sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Limícolas

 





As aves limícolas podem ser encontradas em diversos habitatspese embora sejam mais frequentes em Zonas Húmidas, como lagunas costeiras, estuários e praias marítimas. 

Apesar de algumas espécies apresentarem um porte médio, a maioria são de pequenas dimensões. 

São na sua generalidade espécies migradoras.

Vamos apreciá-las!



sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Hábeis arpoadores

 





As marismas constituem um ecossistema de extraordinária riqueza biológica. Neste meio tão peculiar, são sobretudo as aves aquáticas que realçam a beleza e diversidade das espécies presentes. 

Neste reforçado apontamento e recorrendo de novo às palavras de Félix Rodriguez de la Fuente destaca-se o comportamento das garças em "As marismas: 3-Hábeis arpoadores"



sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Irrequietos aprovisionadores


 



O Outono entrou suave, mas depressa a estação evoluiu para os rigores que caracterizam o Inverno que há-de chegar.




Enquanto nos campos a terra, lavrada e adubada, está pronta para acolher a sementeira do trigo, da aveia, da cevada e do centeio, depois dos sóbrios milheirais se terem transformado em mera recordação ... 



... no bosque próximo, os carvalhos, castanheiros e alguns sobreiros presentes deixam tombar sobre o solo ouriços e bolotas, ...



... verdadeiros petiscos gourmet para uma diversidade de seres, que diariamente "brincam às escondidas" por entre ramos, folhas e troncos, como é o caso do gaio (Garrulus glandarius).



Um outro, desses seres florestais, icónico pelo seu aspecto gracioso e comportamento vivo, é o esquilo-europeu, comum ou vermelho (Sciurus vulgaris), o único esquilo arborícola nativo da Europa. 




Neste simpático animal sobressaem a pelagem, maioritariamente castanha-avermelhada no Verão, as partes inferiores brancas, uma cauda farta e uns olhos grandes e expressivos.



Contudo, a partir de agora e durante todo o Inverno os tons são mais acinzentados e as orelhas estão terminadas por pincéis de pêlo.



Este roedor, depois de ter passado o estio num estado de grande inactividade, devido às elevadas temperaturas, está agora em plena laboração, procurando insistentemente o alimento que irá aprovisionar, antes que chegue o Inverno.




Quando as temperaturas diminuírem manter-se-á abrigado, sem contudo entrar em hibernação, nalgum dos seus ninhos, frequentemente adaptados de  velhos ninhos de pega ou gaio. 


É assim, que podemos vê-lo a descer desembaraçadamente um tronco de cabeça para baixo ...




... e no solo, dando pequenas corridas, umas atrás das outras, em busca dos preciosos frutos das caducifólias e das sementes dos vários pinheiros que por lá também ocorrem.



Outras vezes, nomeadamente quando assustado, sobe rapidamente o grosso tronco, esgueirando-se pelos ramos até atingir o topo da árvore. Desta, saltará facilmente para a vizinha, ajudado pelo balanceio da cauda, desaparecendo momentaneamente à vista.



Quando se sente tranquilo senta-se num ramo baixo dalgum castanheiro ou carvalho, com a cauda elevada a tapar-lhe a cabeça, roendo com frugalidade nozes, avelãs, bolotas, sementes, pinhões, cascas de frutos, tubérculos, fungos, insectos, ovos, etc. Enfim, eclético também na alimentação.



O esquilo-comum tem hábitos diurnos. Embora se deixe observar com relativa facilidade ao longo do dia, apresenta no Verão uma maior actividade após o alvorecer e antes do anoitecer, enquanto no Inverno apresenta apenas um pico de actividade matinal.

Ao final da tarde é habitual deslocarem-se até aos charcos mais próximos para se saciarem, antes que a noite chegue e se recolham ao ninho.



 

O esquilo é um animal muito territorial, pese embora, não apresentar grande agressividade, inclusive durante a ampla época de reprodução, que se estende de Janeiro a Agosto. Tem em geral 3 a 4 crias por ano.

Além dos predadores naturais, como as aves de rapina florestais e os mustelídeos, o esquilo-vermelho é caçado por cães e gatos domésticos. A sua postura de defesa consiste em saltar para o lado do tronco oposto ao perigo e manter-se imóvel, agarrado ao mesmo.




Perante tal explosão de vida, não haverá, pois, quem fique indiferente a este pequeno e ágil acrobata que povoa os nossos bosques.




sexta-feira, 27 de outubro de 2023

A migração pós-nupcial: os anatídeos (II)

 




(continuação)


O pato-trombeteiro (Anas clypeata), distingue-se à distância, pela sua silhueta atarracada e bico comprido, dirigido para baixo e em forma de colher. A sua cabeça de cor verde escura, o peito branco e os flancos acastanhados constituem, também eles, elementos diferenciadores.



São vistos isolados ou em pequeno número, misturados com outras espécies, em águas baixas e com bastante vegetação, para onde nadam para se esconderem. 


O pato-branco (Tadorna tadorna) é uma ave de pescoço comprido, que se reconhece facilmente pela coloração branca dominante, cabeça verde muito escura, bico vermelho com protuberância basal e uma banda castanha a toda a largura do peito.




A espécie chega a Portugal vinda do norte da Europa durante a migração outonal, distribuindo-se por diferentes zonas húmidas costeiras. Contudo, nos últimos anos tem havido lugar a uma fixação da espécie, como residente, em certos locais capazes de oferecer boas condições de abrigo.




O pato-ferrugíneo (Tadorna ferruginea) é uma ave considerada de ocorrência acidental no país, sendo a generalidade dos avistamentos atribuídos a indivíduos fugidos de cativeiro. 

Contudo, a observação anual de exemplares em determinadas zonas húmidas, exclusivamente durante este período do ano, sugere que tais ocorrências possam corresponder a aves selvagens que se integraram nos bandos migratórios de outros anatídeos, em trânsito para o sul de Espanha e norte de África.



O pato-ferrugíneo apresenta porte, voo e comportamento semelhantes aos do pato-branco. O seu corpo é de cor laranja-ferrugem, com uma mancha branca nas asas. A cabeça é mais clara que o corpo. Apresenta uma delgada banda preta no pescoço (apenas na plumagem de Verão) com o bico e as patas de cor negra.





Entre os patos que para obterem alimento necessitam de mergulhar todo o corpo na água salientam-se o zarro-comum, a negrinha, o pato-negro e o êider-edredão. Excepto as duas últimas espécies que têm como habitat preferencial as águas oceânicas, as restantes fixam-se em lagoas, albufeiras, charcos e zonas estuarinas abrigadas.


O zarro-comum (Aythya ferina) é uma espécie que, nos dias de hoje, tem cada vez menos aves residentes no sul do país, razão pela qual, ser durante este período migratório que os efectivos nacionais aumentam.

A ave distingue-se pela cabeça cónica castanha, olhos vermelhos, corpo cinza, peito e parte posterior do corpo negros. O bico é escuro com uma barra cinzenta na sua parte anterior. 




O zarro-negrinha (Aythya fuligula), ao contrário da espécie anterior, apresenta uma cabeça proporcionalmente grande e arredondada, com um penacho a cair da coroa (comprido unicamente na plumagem de Verão) e um bico cinzento-azulado com a extremidade negra. A sua plumagem é negra, com os flancos brancos (cinza na plumagem de eclipse, como na foto), notando-se distintamente em voo as barras alares brancas. 

Apesar de ser cada vez menos abundante é uma espécie gregária neste período do ano.





O pato-negro (Melanitta nigra) forma bandos muito numerosos e densos, tanto em águas costeiras como em alto-mar. 

Por esta razão, uma observação próxima destas aves torna-se difícil, salvo quando dão à costa mortos ou feridos. Na melhor das hipóteses, podemos observá-los flutuando sobre a ondulação, antes desta se desfazer sobre as praias. A esta distância e se as condições de luminosidade ajudarem pode-se observar uma plumagem totalmente negra, contrastando com o bico amarelo. 




O êider-edredão (Somateria mollissima) é um pato marinho de compleição robusta, que chega até nós de forma acidental, desde as latitudes frias do norte da Europa. 




Sobre a caracterização desta ave recorde-se aquilo que já foi referido em alguns apontamentos, nomeadamente a propósito da sua estadia recente e prolongada em águas portuguesas.



A terminar esta abordagem deve salientar-se que os movimentos migratórios são muito importantes na sobrevivência de algumas espécies de seres vivos, não sendo exclusivos das aves. 

O que acontece é que ao nível do sul da Europa são elas, as aves, que os tornam mais conhecidos e espectaculares, dada a exuberância dos números, exposição visual e variedade de espécies implicadas em tal fenómeno natural.



sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Cotovias: princesas da estepe cerealífera

 






Há pássaros que vivem, quase sempre, no solo. As árvores não representam para eles um habitat imprescindível. Entre eles contam-se os Alaudidae, uma família de pequenas aves, acastanhadas, maioritariamente dispersas pelo sul da Europa e norte de África, que nidificam no solo e que têm o hábito de cantarem, frequentemente, durante o seu ondulado voo.

As cotovias pertencem a este clã. E entre elas destacam-se duas, especificamente distintas, mas visualmente muito semelhantes. A cotovia-de-poupa e a cotovia-montesina. 

O prolongamento de um clima de seca e de elevadas temperaturas durante as duas primeiras semanas de Outubro permitiu continuar a observar um comportamento muito activo por parte destas duas espécies de aves.


A cotovia-de-poupa (Galerida cristata), de cor acastanhada com riscas difusas no peito e dorso apresenta uma poupa pontiaguda e um bico claro, proporcionalmente comprido e com a mandíbula inferior direita.  




Além de ser presença constante nas terras áridas do sul da península e norte de África tem uma distribuição ampla para norte, incluindo alguns pontos do litoral, onde é vista a procurar alimento, por entre corridas apressadas, ao longo de estradas, docas, linhas de caminho-de-ferro e outros espaços pedregosos abandonados. 




O seu canto alto, contínuo e feito de assobios variados, é emitido geralmente em voo, pese embora, durante a época de reprodução nunca enjeite o cimo de um penedo para destacar a sua presença.





A cotovia-montesina (Galerida theklae) é uma ave com hábitos estepários mais vincados do que a espécie anterior. Difícil de se distinguir no campo da cotovia-de-poupa apresenta um bico proporcionalmente mais curto, mais escuro e com a mandíbula inferior ligeiramente arqueada.




O riscado do dorso e peito, mais finos do que na cotovia-de-poupa, apresentam-se também melhor definidos. O canto é semelhante ao desta espécie, embora entoado de uma forma mais melodiosa.






Ambas as espécies alimentam-se de insectos e sementes, que buscam por entre o restolho e as pedras. 

Ora, com estas temperaturas altas, os insectos marcaram também presença em números elevados e os grãos secos caídos no solo também ajudaram a uma boa disponibilidade alimentar. É assim que vai indo o Outono, decorridas três semanas.




sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Insectos

 





Com cerca de um milhão de espécies conhecidas, os insectos ultrapassam a soma de todas as outras espécies animais. Com excepção das zonas polares e fundos oceânicos os insectos ocupam todos os habitats planetários. Só na Europa são mais de 10000 o número de espécies conhecidas.

Os insectos apresentam uma grande variedade de formas e tamanhos vivendo cada espécie em populações que normalmente variam entre as dezenas de milhar e alguns milhões de indivíduos.

Vamos apreciá-los.



sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Os viverrídeos

 






As elevadas temperaturas verificadas em Portugal têm favorecido a actividade de espécies que, embora habitando em território nacional, têm as características ascentrais de espécies africanas. 

No matagal mediterrânico vivem dois mamíferos carnívoros, distintos no aspecto e nos nichos que exploram, mas ambos predadores muito primitivos, com berço africano. A geneta, de hábitos terrícolas e arborícolas e o saca-rabo, de hábitos terrícolas.

Em "O bosque e o matagal mediterrânicos: 11-os viverrídeos" vamos tomar contacto com as referidas espécies pela pena do saudoso naturalista Félix Rodríguez de la Fuente.


sexta-feira, 29 de setembro de 2023

A migração pós-nupcial: os anatídeos

 





Desde meados de Agosto que ao território nacional começaram a chegar os primeiros migradores provenientes do norte da Europa, alguns dos quais por aqui ficarão durante o Outono e Inverno, enquanto outros seguirão viagem para o continente africano. 

A estes últimos juntar-se-ão as espécies que criaram por cá mas que partirão também no final do Verão para essas latitudes meridionais. 

Trata-se da migração pós-nupcial, também conhecida por migração outonal.


Durante este movimento migratório ocorrem avistamentos de algumas espécies que, por razões diversas, nomeadamente de natureza climatérica, são arrastadas para fora dos seus corredores migratórios (por exemplo, exemplares provenientes da Europa do leste e da América do Norte), passando a integrar outros bandos de aves. Estas espécies, ditas acidentais, são pois de um interesse muito particular.

Por este conjunto de razões a migração pós-nupcial merece uma atenção muito particular, tal como já o foi demonstrado, em alguns apontamentos neste espaço, nomeadamente em "Migradores outonais na Ria de Aveiro", de 2020 e "Migradores outonais na faixa litoral aveirense", de 2021. 

Hoje, o mesmo tema será explorado, não de uma forma transversal como nesses apontamentos, mas antes direccionado para um grupo bem definido de aves.


Entre os migradores outonais que chegam a território português destacam-se as espécies pertencentes à família dos Anatídeos. Todos eles são aquáticos, possuindo patas curtas com membranas interdigitais, pescoço mais ou menos comprido e bico achatado com lamelas filtradoras.


Entre os anatídeos, os de maior envergadura que podem ocorrer em Portugal, embora em reduzidos números, são os cisnes (subfamília Cygnidae). Fugindo aos gelos que lhes reduzem habitat e alimento disponível vão descendo ao longo das costas europeias, frequentando estuários, rias e lagunas. De uma brancura imaculada quando adultos oferecem um espectáculo digno de se observar sempre que têm que levantar voo da água.

Dentro desta subfamília de aves destaca-se o cisne-bravo (Cygnus cygnus), que se distingue pelo seu bico amarelo com ponta negra. Dado ser considerado muito raro, pelos poucos registos existentes, cada avistamento é um importante registo para o melhor conhecimento da sua estadia em Portugal.




Outro grupo de aves aquáticas que participam destas migrações outonais é o dos gansos (subfamília Anserinae). De menores dimensões que os cisnes são, contudo, aves de grande robustez. São avistados normalmente em bandos, voando numa formação em "V" ou em linha quebrada. 

Os gansos podem ser divididos em dois géneros; o dos gansos cinzentos (Anser) e o dos gansos brancos/negros (Branta).


Dentro do primeiro grupo salienta-se a espécie mais frequente, embora com uma ocorrência desigual ao longo do território nacional, que é o ganso-comum (Anser anser). As restantes espécies são de ocorrência acidental.

O ganso-comum apresenta uma plumagem cinzenta-acastanhada, um bico forte, alaranjado e patas de cor rosa-claro. 



Após a sua chegada dispersam-se, em grupos, pelos campos e zonas húmidas, frequentemente misturados com outras aves aquáticas.



Em voo, pode notar-se o contraste entre o cinza claro da parte anterior das coberturas das asas e o escuro da parte posterior. Contraste similar existe na face inferior das asas. 




Na maioria das vezes a espécie é detectada pelos característicos chamamentos que emite quando passa em voo alto.


Entre as espécies do género Branta, que migram para Portugal durante este período do ano, destaca-se o ganso-de-faces-brancas (Branta leucopsis).

Mais pequeno que um ganso-comum, distingue-se facilmente pelo pescoço, peito, coroa, patas e bico pretos, contrastando com o branco das faces e do abdómen. 



É uma espécie de ocorrência irregular, mas com diversos avistamentos em diferentes pontos do litoral português.


Finalmente temos o mais numeroso grupo de anatídeos migradores, que é formado pelos patos. Dado que nestas aves existe um grande dimorfismo sexual e inclusivamente entre as formas adultas e juvenis, apenas se fará referência às características morfológicas dos machos, pelas suas maiores evidências. 

Dentro deste grande grupo podem-se considerar dois sub-grupos; o dos patos-de-superfície (subfamília Anatinae) e o dos patos-mergulhadores (subfamília Aythyinae).


Entre os patos que se alimentam à superfície da água e que chegam a Portugal durante a migração outonal salientam-se a frisada, o arrabio, a piadeira-comum, a marrequinha, o pato-trombeteiro, o pato-branco e o pato-ferrugíneo. Todas estas espécies são frequentemente avistadas em grupos mistos, qualquer que seja o habitat de ocorrência.


A frisada (Anas strepera) apesar de ser uma espécie residente no sul do país é invernante no resto do território. Os indivíduos desta espécie são de grande discrição devido à tonalidade geral acinzentada, de onde sobressai um pequeno "espelho" branco nas asas. Em voo revela o abdómen branco e as supra-alares acastanhadas. A frisada é avistada em águas doces pouco profundas e com bastante vegetação aquática




O arrabio (Anas acuta), é sem sombra de dúvida um pato bastante esbelto, com uma longa e afilada cauda e um pescoço comprido e estreito. A particularidade de apresentar a pequena cabeça e a parte superior do pescoço castanhos enquanto a parte inferior do mesmo e o peito são brancos torna-os de muito fácil identificação. Não sendo uma espécie comum, quando chega a Portugal instala-se em diferentes habitats, tanto em lagoas costeiras e estuários como em albufeiras interiores, nadando com grande discrição por entre a vegetação.




A piadeira (Anas penelope) distingue-se dos restantes patos por todo um conjunto cromático de características facilmente observáveis. Uma cabeça relativamente grande, castanha-ruiva, com a testa e coroa de um amarelo-alaranjado, o peito rosado, o corpo cinzento-claro com zonas brancas e a cauda preta.




Ao contrário das espécies anteriores, a piadeira ocorre em grande número, habitualmente em bandos mistos, em lagoas costeiras, onde se fazem ouvir distintamente graças aos seus agudos assobios.




A marrequinha (Anas crecca), é o menor dos patos europeus. Algumas das suas principais características identificativas no campo passam, não só pelo tamanho, mas também pelos padrões castanho, verde e amarelo da cabeça, bem como, pelo amarelo bordejado a preto nos lados da parte traseira e por uma barra branca na parte superior das asas.




É um pato que ocorre em bandos numerosos em diferentes zonas húmidas, tanto do interior como litorais, conseguindo levantar voo muito rapidamente, frequentemente na vertical.


(continua)



sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Concheiros (VIII)








O Verão chegou ao fim. 

O calor intenso deu lugar a dias mais frios e chuvosos. O mar deixou de estar manso e os finais de tarde perderam o encanto e relaxamento de há umas semanas atrás. O Outono, é já amanhã.


Ao correr da praia observa-se, então, que o mar não atira apenas conchas de moluscos para o areal. Há sectores em que o rebuliço do mar conseguiu levantar uma imensidade de seixos que cobriam o fundo de algumas barras submarinas, atirando os mesmos cá para fora.

Constata-se, assim, que os concheiros que até aqui fizeram as nossas delícias, foram substituídos por tapetes de calhaus rolados e pequenas rochas, também eles muito luzidios quando semi-submersos ou simplesmente humedecidos pelos espraios que a vazante ainda vai permitindo.



Tão encantados estamos com estes pequenos corpos bojudos, de tons claro-escuro, serenamente inanimados em toda a sua existência, que sofremos um choque visual ao olharmos um pouco mais para cima na praia, onde a omnipresente acumulação de lixo se torna notória de tanta assimetria, volumetria e cor. 




Uma espreitadela a este lixo marinho permite, contudo, descobrir novos vestígios de vida oceânica.


Os cefalópodes são moluscos de grandes dimensões e com um grau evolutivo que em nada se compara com os demais invertebrados desta classe. Apresentam uma forma cilíndrica, uma cabeça volumosa, olhos salientes, tentáculos com ventosas e por vezes são possuidores de barbatanas e de uma concha interna. 

Estes seres, ou melhor dizendo, as suas conchas internas costumam ser encontradas, precisamente na linha de maré alta, por entre a acumulação de detritos. 

Entre estas conchas internas destacam-se, pela abundância e peculiaridade, a do choco (Sepia officinalis), espécie que vive sobre os fundos de areia no andar infralitoral, por vezes em povoamentos de algas ou de ervas-marinhas (Zoostera sp.).






O maior filo do reino animal é o dos artrópodes. Este grande grupo, onde se incluem os insectos e as aranhas terrestres, que tão bem conhecemos, é dominado no ambiente marinho pela superclasse dos crustáceos, que se caracteriza pelos seus elementos apresentarem corpo segmentado, carapaça e cabeça com dois pares de antenas.


A sub-classe Cirripedia, caracteriza-se pelo facto dos indivíduos adultos apresentarem um esqueleto composto de placas, formando uma concha. 

Os perceves (Lepas anatifera), apresentam uma concha de 5 placas, brancas com alguma tonalidade acinzentada e um pedúnculo castanho. É um animal pelágico e gregário que vive fixo a rochas, cascos de embarcações e demais corpos submersos, sendo encontrado no areal agarrado a diferentes objectos que flutuaram durante muito tempo pelo oceano.



De regresso aos concheiros, que formam como que um campo "minado" ao longo da linha de maré, encontramos mais e mais testemunhos da vida que prolifera debaixo da água, nomeadamente com outros exemplares desta sub-classe.


As cracas (Chthamalus montagui), apresentam uma concha, de cor branco sujo, cónica, com 6 placas  rodeando uma abertura trapezoidal. Vivem sobre as rochas das zonas média e inferior do andar mediolitoral.




Os bálanos (Balanus perfuratus), possuem uma concha maciça, alta, cónica, com 6 placas, de coloração variável entre o branco e o rosado ...




... e de base porosa.




Esta espécie vive sobre a rocha nos andares mediolitoral inferior e infralitoral, fixando-se frequentemente a conchas de outras espécies que partilham o mesmo habitat.





 
A sub-classe Malacostraca caracteriza-se por os seus constituintes possuírem olhos, antenas e a cabeça e o tórax normalmente cobertos por uma carapaça.

Sem dúvida que a espécie deste grupo encontrada com mais frequência no areal é o caranguejo-mouro (Carcinus maenas). Embora a sua carapaça e patas sejam de cor verde-azeitona escuro, esta coloração vai desaparecendo ao longo do tempo ...




... e quando muito velha, totalmente despigmentada, apresenta-se esbranquiçada.





O caranguejo-mouro é um habitante tanto dos fundos arenosos como rochosos do andar infralitoral e mediolitoral inferior.




O filo dos equinodermes (com esqueleto, sistema hidrovascular e espinhos) está dividido em cinco classes, das quais importa salientar, pela frequência de arrojamentos, a das estrelas-do-mar (Asteroidea) e a dos ouriços-do-mar (Echinoidea).


As estrelas-do-mar possuem corpo achatado, com a maior parte das espécies  a apresentarem cinco braços. 

Entre elas destaca-se pela maior frequência de registos nas nossas praias, a Astropecten aranciacus, uma das maiores estrelas-do-mar europeias, atingindo os 60 cm de diâmetro. Quando viva tem a face dorsal de cor acastanhada e a face ventral clara, cores que se vão esbatendo quando morta. 



É um predador de moluscos que vive na areia, frequentemente enterrado, nos andares infralitoral e circalitoral superior.



Os ouriços-do-mar apresentam uma carapaça cheia de espinhos e fiadas de poros para entrada da água.

Entre os ouriços-do-mar, ditos regulares, por apresentarem entre outros, carapaça esférica, destaca-se o Paracentrotus lividus. 





Com um diâmetro de carapaça de 6 cm, cor variável entre o verde, o violeta e o castanho, apresenta espinhos de até 3 cm de comprimento



É um habitante do litoral rochoso, predominantemente nos andares mediolitoral inferior e infralitoral, até -30 metros; contudo, a sua presença também foi detectada no andar circalitoral.



Entre os ouriços-do-mar, ditos irregulares, salienta-se o Echinocardium cordatum. Entre as fiadas de pés ambulacrários há uma que se distingue das restantes quatro, pela sua inserção num sulco de maior profundidade desta peculiar carapaça cordiforme.




A coloração acastanhada da carapaça calcária, de 9 cm de comprimento, perde-se com a morte do animal, apresentando-se, então a mesma, de cor esbranquiçada.

A espécie escava nichos nos fundos arenosos, do andar mediolitoral inferior e andar infralitoral e circalitoral, até - 200 metros.




Apesar destes depósitos serem constituídos por pequenas carapaças de invertebrados, moradores dos fundos oceânicos, também reúnem vestígios de alguns vertebrados marinhos, como é o caso das espécies piscívoras cartilaginosas (classe Chondrichthyes)


Muito vulgares no areal são as cápsulas dos ovos do pata-roxa (Scyliorhinus canicula), um pequeno tubarão, que vive sobre fundos de areia dos andares infralitoral, circalitoral e batial, chegando a passar os -100 metros.

Estas cápsulas córneas, com 6 cm de comprimento e forma aproximadamente rectangular apresentam nos seus vértices filamentos retorcidos que permitem a sua fixação a algas ou a outros organismos subaquáticos.






Ao contrário da forma alongada que apresentam as cápsulas dos tubarões, as raias (Raja sp.) apresentam cápsulas negras, de contornos mais quadrados e com hastes mais ou menos compridas.

A cápsula da raia-lenga (Raja clavata), uma espécie que vive sobre fundos arenosos dos andares infralitoral e circalitoral, atinge os 15 cm de comprimento por 4 cm de largura. 








Chegados ao fim desta aventura, deve referir-se que esta série de apontamentos foi pensada, ilustrada e escrita, com a intenção de demonstrar a riqueza biológica que os populares concheiros das nossas praias encerram. 

Ademais, as espécies aqui identificadas não esgotam as possibilidades de serem encontradas várias outras. Basta tão somente, que se ponham os pés ao caminho (obrigatoriamente durante a maré vaza e de preferência com mar pouco agitado, por questões de segurança!) e atentamente se procurem na praia novas conchas e novas evidências, aumentando, assim, o leque de registos. 


Boa prospecção!