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quinta-feira, 22 de maio de 2025

Dia Internacional da Biodiversidade: que sentido tem em Ovar?

 



 

A biodiversidade de uma região traduz-se na variedade e interdependência existentes entre as espécies, os habitats e os ecossistemas que nela existem. A degradação dos habitats naturais e semi-naturais, a poluição e a exploração excessiva dos recursos enfraquece os ecossistemas e leva inevitavelmente à perda da biodiversidade. Deste modo, a biodiversidade é fundamental para o equilíbrio natural de uma dada região pois, em última instância, garante o bem-estar das suas comunidades humanas.



Estas premissas devem, assim, servir de pontos de partida para toda a acção autárquica - ainda por iniciar - de garantia da biodiversidade no concelho de Ovar.



Ovar é mar. Por isso, o ecossistema costeiro, areal, dunas, vegetação dunar e respectiva fauna devem ser acautelados através de medidas concretas, como a regular deposição de areias nas praias e no cordão dunar.




Ovar é mata. Predominantemente de pinheiro-marítimo, mas não só. Além da vegetação a mata alberga uma fauna variada e importantes comunidades de fungos e líquenes. Ademais constitui um verdadeiro pulmão para toda a região envolvente. Por isso, é imperioso que se trave esse desastroso plano, em curso, de destruição da mata concelhia. Não há argumentos decentes que justifiquem semelhante perda de biodiversidade.



Ovar é Ria. Canais, esteiros, valas, praias de vasa, caniçais, juncais abundam e asseguram uma enorme biodiversidade aquática. Dezenas de espécies aqui ocorrem, entre residentes, estivais, invernantes e migradores de passagem. Algumas com estatuto de vulnerabilidade e outras com estatuto de ameaçadas. Algumas raras, outras acidentais. É, pois, importante que se tomem medidas apertadas com vista à protecção deste ecossistema. 



Uma dessas medidas há muito proposta, mas sem nunca ter sido implementada diz respeito à delimitação de uma área protegida na ria de Ovar. A “Área de Paisagem Protegida da Foz do Cáster” visa a conservação das espécies e habitats que existem no espaço lagunar do concelho, numa óptica de desenvolvimento sustentável.



Ovar é urbe. Tem rios, parques, jardins, fontes de água. À priori, todos ao serviço da qualidade de vida e bem-estar dos ovarenses. Mas para isso ser possível os rios não podem correr poluídos, os parques e jardins têm de estar limpos de papéis, copos de plástico, latas de refrigerantes e dejectos de cães espalhados pelos relvados.



Assinalar a Biodiversidade ovarense passará sempre, hoje e amanhã, por uma educação ambiental que terá por base a adopção de uma cidadania comprometida. Só com cidadãos respeitadores do ambiente e participativos poderemos conservar os recursos que são nossos e não de outros, sejam estes negociantes oportunistas ou governantes incompetentes.

 


sábado, 22 de março de 2025

Dia Mundial da Água e Dia Mundial da Meteorologia

 






Assinalar estes dias evocativos de temas ambientais – como os da floresta, da árvore, do solo, do ar ou outros afins – deveria servir não para palestras de circunstância vazias de boas intenções ou para inaugurações de alguma obra recentemente concluída, mas sobretudo para repensar aquilo que ainda não está feito e aquilo que estando feito justifica correcção ou melhoria de acordo com as necessidades ambientais da actualidade.

Sendo a água a base da vida deveria ser dos primeiros recursos naturais, a ser mimado em todo o planeta e das mais variadas formas.

Sendo o mundo tão vasto e em cada um dos seus cantos existirem problemáticas específicas relacionadas com os recursos hídricos será mais razoável concentrarmo-nos no nosso cantinho e nos contributos que se poderão dar para a protecção e valorização das nossas águas.

A poupança no consumo de água, que é um apelo mundial feito a todos nós, será talvez o problema de mais rápida solução, uma vez que esse consumo está directamente relacionado com o esvaziar de cada carteira.

Mas há outras abordagens à água que não parecendo afectar cada indivíduo isoladamente, afectam, de facto, toda a comunidade vareira.

O rio Cáster e a ribeira da Sr.ª da Graça ao passarem pelo centro de Ovar, nomeadamente pelo parque urbano, têm todas as características para embelezarem a cidade e proporcionarem momentos prazerosos a quem circula junto deles … desde que as suas águas não corram oleosas, com espumas, lixos sólidos e maus odores, como às vezes acontece.



Por outro lado, estes dois cursos de água não deveriam ter os leitos entupidos de vegetação, cuja presença na época das chuvas só serve para dificultar o fluxo das águas facilitando o alagamento das margens. Essa vegetação que cresce espontaneamente no meio do leito deve ser limpa anualmente a partir do mês de Setembro, de modo a não afectar a reprodução das espécies que nela se abrigam.



Estes dois cursos de água também não precisam que se lhes cortem as árvores das margens, bem pelo contrário. O arvoredo das margens é o coração e os pulmões de qualquer galeria ripícola, contribuindo para o controlo das cheias durante o inverno.




Mas Ovar, cidade rodeada de mar salgado e ria salobra é também rica em água doce. Pelo menos deveria ter sido no passado, dada a quantidade de fontes que se construíram, algumas artisticamente decoradas e que hoje, moribundas de tanto desleixo, aguardam que a autarquia lhes preste o socorro merecido.




A Barrinha de Esmoriz, designada pelos ovarenses deste modo, é Lagoa de Paramos para os espinhenses, devido ao facto de ser pertença dos dois concelhos. Mas designações à parte, ela tem características e problemas comuns.

A sua característica principal é ser uma lagoa costeira, rodeada por uma extensa mancha de caniçal, onde várias espécies animais se reproduzem, outras invernam e outras tantas a usam como local de descanso e alimentação durante as passagens migratórias. Dito de outro modo, um importante ecossistema natural onde até ocorrem espécies acidentais provenientes do continente norte-americano.

Tal condição levou à sua integração na rede europeia Natura 2000. E o que é que daqui resultou? Que se criaram passadiços e uma ponte atravessando o coração desta área promovendo a perturbação em áreas que antes eram inacessíveis à pressão humana, desvirtuando o conceito do estatuto adquirido. É que para efeitos turísticos e de passeio/caminhada bastaria a existência do passadiço ao longo da periferia da lagoa.



Além desta concepção “ecológica” que as duas autarquias arquitectaram, as mesmas continuam a nada fazer (apesar de ao longo de décadas terem sido apresentados projectos elaborados por associações ecologistas) para que este espaço seja efectivamente uma Reserva Natural, onde as espécies que de lá se ausentaram possam encontrar condições para regressarem e por lá se fixarem.

 

O dia de hoje, Dia Mundial da Meteorologia, pretende chamar a atenção para a importância do clima nas nossas vidas e no planeta em geral. Objectivos, à priori, consensuais pese embora em certas situações haja sempre alguém que parece querer negar essa mesma certeza.

É o clima que faz tombar em poucas horas a chuva que deveria cair em meses. Chuva, que apesar de ser esperada e anunciada pelos meteorologistas e pela protecção civil, não deixa de inundar estradas e habitações, criar torrentes mortais, fazer transbordar rios e obrigar à descarga de enormes massas de água das barragens. Não há sacos de areia nem taipais que valham. O excesso de água não infiltrada no solo tem de passar, mesmo que para isso tenha que levar tudo à sua frente. No final é sempre o homem que tem de correr atrás do prejuízo.

É o clima que faz tombar impiedosamente sobre a linha de costa a água que cada vez existe em maior quantidade nos oceanos devido ao degelo e que inunda e destrói as ruas e habitações marginais. Não há muralha de pedra que valha. As vagas têm de se despenhar sobre a frente costeira, pois a sua força e energia não se dissipam milagrosamente. Para já apenas molhando, um dia com a possibilidade de a água arrastar consigo blocos rochosos. Será sempre o homem a colher aquilo que semear.




Água, clima, ……., ambiente, homem, decisões. Uma engrenagem, que cada vez mais, tem de estar bem oleada.

 

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Degelo glaciar: bater em retirada!

 




(continuação)


Parecia tardar, mas chegou. Chegou mais uma vez.

Não sei se será coincidência ou se será antes uma tendência. O costume de fazer sair apressadamente do armário bolorento os fantasmas da “protecção” do litoral.

No passado 28 de Agosto foi produzida uma deliberação pela Agência Portuguesa do Ambiente, IP, provavelmente a reboque de uma pressão do poder local, no sentido de levar a cabo a empreitada de reabilitação e reforço da estrutura longitudinal aderente e dos esporões na praia do Furadouro, no valor de dois milhões, quatrocentos e trinta e nove mil, vinte e quatro euros e trinta e nove cêntimos acrescido de IVA.

 

Esta notícia vem confirmar a grande e permanente dificuldade destes personagens da governança em entenderem que o problema da erosão da linha de costa, não sendo de agora, toma no presente contornos cada vez mais graves, também pela incorrecta adopção de medidas.

 

Senão vejamos.

A subida do nível do mar, intensificada nas últimas décadas, previsivelmente será agravada nos próximos anos, pelas consequências que o aquecimento global continua a provocar no degelo das calotas polares e nos glaciares.

O volume oceânico irá, assim, continuar a expandir, independentemente das construções ou obras de engenharia que se queiram implementar na faixa litoral. 

Não é a pedra que irá travar este processo da subida do nível médio do mar.

 

A falta de areia na corrente de deriva litoral foi sendo agravada, por décadas de exploração de inertes nos rios e nas bacias portuárias, sem que tenha havido preocupações com o impacto que estas explorações comerciais viriam a ter nas praias. Esse impacto foi muito alto e as praias foram desaparecendo porque a areia a elas não chegava.

Não é com pedra que se vai colmatar este défice arenoso das praias.

 

Apesar dos drásticos efeitos da erosão litoral constituírem um acontecimento antigo no concelho de Ovar (emagrecimento das praias e destruição de palheiros e outras construções), apesar de o mar nunca ter deixado de galgar terra adentro nos anos subsequentes, apesar dos alertas feitos com base em estudos realizados nas praias do concelho de que a regressão da linha de costa era uma realidade, apesar das recomendações feitas sobre a gestão destes problemas, a verdade é que se preferiu assobiar para o lado umas vezes e chutar para canto das outras.

 


E como se nada de grave estivesse a acontecer nestas praias ameaçadas do concelho ovarense foram-se permitindo novas construções habitacionais e hoteleiras na frente marginal, ignorando os perigos daí decorrentes.

E coloca-se a questão. Porque é que em vez de uma gestão danosa não se agiu em sentido oposto, relocalizando estes interesses instalados para locais mais recuados e seguros da linha de costa?

 

Por isso, apesar das toneladas e toneladas de pedra que se colocaram nas praias do concelho e que não resolveram coisa nenhuma (antes pelo contrário fragilizaram sectores que não sofriam erosão), restam duas certezas absolutas.

A primeira é que estas descargas de pedra não são uma oferta dos deuses. Elas são pagas por todos nós.

E aqui coloca-se uma nova questão: porque teremos todos de pagar este custo de protecção dos interesses particulares de quem quer continuar a viver com os pés dentro de água e com projectos turísticos mirabolantes na cabeça?

A segunda certeza é que, embora as praias não encham de areia e o medo do mar de Inverno esteja sempre presente, alguém vai dormir muito mais aconchegado com os lucros deste negócio.

 

Na verdade, o problema da erosão costeira transformou-se hoje em dia num desafio de gestão costeira!

E para fazer uma gestão séria é preciso ter … coragem na sua abordagem, a qual nada tem a ver com uma atitude de Pilatos em mandar descarregar uns quantos camiões de pedra sobre o litoral.

Caso não aconteça um milagre, o abandono da faixa litoral do concelho, será uma sentença ditada pelo oceano a curto prazo!

Não é agradável esta visão, de facto. Mas não há como a contornar. Será, então, necessário retirar as populações da faixa litoral. Bater em retirada.  

Mas para tomar esta decisão é preciso que surjam políticos com … a tal coragem. 

                   

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Flora dunar

 





A flora dunar constitui um tipo de vegetação sujeita a condições extremas do clima, como sejam a acção dos ventos e a insulação, do teor de salinidade das areias e do seu soterramento, entre outros.

Além destes factores, de ordem natural, a vegetação das praias e dunas está sujeita ao pisoteio, produzido por homens e máquinas, sendo cada vez mais raros os sectores litorais com uma distribuição equilibrada da sua flora.

Por todas estas razões e pelo aumento da intensidade dos galgamentos oceânicos, consequência dos efeitos do aquecimento planetário, as comunidades vegetais das praias arenosas são parcas em número de espécies.

Vale a pena, por isso, apreciar a singeleza desta flora, fundamental, ademais, na saúde e estabilidade de todo o ecossistema dunar.



sexta-feira, 21 de junho de 2024

Degelo glaciar: cegueira ou idiotice?

 





(continuação)


Face ao constatado nos apontamentos anteriores - a actual fusão das massas geladas do Árctico, Antárctida e montanhas continentais, acelerada pelas emissões de gases com efeito de estufa (GEE) - não é difícil compreender que o nível médio dos oceanos suba a um ritmo muito superior ao verificado nos últimos 10 000 anos, ou seja, durante todo o período pós-última glaciação. 

Isto significará que, de ora a vante, milhões de pessoas em todo o mundo, vivendo em áreas próximas da faixa litoral, estarão em risco de sobrevivência, tendo obrigatoriamente que abandonar as suas habitações.



Se a subida anual do nível médio das águas do mar se fazia sentir, desde o final do século XIX até meados do século XX, a um ritmo milimétrico, actualmente faz-se já a um nível centimétrico. Esta escala de medição poderá parecer insignificante, mas não é, de facto!


Para Ovar, as provas conclusivas desta subida do nível do mar ficaram bem definidas, com os valores de taxas de recuo da linha de costa calculados em 1998/1999 (1), produzidos pela ocorrência de galgamentos oceânicos, cada vez mais frequentes e intensos.




Apesar do comportamento invasivo do oceano sobre terra firme ser uma realidade ameaçadora para as gentes, floresta e palheiros das praias do concelho de Ovar (anos 60 até ao presente), a situação foi sendo sempre menosprezada pelas entidades responsáveis.

Como já se assinalou, a falta de areias nas águas oceânicas (deriva litoral) era, então, o principal factor da erosão costeira. Por tal facto, o edifício dunar e respectiva biodiversidade foram desaparecendo gradualmente, sem que a autarquia valorizasse essas perdas nem tão pouco procedesse à reconstrução daquele cordão. 



Foi preciso pôr em prática, em 1997, após aprovação da Direcção Regional do Ambiente e dos Recursos Naturais do Centro, o "Plano de Recuperação das Dunas de Esmoriz", de iniciativa particular, ...



... e quase uma década depois ter sido publicado "A Praia dos Tubarões" (2), onde se defendia a alimentação arenosa das praias, para haver uma viragem na abordagem à defesa da costa ao nível ministerial.

Mudança demasiado tardia, contudo!


Ora, a somar ao défice de areia existente nas praias, as últimas duas décadas trouxeram um problema acrescido. O fenómeno do Aquecimento Global, que se tem vindo a abordar. E este é e vai continuar a ser incontrolável durante muitos anos, pelo que, o mar irá continuar a avançar sobre a faixa costeira ... e muito!

Daí que todos os licenciamentos para novas construções na frente litoral do concelho, efectuados nos últimos 50 anos, constituem permissões totalmente reprováveis face à realidade existente. 



Terá sido, esta má gestão de ordenamento da zona marítima, um caso de cegueira ou de idiotice?


(continua)


(1) Reis, A. 2000. Avaliação da erosão costeira entre as praias de S. Pedro de Maceda e do Torrão do Lameiro (Ovar). Dissertação de Mestrado. Universidade de Aveiro.

(2) Reis, A. 2006. A Praia dos Tubarões



sexta-feira, 3 de maio de 2024

Degelo glaciar: a erosão costeira no concelho de Ovar

 





(continuação)


A erosão do litoral ovarense é um fenómeno bem antigo, que se começou a manifestar de uma forma mais notória a partir de meados do século passado.

Durante o final da década de 40 e princípios da década de 50, as taxas de recuo da linha de costa eram relativamente baixas em toda a frente concelhia, ligeiramente maiores a norte do Furadouro do que a sul. 

Durante essa mesma década de 50 e nas duas décadas seguintes viria a ocorrer uma mudança muito significativa no grau de erosão das praias do concelho. Enquanto os sectores de praia a norte do Furadouro, por finais dos anos 70, mantinham uma taxa de erosão baixa e estável, a zona sul, pelo contrário, sofria um acentuado recuo, tendo-se atingido taxas quatro vezes superiores aos valores registados a meio do século.

Contudo, o pior estava para vir. Nas décadas de 80 e 90 a erosão atingiu severamente todo o litoral do concelho, voltando a aumentar a taxa de recuo a norte do Furadouro, com especial incidência no sector de Maceda (3).



A falta de areia na corrente de deriva oceânica e o elevado número de estruturas pesadas de engenharia, implantadas desde o Furadouro até à foz do Douro, eram de longe as principais causas deste desgaste que o litoral ovarense ia apresentando (1,2).




Com a entrada no novo milénio, a frequência de galgamentos oceânicos aumentou, representando estes episódios uma constante ameaça sobre a frente marítima, com taxas anuais de recuo da linha de costa nunca antes alcançadas (4).

O efeito das alterações climáticas, nomeadamente com o crescente degelo dos glaciares do Árctico, incrementou a subida do nível do mar face ao que era habitual até finais do milénio anterior.

Perante este novo e dramático cenário, a frente marítima vareira passa, definitivamente, a constituir-se como a zona mais erodida do litoral português. Uma zona de vulnerabilidade excepcional, para a qual já se apontavam soluções urgentes, desde os finais dos anos 90 face ao colapso contínuo do cordão dunar (1,3).




(continua)


(1) Reis, A. (2000). Avaliação da rosão costeira entre as praias de S. Pedro de Maceda e do Torrão do lameiro (Ovar). Dissertação de Mestrado. Universidade de Aveiro.

(2) Reis, A. (2002). Quando o mar enrola na areia

(3) Reis, A. (2006). A praia dos tubarões.

(4) Reis, A. (2009). Estudo não publicado.



sexta-feira, 5 de abril de 2024

Degelo glaciar: a Antárctida






(continuação)


A Antártida - o continente gelado - perdeu, desde 1940 até aos dias de hoje, cerca de 3 mil quilómetros quadrados de superfície, em consequência da subida de 0,5 °C na temperatura média.

Pelo terceiro ano consecutivo, a extensão de gelo marinho neste continente atingiu níveis nunca antes (desde 1979 até 2022) registados: uma área inferior a 2 milhões de quilómetros quadrados.


Este aumento dos valores da temperatura, acompanhado por um anormal prolongamento em cerca de um mês em algumas zonas, do período de degelo no Verão, tem afectado não só, a extensão gelada deste continente, como também, as espécies animais que aqui vivem. Um dos exemplos é a redução em 33% da população de pinguins-imperadores. (1)


Adventure Life


Outra consequência deste aumento de temperatura sobre as espécies animais nativas da Antárctida diz respeito à chegada de vírus perigosos, como o H5N1 (gripe das aves) já detectado em aves necrófagas (skuas) e que poderão destruir as colónias de outras aves marinhas nidificantes neste continente.

Segundo um outro estudo (2) das 162 plataformas de gelo da Antárctida, 71 perderam massa e destas, 48 diminuíram pelo menos 30% da sua massa.


A situação do continente gelado é gravíssima. 

E as consequências dos seus impactos nos ecossistemas ao nível mundial irão ser devastadoras, caso não haja uma alteração drástica das economias mundiais.


Segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas), para se evitar um aumento da temperatura em 3.ºC até ao final do século será necessário uma redução global de 42% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) até 2030. Isto, porque a desaceleração dos efeitos do aquecimento não é instantânea!

Resta, pois, muito pouco tempo!


(1) Segundo estudos do National Snow and Ice Data Center (NSIDC) dos EUA e da Universidade de Liège (Bélgica)

(2) publicado na revista Science Advances



(continua)



sexta-feira, 15 de março de 2024

Degelo glaciar: a calote árctica

 





(continuação)


A banquisa árctica estende-se por uma ampla superfície, desde o Alasca à extremidade leste da Sibéria, sendo nela que se encontram os glaciares árcticos, verdadeiros mega contentores de água doce.  

Contudo, a situação da banquisa tem-se alterado de forma drástica nas últimas décadas, como resultado das alterações climáticas. 

O Árctico está a aquecer a um ritmo muito superior ao de outras zonas do globo. Por este facto, a sua extensão superficial foi reduzida em 14% e a sua espessura em 40%.

O degelo induz a mais degelo, uma vez que ao diminuir a superfície reflectora de raios solares (camada branca de gelo), aumenta a superfície absorvente dessas mesmas radiações (água marinha escura).


Fonte: Getty Images

O degelo também está pôr a descoberto novos territórios terrestres, anteriormente encobertos, como está a acontecer em Nova Zembla e Terra de Francisco José (Rússia).



Uma das áreas mais afectadas pelo degelo árctico é a Gronelândia. Esta ilha dinamarquesa é a segunda maior reserva de gelo do mundo, apenas superada pela Antárctida. A superfície gelada ocupa 85% da superfície desta enorme ilha, que possui para cima de 20 000 glaciares.

Um estudo da NASA tinha estimado que entre 1992 e 2020 os glaciares da Gronelândia teriam perdido uma massa de 4.89 mil milhões de toneladas. Contudo, a situação é na realidade bem mais grave, dado que, segundo resultados divulgados pela Communications Earth & Environment, a banquisa da Gronelândia terá atingido um novo máximo de degelo em 2019, com uma perda de 532 mil milhões de toneladas de gelo nesse ano

De acordo com um estudo recente, publicado na Nature Climate Change, os glaciares da Gronelândia estão a fundir a uma velocidade cinco vezes mais rápida do que há 40 anos, com alguns deles a perderam mais de 35% do seu volume. E o estudo prevê o acentuar deste processo no futuro recente.

Estas massas de gelo fundido são responsáveis pela regressão glaciar e simultaneamente representam 15% da actual subida do nível do mar ao nível planetário. 

Sabe-se também, a partir de investigações feitas pela Universidade de Leeds, que só esta ilha tem gelo suficiente para poder provocar um aumento global do nível do mar em 7.5 metros.


(continua)


sexta-feira, 8 de março de 2024

Degelo glaciar: o fenómeno

 






A elevação da temperatura média do ar à escala planetária, intensificada a partir da revolução industrial e acelerada mais recentemente pelo anormal "efeito de estufa", tem conduzido à fusão excessivamente rápida dos glaciares. 

Estas extensões de massas geladas, de idades centenárias ou milenares, acumuladas nas zonas polares e nas altas cadeias montanhosas continentais, e que no passado apresentavam uma grande estabilidade, estão a desaparecer a um ritmo impressionante.

Segundo um estudo coordenado pela Universidade de Zurique, entre 1961 e 2016, o planeta terá perdido mais de 9000 biliões de toneladas de gelo glaciar. 


Refira-se que, aos glaciares, que ocupam 10% da superfície terrestre, se juntam as placas de gelo formadas nas regiões polares, totalizando toda esta massa cerca de 70% da água doce do planeta. Um tesouro preciosíssimo para a vida na Terra, que se está a perder, deste modo, a grande velocidade! 


É este fenómeno de degelo à escala global, que se prevê continuar a ocorrer nos próximos anos, devido à presença de grandes concentrações atmosféricas de dióxido de carbono e demais gases com efeito de estufa (GEE), entre os quais se destaca o metano. Será, pois, absolutamente necessário reduzir a queima de combustíveis fósseis e parar com os desmatamentos das florestas, pequenas e grandes. 


Fonte: tempo.pt



As consequências do degelo glaciar são múltiplas e gravosas.  Drásticas alterações nos ecossistemas, a extinção de numerosas espécies, a modificação da circulação oceânica e do clima, a perda das reservas de água doce, ...enfim, a vida planetária, tal como a conhecemos. 

Outras, talvez com menor visibilidade na actualidade, mas igualmente a ter em conta, são por exemplo, a contaminação das bacias hidrográficas com microrganismos patogénicos provenientes do degelo. Esta questão, foi levantada há pouco mais de um ano por investigadores da Universidade de Aberystwyth (País de Gales), que preveem até 2100, uma libertação de cerca de 100 mil toneladas de microrganismos para as águas oceânicas, potenciadores de surtos epidémicos. 


Como os oceanos funcionam como um regulador da temperatura planetária, absorvendo 90% do calor terrestre, o aumento de temperatura provocado pela acumulação exagerada de GEE tem um impacto imediato no aquecimento dos mares e consequentemente nos gelos polares. 

O aquecimento de um glaciar marinho conduz à perda de consistência do gelo e ao aparecimento de fissuras por onde a água resultante da fusão se escapa, erodindo esses mesmos canais, que acabam por alargar e facilitar a ruptura do glaciar em blocos mais pequenos (icebergues).

Mas se nos mares as coisas não estão boas, em terra não estão melhores. O Fundo Mundial para a Conservação da Natureza (WWF), prevê que até 2100 irão desaparecer para cima de um terço dos glaciares terrestres. 


O fenómeno do degelo glaciar poderia ser encarado como o último elo da cadeia. O fim de linha do aquecimento global. 

Mas não é assim. O degelo, em si, é apenas um elo intermédio do que poderá acontecer no futuro.


(continua)