O verão já cumpre a sua segunda meia vida.
A temperatura própria para este período do ano e a ausência de nortadas têm proporcionado um clima extraordinariamente agradável aos sentidos, o qual se tem manifestado durante dias e noites a fio.
O parque da cidade reflecte, também ele, esta realidade. O acordar das suas manhãs tem sido de uma têmpera bastante mais adocicada face ao que acontecia há uns três meses atrás, quando a fragância clorofilina se difundia livremente pela atmosfera enquanto a vegetação, verde intensa, irrompia galopante por tudo o que era substracto disponível.
No presente, experiencia-se uma quietude e silêncio dominantes, sobressaídos de um arvoredo visivelmente mais ralo e de verdes desbotados, ...
... apenas interrompidos pelos arrulhos e bater de asas das rolas-turcas (Streptopelia decaocto), que não param de se cortejar até que sejam cumpridas as duas ou três posturas da época.
Ademais, só mesmo os tímidos chamamentos da passarada juvenil nascida ainda há poucas semanas e que diariamente deambulam, desde as primeiras horas de luz, junto das habitações no intuito de conseguirem algum alimento, como é o caso dos juvenis de alvéola-branca (Motacilla alba)...
e os quase infra-sons produzidos pelos insectos voadores ao polinizarem flor a flor, como a mosca-das-flores (Eristalis arbustorum), mimetizada de abelha para melhor se defender dos seus predadores.
Infelizmente é também nesta altura do ano que a vespa-asiática (Vespa velutina), chegada a Portugal há 15 anos, exerce uma maior pressão sobre os insectos melíferos autóctones dado se encontrar no auge do crescimento dos seus vespeiros.
Se as manhãs se revelam calmas, o meio do dia é de um silêncio ensurdecedor. A temperatura escaldante obriga os seres alados a refugiarem-se por entre a folhagem. Que o diga o sempre agitado melro-preto (Turdus merula).
Pelo contrário, esta acalmia que se abate sobre a natureza e a maioria dos seus seres favorece os répteis, como a lagartixa-ibérica (Podarcis hispanica), permitindo que estes animais de sangue frio abandonem de forma mais despreocupada as sombrias fendas das rochas, para se exporem aos raios solares tão importantes no processo da sua termorregulação corporal.
O fim de tarde chega também ele sereno, decorrendo sob o signo de uma luminosidade quente que só as sombras conseguem atenuar.
Esta acalmia de movimentos e sons que o verão impõe, traz inevitavelmente, a nostalgia dos agitados dias primaveris, em que as copas cresciam de verde puro, as flores despontavam coloridas e os passeriformes nos seus frenesins reprodutivos enchiam o ar de infindáveis trinados.
Voltemos a um desses primeiros dias de primavera no parque da cidade e recordemos o evoluir desta maravilhosa estação do ano e da sua transição para o verão que se lhe segue.
(continua)




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