O concelho de Ovar precisa urgentemente de políticas de conservação e valorização do seu património ambiental.
Há que Agir de forma decidida no sentido de inverter a contínua falta de políticas ambientais assertivas.
Em Ovar, a "ondulação forte e os ventos mareiros" deixam a descoberto os atentados ambientais cometidos na Ria de Aveiro, nas praias e povoados do concelho, na Barrinha de Esmoriz e na mata litoral. Felizmente, a natureza, teimosamente sobrevive, aqui e fora daqui, revelando continuamente as suas belezas.
O concelho de Ovar precisa urgentemente de políticas de conservação e valorização do seu património ambiental.
Há que Agir de forma decidida no sentido de inverter a contínua falta de políticas ambientais assertivas.
(continuação)
O calendário anuncia que o Inverno tem o fim próximo. Contudo, ninguém parece acreditar nessa assumpção.
As sucessivas depressões ao arrastarem vento, chuva, gelo e frio estão a condicionar o ímpeto dos seres vivos em avançarem para a nova etapa reprodutiva.
Na verdade, sempre que os dias têm a oportunidade de acordar um pouco mais serenos, logo se deixam ouvir as cantorias produzidas pela passarada, das quais sobressaem os insistentes trinados do chamariz (Serinus serinus), clamando ardentemente pela Primavera.
Mas a estes breves dias promissores de mudança sucedem-se aqueles outros, muitos aliás, que de tão sombrios produzem uma sensação de retrocesso na estação.
A laguna, a um quarto de légua da cidade e a um outro tanto do oceano, sombria por natureza durante o Inverno, experimenta nos dias menos agrestes laivos de alguma luminosidade coada por entre os estratos nebulosos. Nos outros, é de uma negritude ameaçadora.
A água cinza escura, que apenas é prateada pelo reflexo da pouca luz quando a ela consegue chegar, nunca se cala durante este período invernoso.
O vento sul, ao soprar em fortes e contínuas rajadas, varre a superfície das águas empurrando-as para as margens ao mesmo tempo que produz uma tal sonoridade que é muito difícil ouvir-se a natureza em redor.
Contudo, não é por este ruído abafante, nem tão pouco pelas condições atmosféricas adversas, que os seres da laguna deixam de extravasar as suas rotinas. Bem pelo contrário.
O perna-vermelha (Tringa totanus) que parecia andar desaparecido, afinal está bem presente. Esta bonita ave, com as patas e a base do bico vermelho-alaranjadas, mostra-se agora de forma mais insistente, pescando pequenos vermes durante a baixa-mar.
Junto de si outras pernaltas de maior estatura procuram também sustento. Em pequenos grupos, pousadas nos mouchões de lodo, quase passam despercebidas graças à tonalidade acastanhada da sua plumagem.
Os maçaricos-galegos (Numenius phaeopus), assim camuflados, acabam por assinalar a sua presença quando, assustados, levantam voo emitindo em simultâneo estridentes gritos de alarme.
Colhereiros (Platalea leucorodia), em pequenos grupos, varrem as águas baixas agitando o bico para um e outro lado, pescando os pequenos peixes, crustáceos e moluscos que passam ao seu alcance. Em breve, alguns deles partirão para longe mas outros farão os seus ninhos nas proximidades.
Solitário na vastidão das águas lagunares, um exemplar juvenil de flamingo-comum (Phoenicopterus roseus) faz diariamente pela vida, para um dia poder apresentar a libré que tanto encanta quem observa estas aves.
Sobre a enrugadíssima toalha de água, nos locais onde a profundidade é maior, emergem algumas cabeças negras ornadas de imponentes bicos de base amarela. Cabeças que permanecem muito pouco tempo fora de água, uma vez que os corvos-marinhos-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo) logo submergem em busca da pescaria que a corrente está a transportar.
Ao fim de alguns mergulhos as aves precisam de sair da água para secarem as penas encharcadas antes de voltarem para a pesca. Com as asas abertas em cruz, as penas secarão por efeito do vento que se faz sentir. É um momento sempre bonito para ser apreciado.
Com uma atraente plumagem padronizada e com umas patas alaranjadas, as rolas-do-mar (Arenaria interpres) entretêm-se a vasculhar por entre as fendas das rochas, por entre as algas e no interior do lodo, insectos, crustáceos, vermes e outros invertebrados que lhes servem de alimento.
Um pouco mais pequenos mas igualmente atraentes, os borrelhos-grandes-de-coleira (Charadrius hiaticula) observam-se de forma fácil. Enfrentando igualmente os rigores deste ecossistema tão dinâmico e agreste, vão acumulando a energia necessária para a sua eminente migração em direcção ao Árctico onde irão nidificar.
Entre as várias outras espécies de limícolas que ocupam esta zona lagunar conta-se o maçarico-das-rochas (Actitis hypoleucos). Omnipresente em zonas húmidas ao longo do ano, calcorreia os sedimentos lodosos da laguna estacando frequentemente, para, com vénias e abanos da sua porção traseira, não deixar dúvidas sobre a sua identificação.
Antes da maré voltar a encher e as praias de vasa desaparecerem procuramos a solitária e vigilante tarambola-cinzenta (Pluvialis squatarola). Muito em breve partirá na sua longa viagem até à tundra árctica onde irá fazer criação. Para já, continua a gozar de alimentação abundante pois estes lodos são uma fonte de anelídeos, moluscos e crustáceos de que ela tanto precisa.
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O verão não está a seguir os padrões climatéricos próprios da época.
Os dias de sol aberto, sem nuvens e convidativos ao descanso na praia, no rio ou no campo, são substituídos por dias fechados, em que o sol muitas das vezes não consegue fazer chegar até nós um único dos seus raios, deixando as praias, os rios e os campos praticamente despidos de veraneantes.
A marisma, contudo, segue povoada de seres cuja presença não depende da quantidade de raios solares chegados à Terra ou da espessura do tecto de nuvens.
A presença das aves na marisma é apenas condicionada pelo estado da maré. Na verdade, é o nível da água dentro da laguna, que oscilando ao longo do dia e dos dias, irá permitir que aquelas apareçam e desapareçam de forma cíclica.
Contrariamente ao que os cânones afirmam sobre a distribuição das aves selvagens no território continental português, certas espécies não são muito abundantes somente no Inverno ou durante as passagens migratórias. Elas são, efectivamente, observadas ao longo de todo o ano na região norte de Portugal.
As gaivotas são das aves mais comuns nas zonas litorais. A marisma, pelas condições que oferece em termos de abrigo e disponibilidade alimentar, atrai algumas espécies desta família.
Entre elas estão as muito comuns gaivotas-de-asas-escuras (Larus fuscus)...
... e os não menos conhecidos guinchos (Chroicocephalus ridibundus).
Enquanto as primeiras se reproduzem a latitudes elevadas, nomeadamente na Escandinávia e Islândia, os segundos apresentam uma área de nidificação muito mais ampla, inclusive fazendo-o em núcleos dispersos na Península Ibérica.
À medida que a corrente de maré vai arrastando para o interior da marisma pequenos invertebrados, moluscos e crustáceos, as gaivotas, nadando ...
... ou calcorreando os lodos vão satisfazendo os seus apetites.
Quando a maré começa a baixar, as gaivotas acocoradas nos pequenos mouchões que conseguiram ficar a descoberto, em grupos frequentemente mistos, repousam, dedicando-se também ao cuidado da plumagem.
Mas não são apenas os Laridae, família a que pertencem as gaivotas, a contrariar a distribuição geográfica fornecida pelos guias de aves. Também algumas limícolas e garças o fazem.
A garça-branca (Egretta garzetta), por exemplo, é uma das espécies que reside durante todo o ano nas marismas do norte de Portugal. A sua actividade pesqueira é meticulosamente elaborada.
Em dias de sol forte, quando as sombras facilmente se projectam, a ave prefere deslocar-se muito lentamente dentro de água até se imobilizar erecta.
Então, movimentando apenas a cabeça e inclinando o corpo, consegue alcançar o melhor ângulo de visão para o interior da água.
Quando a presa passa à distância certa, a garça projecta rapidamente o seu aguçado e comprido bico na direcção da mesma.
Esta exímia pescadora costuma também, com uma das patas, agitar a água ...
... de forma a espantar os peixes e assim mais facilmente os capturar.
Nos dias em que o Sol não marca presença a garça-branca altera o seu método de pesca passando a deslocar-se mais rapidamente sobre o lodo, ...
... mudando frequentemente de poiso mediante curtíssimos voos, de modo a capturar pequenas presas que encontra nas bolsas de água que a massa lodosa cria.
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(continuação)
Encolhidos pelo vento sul, que corre velozmente sobre a laguna, encontram-se acocorados sobre o pontão, centenas de pequenas aves limícolas, numa atitude de espera.
Esta ventania, que é acompanhada de fortes rajadas, não deixa que a maré vazante corra a seu jeito, impedindo por ora, que estes e outros seres, inquilinos das vasas, dêem continuidade ao seu modus vivendi.
Solitário nestas águas agitadas, baloiça um guincho-comum (Chroicocephalus ridibundus), fazendo contrastar a escuridão das mesmas com a alvura da sua plumagem.
Sòmente as pernaltas, como o flamingo-comum (Phoenicopterus roseus), se arriscam a enfiar as patas dentro destas águas agitadas que correm com força. Hirtos, muito juntos e abrigados pelo talude vegetado da margem, resistem à intempérie, como se de verdadeiras estátuas aquáticas se tratassem.
Com o passar dos minutos e à medida que a maré vai descendo, vão surgindo, sem nunca se saber ao certo donde, novos protagonistas lagunares. Os colhereiros (Platalea leucorodia), com seus bicos em forma de espátula, vão varrendo as águas ininterruptamente, maneando a cabeça para um e outro lado, à medida que vão avançando, de forma a conseguirem o seu precioso alimento: moluscos e crustáceos.
Quando algumas horas depois, os lodos se começam a revelar, as limícolas parecem receber essa mesma informação. Levantando subitamente voo do local onde dormitavam, efectuam uns amplos círculos sobre o mesmo, dirigindo-se de seguida, em voo rasante, para as praias de vasa.
A atmosfera saturada de humidade, a exalar o seco aroma do lodo, adquire um maior dramatismo sempre que o Sol se encobre e a sua cor sombria pinta as águas turbulentas da laguna.
Nas praias de vasa começa finalmente a formar-se um verdadeiro exército de aves, que indiferentes aos rigores do clima, vão a partir de agora entrar em intensa actividade, como condição essencial para a sua própria sobrevivência.
Pilritos-comuns (Calidris alpina) ...
... pilritos-das-praias (Calidris alba) ...
... e borrelhos-grandes-de-coleira (Charadrius hiaticula) ...
... são algumas das espécies mais pequenas que formam esta comunidade ornítica. De facto, estas diferentes espécies, frequentemente, convivem juntas nas suas prospecções alimentares.
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A tarde vai fria. Nada que seja de estranhar pois estamos ainda no Inverno.
No meio da vasa, como que perdida numa imensa superfície escura e de odor penetrante, uma pequena ave com apenas 18 cm de comprimento, basculha meticulosamente o lodo. Destaca-se à distância pelo contraste oferecido pelas tonalidades claras e escuras do seu corpo.
Trata-se de um borrelho-grande-de-coleira (Charadrius hiaticula).
Visto de frente revela claramente uma barra escura peitoral, manchas pretas na cabeça, bico escuro e patas de tonalidade alaranjada.
Visto de trás, confirma-se uma homogeneidade da sua plumagem acastanhada por cima e branca por baixo.
Mas é quando a ave se encontra bem pertinho que podemos desfrutar de toda a sua beleza!
O branco da fronte, da lista superciliar e da garganta destacando-se entre o negro da barra peitoral, aliados à bonita coloração das patas marcam a bela imagem desta ave, quando no estado adulto.
O borrelho-grande-de-coleira é uma ave comum na Ria de Aveiro durante o Inverno e durante as passagens migratórias, podendo ser observado com frequência integrando grupos mistos.
Durante a baixa-mar é frequente vê-lo a correr rápido sobre o lodaçal e de repente estacar, ficando completamente imóvel e atento ao seu redor ...
Quando o Inverno chega ao fim e as aves se preparam para partir para maiores latitudes, onde irão procriar, começam a sofrer transformações cromáticas em diversas partes do seu corpo.
O bico que era totalmente escuro começa a adquirir gradualmente cor alaranjada e as patas que eram de um alaranjado suave passam a intensificar essa mesma cor.
Concluído o desenvolvimento das crias a espécie migrará de novo, para sul, começando a ser vista na Ria de Aveiro por finais de Agosto.
Das aves em migração, umas descansarão e alimentar-se-ão por aqui antes de prosseguirem viagem para África, mas outras manter-se-ão pela Ria para proporcionarem mais um Inverno de belos registos.