Mostrar mensagens com a etiqueta wildlifewatching. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta wildlifewatching. Mostrar todas as mensagens

sábado, 15 de agosto de 2026

Primavera no Parque

 






O verão já cumpre a sua segunda meia vida. 

A temperatura própria para este período do ano e a ausência de nortadas têm proporcionado um clima extraordinariamente agradável aos sentidos, o qual se tem manifestado durante dias e noites a fio. 

O parque da cidade reflecte, também ele, esta realidade. O acordar das suas manhãs tem sido de uma têmpera bastante mais adocicada face ao que acontecia há uns três meses atrás, quando a fragância clorofilina se difundia livremente pela atmosfera enquanto a vegetação, verde intensa, irrompia galopante por tudo o que era substracto disponível. 



No presente, experiencia-se uma quietude e silêncio dominantes, sobressaídos de um arvoredo visivelmente mais ralo e de verdes desbotados, ... 



... apenas interrompidos pelos arrulhos e bater de asas das rolas-turcas (Streptopelia decaocto), que não param de se cortejar até que sejam cumpridas as duas ou três posturas da época.



Ademais, só mesmo os tímidos chamamentos da passarada juvenil nascida ainda há poucas semanas e que diariamente deambulam, desde as primeiras horas de luz, junto das habitações no intuito de conseguirem algum alimento, como é o caso dos juvenis de alvéola-branca (Motacilla alba)...



e os quase infra-sons produzidos pelos insectos voadores ao polinizarem flor a flor, como a mosca-das-flores (Eristalis arbustorum), mimetizada de abelha para melhor se defender dos seus predadores.



Infelizmente é também nesta altura do ano que a vespa-asiática (Vespa velutina), chegada a Portugal há 15 anos, exerce uma maior pressão sobre os insectos melíferos autóctones dado se encontrar no auge do crescimento dos seus vespeiros.



Se as manhãs se revelam calmas, o meio do dia é de um silêncio ensurdecedor. A temperatura escaldante obriga os seres alados a refugiarem-se por entre a folhagem. Que o diga o sempre agitado melro-preto (Turdus merula).



Pelo contrário, esta acalmia que se abate sobre a natureza e a maioria dos seus seres favorece os répteis, como a lagartixa-ibérica (Podarcis hispanica), permitindo que estes animais de sangue frio abandonem de forma mais despreocupada as sombrias fendas das rochas, para se exporem aos raios solares tão importantes no processo da sua termorregulação corporal.



O fim de tarde chega também ele sereno, decorrendo sob o signo de uma luminosidade quente que só as sombras conseguem atenuar.



Esta acalmia de movimentos e sons que o verão impõe, traz inevitavelmente, a nostalgia dos agitados dias primaveris, em que as copas cresciam de verde puro, as flores despontavam coloridas e os passeriformes nos seus frenesins reprodutivos enchiam o ar de infindáveis trinados. 

Voltemos a um desses primeiros dias de primavera no parque da cidade e recordemos o evoluir desta maravilhosa estação do ano e da sua transição para o verão que se lhe segue.  


(continua)


quarta-feira, 12 de março de 2025

Inverno (IV)

 



(continuação)


Os dias estão a melhorar. Pelo menos é o que parece. 

O Sol dá um pouco mais de cor à natureza, sempre que consegue irromper o tecto de nuvens que se tem abatido sobre a mesma nos últimos dias.


Ao redor da laguna, os solos aluvionares dominados pela morraça (Spartina maritima) e pelo junco-marítimo (Juncus maritimus) ....



... e serpenteados por valas e esteiros onde a salicórnia (Salicornia ramosissima) marca presença ...



... resguardam várias outras espécies, conquistadoras dum meio onde a ausência de vegetação de grade porte permite visualizar o horizonte distante. 



Garças-reais (Ardea cinerea), imóveis como estacas, aguardam pelo momento preciso em que, disparando o seu longo bico, conseguem trespassar a presa tão desejada.



De maior dinamismo é a estratégia da sua parente, a garça-branca-pequena (Egretta garzetta). 

Deslocando-se cuidadosamente dentro de água, de forma a não ser percepcionada pelos pequenos peixes que nadam próximo da superfície, ...



... orienta a sua postura corporal sempre que a isso é obrigada, de modo a contornar os efeitos da reflexão da luz na superfície da água ...



... tornando o disparo do seu bico certeiro e mortal. 




Um grito de alarme, assaz  familiar, faz elevar o olhar. A silhueta em voo revela de forma inequívoca a passagem de uma águia-pesqueira (Pandion haliaetus). 





Uma verdadeira jóia alada dos habitats aquáticos, que tendo acabado a sua pescaria nas águas fundas da laguna vai na direcção do seu poiso remoto onde acaba por assentar.





A lontra (Lutra lutra), outra preciosidade do meio aquático, é uma visão quase sempre fugaz neste ecossistema. Surgindo do seu esconderijo, durante os períodos menos luminosos do dia, desaparece num ápice por entre a vegetação aquática da margem oposta do esteiro.  




Num voo baixo e deslizante sobre o caniçal segue a águia-sapeira (Circus aeruginosus), procurando descobrir algum roedor ou alguma ave desprevenida. 



Também o pequeno peneireiro-de-dorso-malhado (Falco tinnunculus) se deixa observar, nestes dias de maior bonança, suspenso no ar, batendo desesperadamente as asas, enquanto estuda o melhor momento para se deixar cair sobre o rato-do-campo que já localizou.  



Neste inverno tumultuoso, em que os períodos de acalmia têm sido curtos, parece que as condições do clima vão de novo ser agravadas. Novas depressões se avizinham prometendo que o fim do inverno, afinal, ficará adiado para a primavera!




sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Paleta de cores e sons (IV)

 






(continuação)

Quando o vento já vai longe e as nuvens já descarregaram toda a água que transportavam, o céu começa a abrir espaços por onde se esgueiram os primeiros raios de sol, que horas depois se transformarão numa "lavada" luminosidade. 



O arvoredo retoma, então, as suas fascinantes colorações, com o vermelho vivo dos liquidambares e os tons amarelos queimados dos plátanos a contrastarem na perfeição com o fundo claro das acácias (Acacia sp.),...



... o fundo escuro dos pinheiros-mansos (Pinus pinea)...



... e o amarelo encantador das Gynkgo.




Os dias estão a amanhecer radiantes mais uma vez. 

E esta luminosidade interfere com o comportamento das aves nos primeiros momentos do dia. Distante, provindo do interior do parque, um coro de cantos demonstram-no.

Mais perto, casais de rolas-turcas em voos estonteantes acabam por poisar nas varandas, ensaiando de seguida algumas coreografias emparceiradas.



Pela beira dos caminhos, as desinibidas alvéolas-brancas (Motacilla alba), calcorreiam em busca de pequenos insectos, antes de esvoaçarem para o prado onde as orvalhadas da noite favorecem o despertar dos pequenos vermes.



Os dias estão a aquecer bastante a partir do meio da manhã. Bastante, a ponto de confundir este final de Outono. 



sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Paleta de cores e sons (lll)

 





(continuação)


O Outono entrou numa nova fase.

O vento e a chuva apareceram finalmente, pese embora, durante algumas horas apenas.  

O suficiente, contudo, para sacudirem a natureza.



As árvores caducifólias, que impotentes há muito iam deixando tombar as suas belíssimas folhas, mais despidas ficaram ...



... enquanto o relvado, verde por essência, viu ampliado o tapete amarelo-acastanhado de manta morta.




A quantidade de água caída, embora insuficiente para saturar os leitos fluviais, rapidamente encharcou o subsolo, obrigando certas espécies a abandonarem as suas galerias subterrâneas. 

O aumento do número de montículos de terra, entretanto formados sobre o relvado, testemunham a azáfama com que a toupeira-comum (Talpa europaea) teve de lidar para enfrentar esta súbita mudança ambiental. 



A parca presença de raios solares tem sido uma constante por estes dias. Mas este facto não impede a vida no parque. 




Os raides aéreos, desde manhã cedo, executados pelas andorinhas-das-rochas (Ptyonoprogne rupestris) junto dos prédios contíguos ao parque, onde passam a noite, são disso testemunha.



Enquadrado por este ambiente soturno, o rabirruivo-preto (Phoenicurus ochruros) denunciou já a sua presença, graças ao seu canto tão característico. Contudo, observá-lo, hirto sobre uma rocha ou um ramo, abanando nervosamente o corpo, constitui uma imagem digna de registo.



Neste cenário, que ao longo destes dias tem privilegiado a reduzida luminosidade ambiental, o fim de tarde reserva alguma visibilidade para os pequenos pássaros que chamam baixinho uns pelos outros. 

O chamariz  (Serinus serinus) é um deles, sendo os seus chamamentos por esta altura do ano uma pálida sombra daquilo que representam durante a Primavera e o Verão.



E a noite, entretanto, não demorou muito a chegar, ao som dos assobios crepusculares dos melros-pretos.




(continua)


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Paleta de cores e sons (II)

 


                                                   



(continuação)


Mais discretos no tamanho e no canto, os passeriformes, como o chapim-rabilongo (Aegithalos caudatus), saltitam por entre os ramos despidos das ramagens, onde pequenos insectos e larvas se encontram alojados e lhes servem de repasto. 



Também o simpático pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula) se deixa apreciar, primeiro pelo seu límpido canto e num momento posterior pela sua encantadora  libré.

 



Outros, ainda mais pequenos e de canto quase imperceptível, como a felosa-musical (Phylloscopus trochilus) a caminho da sua área de invernada em África, obrigam-nos a uma maior atenção. 



Há medida que a claridade do grande astro vai revelando a manhã e multiplicando as tonalidades do imponente dossel arbóreo, ...



... casais de rolas-turcas (Streptopelia decaocto) esvoaçam do arvoredo para o solo e do solo para o arvoredo, sem que em momento algum deixem ficar para trás o seu inseparável companheiro.



Enquanto entretidas neste ternurento vaivém vão enchendo o ar com os seus chamamentos, de agradável timbre, dando ao Outono um encanto acrescido.


O som cortante que nos passa em cima, produzido por múltiplas asas rasgando rapidamente o ar, fazem-nos erguer a cabeça. 




Ao afastarem-se e quiçá como se quisessem deixar um adeus, coube a uma destas aves emitir um grasnido inconfundível. Tratam-se de patos-reais (Anas platyrhynchos) que voam para um outro sector do rio.


O Sol, entretanto, intensifica o brilho das coisas, dos seres, de tudo afinal. E as cores, que há um par de horas atrás permitiam belos contrastes, estão agora amalgamadas numa luminosidade que fere.



Só a tarde, quando o Sol no seu movimento virtual começar a declinar, trará de volta à natureza do parque aquilo que lhe é intrínseco. A beleza das suas cores e sons. 

As primeiras, com tonalidades cada vez mais sombrias, sem dúvida,...




... os segundos, mediante intervenientes, como o melro-preto (Turdus merula), perfeitamente adaptados aos trinados crepusculares. 



Crepúsculo outonal que ocorre a meio da tarde, porque num ápice a noite cairá e a luz residual afogar-se-á no meio da escuridão. 



(continua)