sexta-feira, 31 de maio de 2024

A garça-boieira (II)

 




(continuação)


Engalanada com os tons alaranjados que, durante os próximos meses, irão sobressair na sua alva plumagem, e com o bico entretanto rosado, a garça-boieira (Bubulcus ibis) entrou numa nova fase da sua vida.

Estamos nos últimos dias de Abril. Chegou o tempo da nidificação!


A espécie torna-se extraordinariamente gregária, construindo os seus ninhos em árvores ou arbustos, muito próximos uns dos outros, frequentemente junto à água,...



... quase sempre misturados com os de outras espécies de garças. 



Estas densas e ruidosas colónias, ademais sincronizadas no calendário reprodutivo, fazem da marisma, por esta altura do ano, um dos ecossistemas mais animados do planeta!


Os ninhos de garça-boieira são construídos pelas fêmeas, com materiais vegetais diversos (pequenos galhos, paus e juncos) trazidos pelos machos. Depois de construídos apresentam uma configuração de taça, pouco profunda. 




A postura, habitualmente única, de 4 a 5 ovos, é incubada de forma intermitente por ambos os sexos ao longo de 3 a 4 semanas.



Os filhotes de garça-boieira, que nascem com bico e patas pretas e uma plumagem branca, felpuda e eriçada na coroa, são criados por ambos os progenitores aguardando, sempre ansiosos, a chegada do alimento. 



(continua)



quarta-feira, 22 de maio de 2024

Biodiversidade

 




Falar de biodiversidade, da sua importância e da sua concretização efectiva, num planeta doente e a necessitar de mudanças globais, passa por abordar, em primeira mão, questões ambientais de âmbito local e regional.

A pobreza que actualmente as matas litorais oferecem, em contraste com os tempos em que, devidamente cuidadas e geridas, ofereciam condições para a fixação de comunidades animais, é demasiado evidente.

A zona florestal de Ovar, que se estende em toda a faixa litoral do concelho, continuando para sul até S. Jacinto, dominada na sua globalidade por povoamentos de pinheiro-bravo (Pinus pinaster) – pinhais - constitui uma versão redutora da primitiva floresta portuguesa. Valorizar estes pinhais, mediante uma adequada gestão, será um passo de gigante para a recuperação dessa floresta ancestral.


Para que tal objectivo seja concretizado deverá proceder-se a uma abordagem integrada, que reconheça a importância ecológica, económica e social da floresta, garantindo a sua sustentabilidade e biodiversidade a longo prazo. Deste modo, é fundamental desenvolver estratégias de conservação, exploração sustentável, vigilância, valorização turística, educação ambiental, envolvimento político e mecanismos de cooperação.


No que respeita à conservação, manutenção e exploração, deverá ser dada uma atenção à:

- protecção da actual área florestada com pinheiro-bravo, com especial relevo para a protecção dos núcleos remanescentes de outras espécies autóctones, que não o pinheiro-bravo;




- implementação de um plano de plantio destas mesmas outras espécies autóctones (carvalhos, aroeira, medronheiros, pinheiro-manso, ….);  

- recuperação dos pinhais degradados/desmatados.



- fomento da regeneração natural.

- promoção de práticas de exploração florestal sustentável, que incluam a colheita seletiva de madeira;

 

Quanto à monitorização e vigilância das matas, deverão ser implementados sistemas capazes de, rapidamente, detectarem e responderem perante atividades ilegais, como desmatamentos e incêndios criminosos.

 


Relativamente à valorização da economia florestal, a mesma deverá passar pela criação de mercados/feiras para produtos florestais sustentáveis, como alimentos silvestres (bagas, cogumelos, plantas medicinais), artesanato e turismo de natureza.

 

No que concerne à educação ambiental, deverá esta passar:

- por acções de consciencialização junto das comunidades locais sobre a importância da floresta e sobre as vantagens da sua conservação.

- pelo incentivo a uma participação activa das comunidades locais na gestão da floresta, nomeadamente no uso adequado dos seus recursos e na sua limpeza.

 


No que se refere ao turismo, deverá o mesmo ser sustentável, valorizando a beleza natural e a biodiversidade do ecossistema florestal e simultaneamente garantindo a minimização dos impactos negativos sobre o meio ambiente.

 

Quanto às políticas públicas, estas devem priorizar:

- diligências junto do governo central para a implementação de incentivos à conservação e ao uso sustentável da floresta, incluindo incentivos financeiros a proprietários, para valorização dos pinhais particulares com distintas espécies autóctones.



- mecanismos de envolvimento das populações na co-gestão da floresta.

- a recuperação da figura e estatuto do guarda-florestal, como elemento residente na mata, assegurando a gestão permanente da mesma.

 



Por último, deve mencionar-se a cooperação com instituições/municípios implicados na gestão florestal, nomeadamente de outros países, no sentido da troca de experiências sobre a matéria. A título de proposta sugere-se, por exemplo, Moraleja, cidade geminada com Ovar, e que se encontra inserida numa das províncias mais florestadas de Espanha.

  

 


sexta-feira, 17 de maio de 2024

A garça-boieira

 





As marismas são um paraíso para a vida selvagem durante o ano inteiro.

Se o Outono e o Inverno trazem até à Península Ibérica milhares de aves provenientes das latitudes nórdicas, a Primavera e o Verão trazem outros tantos visitantes das latitudes africanas. Quer num caso quer no outro, tratam-se de fugas a situações adversas para as respectivas populações orníticas. 



No meio termo, a marisma vive também das suas populações residentes. Aquelas que conseguem levar toda a sua existência sem necessidade de efectuarem viagens de longa distância. Entre estas está a garça-boieira (Bubulcus ibis). 



Com uma plumagem branca e um bico amarelo, esta ave está perfeitamente adaptada ao meio aquático, graças aos tarsos e dedos compridos, que lhe permitem a deslocação em solos lamacentos. Contudo, dentro da sua família, é a espécie que menos depende deste meio, encontrando-se frequentemente em prados secos.



Por seu lado, o bico aguçado consegue a captura de pequenas e esguias presas, como insectos, ácaros e aranhas, que fazem parte da sua dieta alimentar.



Contudo, a espécie não despreza outras presas, como peixes de pequenas dimensões.



Com cerca de meio metro de comprimento e quase um metro de envergadura é um dos elementos mais pequenos da sua família (Ardeidae). 

Com a chegada do período reprodutor, a plumagem de cor branca, adquire tonalidades alaranjadas na cabeça, peito e dorso, enquanto o bico amarelado adquire tons rosados.




(continua)


sexta-feira, 10 de maio de 2024

Prados

 






Os prados são extensões de terrenos ocupados por formações herbáceas espontâneas ou semeadas, pastagens e arrelvados, húmidos ou de sequeiro. 

Formados por uma grande diversidade de plantas, entre as quais diversas flores, muitas delas atractivas de insectos polinizadores.

Os prados além de serem habitats propiciadores da biodiversidade, regulam as quantidades de água no solo e subsolo e constituem-se como elementos harmonizantes da paisagem, pela beleza estética que oferecem.



sexta-feira, 3 de maio de 2024

Degelo glaciar: a erosão costeira no concelho de Ovar

 





(continuação)


A erosão do litoral ovarense é um fenómeno bem antigo, que se começou a manifestar de uma forma mais notória a partir de meados do século passado.

Durante o final da década de 40 e princípios da década de 50, as taxas de recuo da linha de costa eram relativamente baixas em toda a frente concelhia, ligeiramente maiores a norte do Furadouro do que a sul. 

Durante essa mesma década de 50 e nas duas décadas seguintes viria a ocorrer uma mudança muito significativa no grau de erosão das praias do concelho. Enquanto os sectores de praia a norte do Furadouro, por finais dos anos 70, mantinham uma taxa de erosão baixa e estável, a zona sul, pelo contrário, sofria um acentuado recuo, tendo-se atingido taxas quatro vezes superiores aos valores registados a meio do século.

Contudo, o pior estava para vir. Nas décadas de 80 e 90 a erosão atingiu severamente todo o litoral do concelho, voltando a aumentar a taxa de recuo a norte do Furadouro, com especial incidência no sector de Maceda (3).



A falta de areia na corrente de deriva oceânica e o elevado número de estruturas pesadas de engenharia, implantadas desde o Furadouro até à foz do Douro, eram de longe as principais causas deste desgaste que o litoral ovarense ia apresentando (1,2).




Com a entrada no novo milénio, a frequência de galgamentos oceânicos aumentou, representando estes episódios uma constante ameaça sobre a frente marítima, com taxas anuais de recuo da linha de costa nunca antes alcançadas (4).

O efeito das alterações climáticas, nomeadamente com o crescente degelo dos glaciares do Árctico, incrementou a subida do nível do mar face ao que era habitual até finais do milénio anterior.

Perante este novo e dramático cenário, a frente marítima vareira passa, definitivamente, a constituir-se como a zona mais erodida do litoral português. Uma zona de vulnerabilidade excepcional, para a qual já se apontavam soluções urgentes, desde os finais dos anos 90 face ao colapso contínuo do cordão dunar (1,3).




(continua)


(1) Reis, A. (2000). Avaliação da rosão costeira entre as praias de S. Pedro de Maceda e do Torrão do lameiro (Ovar). Dissertação de Mestrado. Universidade de Aveiro.

(2) Reis, A. (2002). Quando o mar enrola na areia

(3) Reis, A. (2006). A praia dos tubarões.

(4) Reis, A. (2009). Estudo não publicado.



sexta-feira, 26 de abril de 2024

A cegonha-branca (II)

 



(continuação)



Estamos em finais de Março.

O arvoredo dos jardins, bosques e bosquetes, vestido de múltiplos tons, já consegue oferecer aconchego aos ninhos e às aves.



As mais altas infra-estruturas humanas, as mais apetecíveis para a cegonha-branca (Ciconia ciconia), vão sendo ocupadas pela espécie.



Construído o ninho ou sobretudo quando este ainda se encontra em fase de construção, é vulgar o casal nidificante ser alvo de investidas por parte de outros casais, no sentido daqueles o abandonarem.



Ultrapassadas estas lutas de demarcação territorial, o casal entrega-se ao cerimonial reprodutor. Este passa por frequentes cópulas ...



... e por rituais de acentuada extroversão.


Posicionados lado a lado, os membros do casal executam, numa primeira fase, movimentos da cabeça e do corpo, para diante e para baixo.



Passado algum tempo estes rituais atingem o seu clímax. Curvando os pescoços para trás, com as cabeças a tocar os dorsos, iniciam um inconfundível e sonante matraquear de bicos. Parecem, com este comportamento repetido amiúde ao longo do dia, estarem a fazer juras de amor. 



glotorar da cegonha-branca - que também acontece sempre que se verifica a chegada de um dos elementos do casal ao ninho - ecoando nos campos ou nos aglomerados humanos, é uma verdadeira imagem de marca da estação primaveril, que está agora a começar.


Será neste período de excitação conjugal que a fêmea começará a realizar a sua única postura, de três a cinco ovos brancos, entre finais de Março e princípios de Abril, os quais irão ser incubados por ambos os cônjuges. 



Decorridos entre trinta e trinta e quatro dias após a postura do primeiro ovo começam a nascer as crias, com um intervalo de pelo menos dois dias - período igual ao que se verificou durante a postura. 

Passadas poucas horas após o nascimento, as crias começam a movimentar a cabeça, parecendo imitar os progenitores quando estão a glotorar.




(continua)


sábado, 20 de abril de 2024

A cegonha-branca (I)

 




Associada na cultura popular à chegada de novas vidas é por essa razão o símbolo icónico da Primavera, a estação do rejuvenescimento da vida

A cegonha-branca (Ciconia ciconia) é uma das aves melhor conhecidas, não só pela sua imponente envergadura, de cera de dois metros, que em voo ainda mais sobressai, mas também, pelos seus comportamentos reprodutivos, que nos deixam apreciar, bem de perto, as suas vidas familiares.




Outrora, começavam a chegar da África sub-tropical, onde passavam o Inverno, logo pelo início do ano. Actualmente, esse movimento migratório ainda acontece mas, devido ao aquecimento global da atmosfera, muitas das aves nem chegam a passar o estreito de Gibraltar dispersando-se pelo sul do país.




Quando chegam à Península Ibérica, estas aves dirigem-se às zonas onde nasceram e onde anualmente nidificam. Os casais formados anteriormente, reencontram-se para mais uma vez procriarem, salvo se algum dos cônjuges não retorna e o outro membro do casal se vê obrigado a arranjar novo parceiro ou parceira.

Os machos parecem chegar primeiro aos locais de criação e alguns dias depois chegam as fêmeas. Ambos, procedem de imediato à reconstrução do velho ninho, desgastado pelas intempéries invernais ou à construção de um novo ninho, caso o antigo tenha caído. É, então, possível apreciar as constantes viagens das aves, a maioria das vezes os machos, transportando gravetos, ramos e ervas, para fabrico dos ninhos, atapetados posteriormente com penas, terra e musgos. 




Com o material trazido para o ninho, a fêmea a maior parte das vezes, procede à construção do ninho novo ou à reconstrução do antigo. 



No caso de ninhos reconstruídos a envergadura dos mesmos pode ser bastante grande, ultrapassando a meia centena de quilos.



Há meio século atrás a cegonha-branca não nidificava na região aveirense, razão pela qual se começaram a instalar plataformas metálicas em postes de energia desactivados, no sentido de atrair estas aves a assentarem ninho. 

Graças a esse esforço, a região alberga na actualidade uma elevada densidade de ninhos.




A cegonha-branca sempre se revelou uma boa vizinha do homem, nidificando em árvores, ...



... nos campanários de igrejas, ...



... em postes ...



... ou em variadas estruturas localizadas em aldeias, vilas ou até cidades.




A localização dos ninhos de cegonha-branca pode ocorrer de forma isolada, como em situações já aqui documentadas ou em colónia.





(continua)



sexta-feira, 12 de abril de 2024

Degelo glaciar: os glaciares de montanha

 







(continuação)


Segundo a Worldwatch Institute os principais glaciares de montanha em todo o mundo estão a sofrer grandes reduções na massa de gelo e neve. 


Nos Alpes e desde meados do século XIX que as temperaturas subiram 2.ºC (mais do dobro da subida média global). Como consequência, os glaciares dos Alpes sofreram uma diminuição de 35% na sua extensão. O terceiro maior glaciar desta cadeia, conhecido como "mar de gelo", localizado nas proximidades do Monte Branco, perdeu no último século mais de um quarto da sua espessura, tendo sofrido um recuo de cerca de dois quilómetros. 


Segundo a Comissão Suíça para a Observação da Criosfera (Academia Suíça das Ciências), o volume de gelo dos glaciares suíços diminuiu 10% nos últimos dois anos, tanto como, durante três décadas (1960-1990), com perdas de espessura que atingiram os 3 metros.


A continuar o ritmo de aquecimento, não só o Mar de Gelo, como outros glaciares, poderão desaparecer na totalidade.


A UNESCO avisa que os glaciares dos Pirinéus, Quilimanjaro e Yellowstone podem desaparecer no intervalo de duas décadas. Mas o recuo glaciar também já é visível noutras regiões do globo, como no Alasca e no Evereste.


A redução do período de nevadas em mais de um mês tem implicações directas na redução da extensão dos glaciares de montanha. E esta redução na superfície branca faz diminuir a área reflectora da radiação solar agravando o degelo dos mesmos. 

Com a redução da extensão de gelo também aumenta a exposição do solo montanhoso e consequentemente a instabilidade do mesmo, com o aumento de deslizamentos.




No continente asiático, o degelo glaciar pode, também, vir a produzir situações de grande dramatismo. 

Há estudos que mostram que no último milénio sempre que ocorriam aumentos significativos nos caudais dos rios tibetanos, havia uma explosão demográfica em todo o território do sudeste da Ásia. 

Esta relação parece explicar-se pelo facto dos rios, alimentados pelos glaciares do Tibete, constituírem a principal fonte de irrigação de todas estas terras, nomeadamente no que respeita à produção de arroz, bem como, fonte de produção piscícola.

Ora, o degelo crescente destes glaciares poderá provocar novos períodos de grandes cheias, que conduzam a um aumento na capacidade de irrigação dos solos, à melhoria das condições sócio-económicas, ao aumento das populações e consequentemente a um crescimento nos consumos de água doce. Água que se vai escapando, perigosamente, destes grandes e insubstituíveis reservatórios naturais!


(continua)



sexta-feira, 5 de abril de 2024

Degelo glaciar: a Antárctida






(continuação)


A Antártida - o continente gelado - perdeu, desde 1940 até aos dias de hoje, cerca de 3 mil quilómetros quadrados de superfície, em consequência da subida de 0,5 °C na temperatura média.

Pelo terceiro ano consecutivo, a extensão de gelo marinho neste continente atingiu níveis nunca antes (desde 1979 até 2022) registados: uma área inferior a 2 milhões de quilómetros quadrados.


Este aumento dos valores da temperatura, acompanhado por um anormal prolongamento em cerca de um mês em algumas zonas, do período de degelo no Verão, tem afectado não só, a extensão gelada deste continente, como também, as espécies animais que aqui vivem. Um dos exemplos é a redução em 33% da população de pinguins-imperadores. (1)


Adventure Life


Outra consequência deste aumento de temperatura sobre as espécies animais nativas da Antárctida diz respeito à chegada de vírus perigosos, como o H5N1 (gripe das aves) já detectado em aves necrófagas (skuas) e que poderão destruir as colónias de outras aves marinhas nidificantes neste continente.

Segundo um outro estudo (2) das 162 plataformas de gelo da Antárctida, 71 perderam massa e destas, 48 diminuíram pelo menos 30% da sua massa.


A situação do continente gelado é gravíssima. 

E as consequências dos seus impactos nos ecossistemas ao nível mundial irão ser devastadoras, caso não haja uma alteração drástica das economias mundiais.


Segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas), para se evitar um aumento da temperatura em 3.ºC até ao final do século será necessário uma redução global de 42% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) até 2030. Isto, porque a desaceleração dos efeitos do aquecimento não é instantânea!

Resta, pois, muito pouco tempo!


(1) Segundo estudos do National Snow and Ice Data Center (NSIDC) dos EUA e da Universidade de Liège (Bélgica)

(2) publicado na revista Science Advances



(continua)