quinta-feira, 8 de abril de 2021

Chegadas Primaveris 2021

 

Data

Espécie

Local / Habitat

02.01

Cegonha-branca

(Ciconia ciconia)

Ovar / cidade

 

 

 

05.02

Andorinha-das-chaminés

(Hirundo rustica)

Ovar / cidade

14.02

Águia-calçada

(Hieraaetus pennatus)

Ovar / cidade

 

 

 

02.03

Poupa

(Upupa epops)

Ovar / campo

02.03

Milhafre-preto

(Milvus migrans)

Ria de Aveiro / laguna

04.03

Andorinha-do-mar-anã

(Sterna albifrons)

Ria de Aveiro / laguna

07.03

Andorinha-dos-beirais

(Delichon urbica)

Ovar / cidade

09.03

Borrelho-pequeno-de-coleira

(Charadrius dubius)

Ovar / praia

10.03

Garça-vermelha

(Ardea purpurea)

Ria de Aveiro / caniçal

21.03

Alvéola-amarela

(Motacilla flava)

Ovar / cidade

 

 

 

01.04

Andorinhão-preto

(Apus apus)

Ovar / cidade

03.04

Rouxinol-pequeno-dos-caniços

(Acrocephalus scirpaceus)

Ria de Aveiro / caniçal

04.04

Cigarrinha-ruiva

(Locustella luscinioides)

Ria de Aveiro / caniçal

 

 

 

segunda-feira, 1 de março de 2021

O Covid-19 e as aves da nossa cidade: em pleno Inverno

Frio, muito frio, faz este início de Inverno. Por esta razão e pelo facto da pandemia por Covid-19 não dar tréguas e obrigar a sucessivas medidas de confinamento, a circulação de pessoas pelos parques e jardins da cidade de Ovar é mínima e frequentemente solitária. 


As aves da cidade, embora não sendo afectadas pelo vírus, são-no pelo frio. Este, condiciona os seus movimentos e a geada, que dele deriva, condiciona a disponibilidade de alimento, sobretudo durante as primeiras horas da manhã.


De facto, as manhãs têm acordado quase sempre geladas, com a relva branqueada pela noite.



Outras vezes, as manhãs acordam rodeadas de intensas neblinas que dificultam encontrar a forma das coisas e dos seres.




O Gaio-comum (Garrulus glandarius), que durante o Outono era visto, logo pela manhã, em rápidos voos entre as grandes árvores, colhendo bolotas, tem agora necessidade de se aproximar de locais onde ainda encontra alimento de forma fácil.




A Pega-rabuda (Pica pica), a raínha do Parque Urbano durante quase todo o ano, não quer nada com estes dias frios, razão pela qual deixou de ser vista por aqui. Prefere, antes, os campos agrícolas, onde encontra alimento abundante.

É caso para dizer que os corvídeos, grupo de aves muito bem adaptadas à exploração de diferentes habitats, perante este tipo de condicionantes, arranjam estratégias alternativas para obterem alimento da forma mais eficiente.


Apesar das condições adversas, que ainda não permitem que se escutem grandes cantorias, nos parques ovarenses ouvem-se pela manhãzinha os chamamentos tímidos de algumas espécies de aves.

O rei dos parques e jardins, o Melro-preto (Turdus merula) é presença habitual mesmo durante estes dias frios. Diariamente, são vários os exemplares observados a alimentarem-se no solo, em voos entre o arvoredo e o solo, entre o solo e os muros ou entre quaisquer dois outros locais aprazíveis.



Esta espécie, nem mesmo em manhãs de reduzida visibilidade, se abstém de chamar alegremente do alto de uma árvore.


Também as Rolas-turcas (Streptopelia decaoto) são presença madrugadora em todos os parques e jardins. Tal como os melros, não deixam de esvoaçar, insistentemente, entre as ramagens, em voos de delicado exibicionismo. Sempre aos pares, até parecem que já se preparam para a futura criação. 




À medida que a manhã avança, o ar vai aquecendo e os relvados vão-se libertando da geada, pois o Sol tem aparecido radiante por estes dias.

Tanto a felosa-comum (Phylloscopus collybita) como o Chapim-real (Parus major) surgem, nestas manhãs solarengas, respectivamente, por entre os arbustos mais densos e nas ramagens ainda despidas dos choupos. É que por aqui encontram minúsculos pulgões, que para eles constituem saborosos repastos. 





Os Pombos-domésticos (Columba livia raça domest.) sempre muito activos esvoaçam, durante todo o dia sobre os telhados da cidade.



Presença diária no Parque Urbano, continua a ser, também, a do Corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo). Esta ave chega ao parque, bem cedo pela manhã vinda da Ria de Aveiro, onde pernoita em dormitórios de centenas de indivíduos. Durante a sua estadia no parque, é vista, frequentemente, a pescar no Rio Cáster. 




Após a pescaria, levanta voo, inicialmente baixo junto à água, até conseguir ganhar altitude e voar para os postes eléctricos, onde aproveita para descansar e secar as penas encharcadas. 



Quem no Inverno gosta de aparecer pelo Parque Urbano de Ovar é a Garça-real (Ardea cinerea). Embora a espécie seja residente nalgumas zonas do território nacional, é durante o Inverno, com a chegada de populações provenientes do centro e norte da Europa, que se observam maior número de indivíduos desta espécie. 

A sua postura hirta durante longos períodos de tempo, em locais húmidos mais ou menos próximos do rio, constitui uma imagem icónica, bem representativa do espírito da sua pescaria. Paciência.




Também a sua parente, a Garça-branca-pequena (Egretta garzetta) continua a ser presença habitual nas margens do rio Cáster e de seus afluentes. Com a sua plumagem de um branco puro não deixa ninguém indiferente à sua presença.



Sobretudo em voo, por entre as árvores, é uma ave de uma beleza extraordinária, com as suas compridas e projectadas patas negras, calçadas de um amarelo vivo. Muito bonita!




Parecendo querer conquistar o título de rei dos parques, o Rabirruivo-preto (Phoenicurus ochruros) avista-se por todo o lado. Erecto, no cimo de um muro, no ramo baixo de uma árvore ou na relva, esta pequena ave escura de cauda arruivada, apresenta um comportamento nervoso, com contínuas vénias e tremuras da cauda. É sem dúvida uma das aves mais abundantes no Inverno.




Mais discreto é o Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula). Com a sua pequena estatura e a sua grande quietude passaria perfeitamente camuflado não fosse o seu peito de um laranja forte. A sua graciosidade fazem dele um maravilhoso registo em qualquer período do ano.




Quem também se avista frequentemente, até pelo jeito despreocupado do seu comportamento, é a alvéola-branca (Motacilla alba). Calcorreando toda a extensão verde do gramão, esvoaça de repente atrás dalgum insecto que levanta do solo. Sendo presença regular ao longo de todo o ano, não altera os seus hábitos durante a estação mais rigorosa. 



Um dos grandes cantores da Primavera, o Chamariz (Serinus serinus), já se deixa ouvir do cimo das árvores, embora de forma algo tímida.




Quem explora, de forma extraordinariamente discreta, os relvados do Parque Urbano em busca de insectos é a Petinha-dos-prados (Anthus pratensis). 




Apesar do Inverno, este ano, ser especialmente duro, pela necessidade de nos encontrarmos confinados, os voos constantes da Andorinha-das-rochas (Ptyonoprogne rupestris), rodopiando junto aos edifícios altos da cidade, dão-nos uma sensação de que a Primavera está aí à porta!




Mas a Primavera não chegará, sem antes os dias frios darem origem a dias de muita chuva. Basta olhar o céu para se pressentir a vinda apressada de borrasca!




A Cegonha-branca (Ciconia ciconia) já se instalou desde os primeiros dias do ano em antenas, postes, árvores e chaminés do concelho. O número de ninhos, bem como a  sua população, vai aumentando progressivamente de ano para ano. 

Os ventos fortes que já se começaram a fazer sentir, adivinhando o temporal que se irá abater em breve sobre Ovar, impelem esta poderosa planadora a descrever largos e majestosos volteios sobre o Parque Urbano.



As sucessivas depressões que se vieram a manifestar durante as primeiras semanas do ano trouxeram chuva farta e contínua durante dias seguidos, tendo o rio Cáster transbordado para as margens, em distintos troços, ao longo do seu curso. Um destes sectores inundados foi precisamente o Parque Urbano.





E como acontece sempre em caudais de cheia, a forte corrente do rio arrasta muitos sedimentos, que conferem cor barrenta à água, bem como, uma diversidade de lixo plastificado, que aprisionado nos redemoinhos dos açudes, destoa na estética do Parque.




Nestes dias de temporal são poucos os ovarenses em trânsito pelos parques e jardins da cidade. Estão, antes, recolhidos perante a muita chuva e vento forte.



Após estes períodos agrestes, o Sol regressou, aquecendo o ar, o vento acalmou e o solo encharcado fez germinar rapidamente as plantas. Vêem-se surgir em algumas delas as primeiras pétalas coloridas, enquanto noutras desenvolvem-se as inflorescências e noutras ainda, surgem os primeiros limbos, que embelezam as ramagens.



Nestas últimas semanas, as cambiantes da meteorologia transformaram a vida nos espaços verdes da cidade. Foi como de repente tivéssemos entrado na Primavera!


Os cantos dos passeriformes são agora mais fortes e nítidos. Além dos habituais chamamentos dos melros e das rolas ouvem-se chapins e toutinegras. As aves dos jardins e parques da cidade começaram, de repente, a prepararem-se para um novo período de criação.


Os insectos irrompem do solo, da casca das árvores, de cavidades nas rochas, parece mesmo que de todo o lado. Arrancou para eles, também, o ciclo de uma nova vida, neste ecossistema citadino.




Toda esta explosão de biomassa faz com que as aves insectívoras tenham comportamentos cada vez mais agitados. 

No prado, melros e rabirruivos destacam-se pelos seus movimentos inauditos. Nas árvores, pequenos grupos de Chapim-rabilongo (Aegithalos caudatus) deslocam-se de ramo em ramo; a estes associam-se alguns indivíduos de Chapim-real.



Bem mais sonoras e flauteadas, são as cantorias que saem do interior dos arbustos mais densos e perenes e que pertencem à Toutinegra-de-barrete (Sylvia atricapilla).




Também a Alvéola-cinzenta (Motacilla cinerea), anda pelo Parque Urbano durante estes dias. Não tão abundante quanto a Alvéola-branca, frequenta sobretudo locais empedrados e de preferência próximos da água.




O arvoredo além de alojar variados animáculos na casca dos troncos e ramos, disponibiliza também infrutescências que atraem as aves granívoras.



O Tentilhão-comum (Fringila coelebs) é um dos pássaros que privilegia este tipo de disponibilidades mistas, encontrando aqui fartura de alimento.




O Pardal-comum (Passer domesticus) é outro granívoro, habitualmente observado a recolher o alimento do solo, mas que quando perturbado voa rápido para as árvores mais próximas.




Também o Pato-real (Anas platyrhynchos), que foi visto durante todo o Outono a nadar placidamente no rio ou aninhado, com a cabeça enfiada no dorso, nalgum canto das margens, alterou agora o seu padrão comportamental. A qualquer hora do dia é possível ver uma, duas ou mais destas aves a voarem alto a grande velocidade, cumprindo largos círculos sobre o curso do Cáster, como se de uma corrida de alta competição se tratasse. Também para ele já se iniciou o período pré-nupcial.




Nesta altura do ano muitas das árvores dos parques e jardins vareiros recobriram-se de uma roupagem nova, bonita, de tons ainda apagados mas já multicoloridos.





No início de Fevereiro as Andorinhas-das-rochas efectuam voos intensos e sistemáticos junto às fachadas dos prédios mais altos da cidade, onde se encontram instalados os ninhos usados no ano anterior. Em meados do mês a espécie já está a construir ninhos ou a reparar os que estavam deteriorados, para de seguida dar inicio à criação. 



Também a Andorinha-dos-beirais (Delichon urbicum), que chega à cidade em pleno Inverno, logo atrás do bom tempo que começou a fazer sentir-se, segue um calendário de criação muito próximo daquele que é seguido pela sua parente. Assim, na segunda quinzena de Fevereiro já é possível vê-las a reparar os velhos ninhos, construídos no ano anterior.




Como se tem verificado pelo comportamento e presença de determinadas espécies de aves entre nós, o Inverno do calendário não corresponde exactamente ao Inverno meteorológico e por conseguinte ao calendário das migrações. A reforçar esta ideia encontram-se mais duas espécies estivais que chegam até nós ainda antes da Primavera se iniciar.


A Águia-calçada (Hieraaetus pennatus) que já sobrevoa o centro da cidade de Ovar em meados de Fevereiro...



... e o Milhafre-preto (Milvus migrans) que chegou à cidade duas semanas depois.




Como ficou registado, o frio e a chuva deste Inverno curtiram o solo e o aumento de temperatura que se lhe seguiu fez desabrochar rapidamente a natureza. Poder-se-á falar de um Inverno primaveril ou, se a gosto, de uma Primavera precoce.

Mas uma coisa é certa. O Inverno chegou um dia, assumiu-se intensamente, com maior ou menor adversidade e a seguir passará o testemunho à estação seguinte, muito mais bonançosa. 

A vida das aves nos parques e jardins acompanha esta rotina e a vida do ovarense também. A pandemia por Covid-19 não fugirá, por certo, a este desiderato.

Fim de ciclo.



segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Um dia de Inverno na praia (II)

(Continuação)


Felizmente, estamos num sector litoral privilegiado, onde se consegue observar a ante-praia colonizada por vegetação pioneira, como ...


... o Feno-das-areias (Elymus farctus)...



... e o Cordeirinho-das-praias (Othantus maritimus).



Também por aqui se observam algumas dunas incipientes, vegetadas com Morganheira-das-praias (Euphorbia paralias)...




... à volta das quais procuram emergir da areia as pequenas folhas de Couve-marítima (Calystegia soldanella).




Chegamos, agora, mais próximo da linha de água.

Nesta zona mais baixa da praia são visíveis as marcas deixadas pela água à medida que a maré foi baixando.



Por aqui vê-se uma velha cápsula de ovo de Pata-roxa (Scyliorrhinus canicula). 


Por cima das nossas cabeças passam algumas Gaivotas-de-patas-amarelas (Larus michahellis), no seu segundo inverno, que nos saúdam com chamamentos roucos e profundos.


Constata-se que a praia propriamente dita deste sector apresenta escarpas de erosão, reflexo do clima de agitação marítima predominante.



Já se nota que a maré está a subir. Dentro de pouco tempo teremos que subir  também nós na praia.

Para já, ainda podemos desfrutar do corre-corre dos Pilritos-das-praias (Calidris alba) seguindo os espraios das vagas que morrem no areal.



No Inverno, a subida do mar é perigosa! Não se pode por isso facilitar e é necessário abandonar a praia. Subimos até à zona dunar, aproveitando uma zona de acesso às instalações da arte Xávega.



As vagas estão a rebentar na praia com mais força, como é natural durante a enchente. 



Do ponto onde nos encontramos apercebemo-nos que os pilritos que há um quarto de hora atrás se deliciavam a procurar alimento junto à água já desapareceram da praia. A rebentação é tão forte e enrolada que não permite que a água espraie de forma calma, ameaçando assim a sobrevivência daquelas pequenas aves.



Agora, encontrando-nos no flanco continental das dunas, os rugidos lancinantes do mar são substituídos nos nossos ouvidos por abafados estrondos. Desta forma, estamos aptos a captar as sonoridades provenientes da zona inter-dunar e até da duna secundária, onde está assente o pinhal.

Voltam-se a ouvir sons de fringilídeos, emboscados no interior das acácias próximas. Da mata, um pouco mais distante, ouve-se o mio de uma Águia-d'asa-redonda (Buteo buteo); poisada num Pinheiro-bravo (Pinus pinaster) perscruta o bosque baixo do raso dunar.




Caminhamos pela zona inter-dunar ao longo de um trilho que já foi bem mais linear e que agora, em alguns sectores, é obrigado a inflectir para o interior devido à mobilidade da duna primária.



A vegetação inter-dunar, ao contrário do que acontecerá em breve, ainda se apresenta maioritariamente de tons verde-escuro.  O rabirruivo-preto (Phoenicurus ochruros) também por aqui prolifera, esvoaçando imparável de lado para lado, sobretudo entre as Acácias-de-espigas (Acacia longifolia).




O estorninho-preto (Sturnus unicolor) voa em bandos numerosos sobre a depressão inter-dunar. No solo, procura por entre as gramíneas, invertebrados e sementes, refugiando-se no interior das acácias quando assustado.




A Erva-das-pampas (Cortaderia selloana), uma exótica que começou a ser plantada em jardins como espécie ornamental transformou-se rapidamente em espécie infestante em Portugal. Presente nos mais diversos habitats naturais ou semi-naturais, também aqui aparece abundantemente, colonizando facilmente os areais tal como anteriormente já o haviam feito a acácia e o Chorão (Carpobrotus edulis).



E chegamos finalmente à estrada, que correrá na frente marginal. A partir de agora iremos olhar a praia a partir de terra!


Enquanto realizámos o percurso pela zona inter-dunar a maré subiu bastante. As vagas estão bastante altas e rebentam forte na praia à nossa frente, bem como, no esporão mais adiante.



O horizonte sobre o oceano está cada vez mais cinzento, não por o Sol ter ficado encoberto mas porque os salpicos produzidos pelas ondas são cada vez maiores. E estes salpicos não ocorrem somente  devido à rebentação que se faz sentir sobre a praia propriamente dita mas também naquela que quebra ao largo. 

Ao largo, as cristas das ondas são obrigadas a quebrar, não só pela grande rapidez da ondulação mas também porque existem barras submarinas que a isso obrigam. Por esta razão se observam, nestes períodos do ano e do dia, autênticos comboios de ondas de cristas brancas, a dirigirem-se rapidamente para a costa.




Próximo da praia, sobre a linha de rebentação, passam em voo três exemplares do imponente Gaivotão-real (Larus marinus), dois adultos e um imaturo do segundo inverno. Esta ave destaca-se pela sua envergadura, sendo a maior de todas as gaivotas portuguesas.




Estamos de novo a passar pelo esporão da praia, mas agora caminhando pelo estradão, dado que o mar já cobre a totalidade da praia. A atmosfera sente-se cada vez mais húmida, pela contínua aerossolização produzida pelas vagas ao rebentarem estrondosamente sobre as rochas. 



As rolas-do-mar entretanto escorraçadas dos seus nichos ecológicos, aproveitam para tratar da plumagem desalinhada pelo vento e pelos salpicos de água salgada.



Em seguida, aquecidas pelo Sol e embaladas pelo marulhar do oceano, deixam-se repousar, de forma despreocupada. Mais logo, ao final da tarde regressarão às rochas para a última refeição do dia.




Entretanto, nas pequenas poças de água existentes ao longo do estradão de terra batida, formadas pela projecção das vagas durante a última preia-mar, as Gaivotas-d'asas-escuras saciam a sede.




Olhando o mar para lá da ondulação, repleta de cristas brancas, onde os patos-negros se continuam a balancear às centenas, vemos umas aves brancas, com a cabeça amarela escuro, de corpo fusiforme e asas afiladas de pontas negras que, ora voam rápido ganhando altura, ora se lançam como torpedos para dentro de água, a não menor velocidade. Tratam-se de Alcatrazes-nortenhos, a espécie com quem já travámos contacto da parte da manhã, quando encontrámos um cadáver no areal.




A estratégia de pesca levada a cabo por estas aves constitui um espectáculo digno de demorada apreciação. Estas aves habitualmente pescam sós, voando num e noutro sentido, em busca de peixe. Contudo, quando surgem cardumes próximos da superfície, as aves começam a juntar-se podendo, decorrido algum tempo, assistir-se a dezenas de aves lançando-se, em simultâneo, em voo picado, penetrando mar dentro.




Normalmente observam-se Alcatrazes com diferentes colorações. As aves de corpo e asas brancas, com as extremidades negras correspondem a indivíduos adultos enquanto as escuras correspondem a juvenis ou imaturos.


A maré continua a subir. No esporão e no enrocamento que já deixámos para trás continua a fazer-se ouvir o ribombar das ondas. Na praia arenosa a água sobe cada vez mais.

Algo suspeito, pelo grande volume, parece estar semi-enterrado no areal da ante-praia. Passou-nos despercebido durante a manhã quando caminhávamos mais próximo da água!

Verificamos agora tratar-se de um cadáver de Tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea). Com um peso que ronda os 400 quilos é a maior das tartarugas-marinhas e encontra-se nesta altura do ano a criar em praias tropicais.



Este exemplar, com a carapaça já muito deteriorada, parece ter sido aprisionado em redes de pesca e morrido por afogamento, tendo o seu corpo sido arrastado até aqui por correntes marinhas.


O mar não pára de subir na praia. E com ele chegam uma variedade de materiais, que se vão acumulando na ante-praia, enquanto outros ainda esperam a sua vez, flutuando na ondulação. 



A tarde vai a mais de meia. 

A atmosfera saturada de água acinzenta ainda mais o ambiente, dado os raios de Sol sentirem dificuldade em se afirmar.


Perfeitamente integrado nesta tela está o imaturo de Moleiro-grande (Stercorarius skua), passando em voo à nossa frente e que há algum tempo atrás andava a tentar forçar os alcatrazes a largarem o peixe capturado.




Neste momento a água cobre toda a praia, não restando uma nesga de areia onde um qualquer ser possa assentar. 

Por outro lado e com uma luminosidade mais intensa a provir do mar, todas as aves marinhas começam a ser observadas de terra como silhuetas, sendo difícil uma identificação assertiva. 

Chegou, pois, a hora do regresso a casa!