudes mais amenas. 

Este facto explica a razão pela qual, de todas as direcções se ouvem os cantos e chamamentos deste pequeno pássaro. É precisamente esta vontade de cantar que denuncia a sua presença, mesmo quando encobertos nas árvores de folhagem duradoura. 



Se o pequeno e rechonchudo pisco atrai a nossa atenção pelas suas cantorias, a felosa-comum (Phylloscopus collybita), ainda mais pequena e com um abafado e melancólico chamamento, atrai antes pela sua irrequietude e acrobacia, que a leva a não demorar mais do que alguns poucos segundos em cada ponto onde assenta as patas.



Tal como acontece com o pisco, esta espécie abunda durante o inverno nos parques, dado que à população residente juntam-se os indivíduos invernantes que migram do norte da Europa.

A sua chegada em força numa altura do ano em que as árvores caducifólias ainda possuem as suas últimas folhas e já se desenrola o despontar das novas gemas, permite que a espécie se banqueteie de pequenos pulgões nas copas dos choupos. 




A agitação destes pequenos pássaros cessa de repente quando nova bátega de água cai sobre tudo e sobre todos. É então chegada a hora destes irrequietos protagonistas recolherem ao abrigo da vegetação mais densa que encontrarem e de nós regressarmos a casa.




(continua)


sábado, 7 de fevereiro de 2026

Do ameno outono ao gélido inverno! (II)

 





(continuação)


Logo bem cedo pela manhãzinha, pegas-rabudas (Pica pica), deslizam rápido das ramagens mais altas até ao solo, onde, saltitando, basculham cada porção de relvado, ao mesmo tempo que lançam roucos chamamentos. 



É uma espécie bastante comum, como o atestam os seus diversos ninhos, em forma de bola escura, construídos em algumas das maiores árvores do parque.




Estas grandes e elaboradas estruturas, feitas de galhos e forradas de lama e ervas, são construídas no centro da copa de uma caducifólia. Apresentando uma forma abobada e com uma abertura lateral no topo servem as aves apenas no ano em que são construídas.



Embora a espécie seja omnipresente, a sua observação constitui um registo sempre agradável. Elegante de porte, apresenta uma vestimenta corporal alvi-negra, asas azuis e uma longa cauda azul esverdeada.



O seu gregarismo, a imponência da sua cauda, que é tão comprida quanto o corpo, bem como o seu rápido voo realizado à custa de batimentos fortes das asas intercalados por deslizamentos, fazem desta ave a rainha dos parques. 




O sol irrompeu já a fria manhã.

De longe, chegam os arrulhos das rolas-turcas (Streptopelia decaoto) que se banham destes suaves raios matinais...



anunciando, também, que o parque iniciou mais um dia de intensa actividade por parte destes seus moradores.


Da cor da areia, as rolas-turcas, voando solitárias por cima de nós, vão deixando escapar vocalizações de eternas enamoradas.



Enquanto descansam, sobre as ramagens despidas dos salgueiros (Salix sp.) ... 




ou sobre os varandins sobranceiros ao parque, ...




deixam bem visível o fino e interrompido  colar preto sobre os lados do pescoço, que as distinguem da sua parenta, a estival rola-brava (Streptopelia turtur).


O frio, não só não as separa, como pelo contrário, parece aproximá-las ainda mais. O que está bem, pois ao interagirem deste modo conseguem um ganho mútuo de energia corporal.




Ainda vem longe o tempo em que as finas plataformas dos seus ninhos, feitos com pequenos galhos e caules de plantas, ... 



ficarão escondidas da atenção dos predadores, pela densa folhagem que se há-de formar, de modo a acolherem em segurança as novas gerações. 

Contudo, durante todo este período de inverno, as aves não perdem o hábito de permanecerem nas proximidades dos ninhos do ano anterior.



Poder-se-á assim dizer que, estas aves, além de não esconderem as suas demonstrações amorosas, revelam um enorme apego ao lar. 


(continua)



sábado, 31 de janeiro de 2026

Do ameno outono ao gélido inverno !

 




As amenas temperaturas que habitualmente marcam o fim do verão e o início do outono permitem assistir todos os anos, em habitats arbustivos como os parques de uma cidade, à estadia massiva dos papa-moscas (família Muscicapidae). Esta família de passeriformes representa, de facto, um dos ícones da migração outonal das aves quando a caminho do sul.

Sem pudor algum, estas vivas e pequenas aves, de que o papa-moscas-preto (Ficedula hypoleuca) é o exemplo de maior visibilidade, esvoaçam sem coacção entre as ramagens do arvoredo em redor,...



depois de em voo já se terem banqueteado com os tão desejados insectos que lhes servem de alimento. 



A espécie apresenta um claro dimorfismo sexual que passa essencialmente pela tonalidade da cobertura superior do corpo, sendo esta castanha na fêmea e em alguns machos e negra na maioria destes últimos. Como elemento de diferenciação decisiva entre os dois sexos está o facto dos machos apresentarem, ao contrário das fêmeas, uma mancha branca em cada lado da fronte.



Quando pousados têm o costume de elevar uma das asas enquanto agitam nervosamente a cauda. A sua presença é frequentemente acompanhada pelas suas vocalizações, entre as quais um característico e curto estalido. 



Neste período do calendário, outros migradores, até então presentes nos parques durante a primavera e o verão, como a encantadora poupa (Upupa epops), vão já a caminho do continente africano, pese embora, muito raramente no centro do país, um ou outro indivíduo possa não cumprir este desígnio migratório deixando-se ficar durante toda a estação fria.




À medida que o outono avança e sobretudo quando o inverno chega, as sucessivas vagas de frio, que pintam de branco as montanhas mais altas do país, tornam a planície costeira húmida, gélida e cinzenta.




Os parques citadinos, muito despidos de folhagem e com as perenes a marcarem alguma diferença, parecem resumir-se a conjuntos de troncos, em que apenas a variabilidade da forma e estatura dos mesmos são capazes de quebrar a monotonia da paisagem e do silêncio produzido por aqueles que por estes sombrios dias não ousam por aqui deambular.




Não se enganem, contudo, com esta aparência! Porque, na verdade, trata-se apenas e só de aparência!


Na realidade, caminhar num destes dias de frio intenso permite-nos ter uma percepção bem diferente destes espaços verdes, quer seja durante a fria manhã ...



quer seja durante o prematuro e sombrio fim de tarde.




(continua)