domingo, 28 de dezembro de 2008

Seja bem-vindo o Decreto-Lei n.º 142/2008! (II parte)


Tal como referido na primeira parte deste artigo, um dos dois documentos entregues na Câmara Municipal de Ovar no passado dia dezanove de Novembro, consistia numa versão provisória da constituição da Reserva Natural da Barrinha de Esmoriz, proposta pelo Núcleo Português de Estudo e Protecção da Vida Selvagem (NPEPVS) e subscrita pela associação ambientalista de Esmoriz Palheiro Amarelo.
A Barrinha de Esmoriz (ou Lagoa de Paramos, para os espinhenses) constitui uma lagoa costeira cuja superfície, com 396 ha, está dividida entre os concelhos de Ovar e Espinho. Este acidente geográfico, incluído na Reserva Ecológica Nacional, integra a Lista de Sítios da Rede Natura 2000 e é considerado uma Área Importante para as Aves (IBA). Tais estatutos advêm do facto de na Barrinha existir uma grande diversidade de espécies florísticas (80 espécies identificadas) e uma não menos importante ocorrência de aves selvagens (mais de 270 espécies), algumas com estatutos de grande vulnerabilidade e por conseguinte de conservação prioritária, nos termos da Directiva comunitária 79/409/CEE (conhecida como Directiva das Aves).
Rodeada a norte pelo aeródromo de Paramos, a nascente e a sul por uma ténue cortina arbórea e arbustiva que a separam das habitações muito próximas e a poente pelo cordão dunar muito degradado, a Barrinha é envolvida por uma significativa mancha de caniçal, imprescindível como local de abrigo e de reprodução para as aves selvagens.
Dada a sua localização, esta Zona Húmida do norte de Portugal, representa uma etapa fundamental na migração dos passeriformes e das aves aquáticas. Entre as espécies de aves aqui observadas e dignas de registo especial destacam-se a águia-sapeira (Circus aeruginosus), com um status de grande vulnerabilidade e o flamingo-rosado (Phoenicopterus roseus), espécie observada uma única vez no local. Contudo, são os anatídeos e os ardeídeos que predominam neste espaço litoral, com a zona dunar a ser aproveitada para a nidificação do Borrelho-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus). Entre as espécies da flora da Barrinha destaca-se o endemismo Jasione lusitanica.
Têm sido diversos os factores que têm ameaçado esta lagoa costeira. A implantação de urbanizações e de um campo de golfe muito próximos da lagoa, a perturbação produzida pela passagem de aeronaves sobre a Barrinha (com o recente aumento da extensão da pista), o excessivo pisoteio das dunas e a poluição das suas águas, provocada pelos efluentes industriais e domésticos que chegam pela Ribeira de Rio Maior e pela Vala de Maceda que nela desaguam (esta poluição chega também de fontes distantes, como as que estão localizadas no concelho de Santa Maria da Feira) têm sido as principais ameaças à conservação deste espaço natural.
A Barrinha de Esmoriz constitui, assim, um pequeno mas importante ecossistema natural, cujo potencial só poderá ser maximizado se for respeitada a sua dinâmica natural, evitando-se intervenções desajustadas no meio ambiente, sobretudo durante a época de nidificação. Este ecossistema é considerado, também, de conservação prioritária pela Directiva Comunitária 92/43/CEE (conhecida como Directiva Habitats, a qual foi transposta para o Direito português pelo D.L. nº 140/99, de 24 de Abril).
Para salvaguardar a fauna, a flora e a paisagem desta Zona Húmida o Núcleo Português de Estudo e Protecção da Vida Selvagem, na década de 70 e a Quercus, na década de 90, avançaram com ante-projectos de criação de uma Reserva Natural, os quais nunca tiveram concretização legal. Acontece que, em 24 de Julho do corrente ano foi publicado o Decreto-lei nº 142/2008, que estabelece o regime jurídico da conservação da natureza e da biodiversidade, abrindo a possibilidade dos Executivos Municipais proporem a criação das suas áreas protegidas.
Pois é isso que agora o Núcleo Português de Estudo e Protecção da Vida Selvagem (NPEPVS) em conjunto com a associação esmorizense Palheiro Amarelo pretendem, ou seja, dotar esta Zona Húmida com um estatuto de protecção da natureza, no quadro do referido regime jurídico da conservação da natureza e da biodiversidade (Decreto-lei n.º 142/2008, de 24 de Julho) e integrá-la na Rede Nacional de Áreas Protegidas.


(Artigo publicado no Jornal de Ovar de 24/12/08)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Mais pedra para quê?


Para erodir ainda mais a linha de costa a sotamar dos esporões e dos enrocamentos? (repare-se na imagem do sul do Furadouro)
Ou será para alimentar os lobbies envolvidos nesta negociata das pedras?

Aquilo de que a costa portuguesa precisa, na realidade, é ... AREIA. Ou então, em alternativa (essa sim económicamente mais vantajosa), que não a ocupem!
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Artigo no Jornal Público de 16/12/08:
Especialista em zonas costeiras contesta utilidade da "colocação de mais pedregulhos" no litoral de Ovar
Sara Dias Oliveira

A As obras de defesa da costa de Ovar já arrancaram com o objectivo de reparar seis esporões a norte e a sul das praias de Esmoriz, Cortegaça e Furadouro. As reparações das defesas entre o esporão norte de Esmoriz e o esporão norte de Cortegaça, numa extensão de dois quilómetros, e a sul do esporão sul do Furadouro, ao longo de 100 metros, estão também nos planos da empreitada que está a cargo do Instituto Nacional da Água. As máquinas estarão no terreno durante 15 meses e o investimento ronda os cinco milhões de euros, mas a obra não é pacífica. Álvaro Reis, mestre em zonas costeiras e residente em Ovar, defende que o combate à erosão passa por injectar areia nas praias e não por colocar mais pedra na costa vareira. "Estou bastante preocupado com as obras. É mais do mesmo, reparar e manter as obras em pedra, o que é errado", afirma. "Na minha opinião, a alimentação das praias com areia, que se poderia ir buscar a vários locais das zonas portuárias, seria a solução", acrescenta. Retirar alguma areia ao mar, bem junto à praia, é também um dos caminhos que aconselha. "A obra que vai ser feita, ao longo desse troço da costa de Ovar, é em tudo semelhante ao que já foi executado, é voltar a colocar pedregulhos sob a forma de esporões", constata o ambientalista ligado à Quercus. Álvaro Reis, autor de vários livros sobre o avanço do mar e a protecção das zonas litorais, como A Praia dos Tubarões - Ordenamento e Gestão da Orla Costeira, avisa que é necessário seguir um de dois trajectos: "Ou as pessoas têm a coragem de, de uma vez por todas, abandonar o litoral e deixar o mar subir e avançar, ou defende-se esse território e coloca-se o que lá faz falta, ou seja, areia". O presidente da Câmara de Ovar, Manuel Oliveira, está satisfeito com o arranque da empreitada, mas recusa pronunciar-se sobre a opção técnica. "Não gosto de teorizar sobre questões que desconheço. Para nós, o que é importante é que a resposta, seja ela qual for, seja eficaz." "Para já, interessa-nos salvaguardar e acautelar a segurança de pessoas e bens", reforça. O autarca garante que a obra de defesa da costa "é prioritária" e lembra que tem vindo a ser reclamada há bastante tempo pela câmara.

domingo, 30 de novembro de 2008

Seja bem-vindo o Decreto-Lei n.º 142/2008!

No passado dia dezanove foram entregues na Câmara Municipal de Ovar dois documentos fundamentais para a conservação da natureza no concelho. Um, referia-se à revisão de uma proposta, elaborada e apresentada por mim à Câmara de Ovar em Junho de 1994, para a criação de uma Área de Paisagem Protegida na Foz do Cáster e o outro, elaborado recentemente e que diz respeito à criação da Reserva Natural da Barrinha de Esmoriz.
Hoje dedicaremos uma atenção especial ao primeiro.
As zonas marginais do topo norte da Ria de Aveiro, no concelho de Ovar, constituem uma parcela do ecossistema, mais vasto, que é constituído pela Ria de Aveiro, funcionando aquelas como uma interface entre os ecossistemas terrestre e aquático.
Estas zonas, porque sujeitas ao regime das marés, apresentam extensas áreas de sapal, bem como, manchas significativas de juncal e caniçal. Estes biótopos apresentam excelentes condições para o abrigo e nidificação de muitas espécies de aves, algumas de conservação prioritária, nos termos da Directiva Comunitária 79/409/CEE (conhecida vulgarmente pela denominação de Directiva das Aves).
Também as águas da Ria, em Ovar, por se encontrarem bastante afastadas da entrada da laguna apresentam fracas correntes de maré, pelo que funcionam como maternidades para diferentes espécies piscícolas e bivalves.
Particularmente no Inverno, pode-se observar nas vasas desta região centenas de limícolas e ardeídeos. Durante as migrações, a vegetação palustre serve de abrigo a diversas espécies de passeriformes. E na época de nidificação, as matas envolventes são aproveitadas por diversas espécies de aves de rapina para aí procriarem.
Aves pouco frequentes e/ou de grande susceptibilidade, como o flamingo-rosado (Phoenicopteus roseus), o corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo), o falcão-peregrino (Falco peregrinus) e o colhereiro (Platalea leucorodia), ocorrentes nesta região denotam a importância da mesma no contexto do ecossistema lagunar.
Também do ponto de vista da flora se podem encontrar variadíssimas plantas autóctones ripícolas, como, o lírio-amarelo-dos-pântanos (Íris pseudacorus), o trevo-rasteiro (Trifolium repens) e a dedaleira (Digitalis purpúrea subsp. purpúrea). Nos esteiros e nas valas encontram-se também plantas autóctones, como, a pinheirinha-de-água (Myriophyllum aquaticum) e na zona de sapal, autóctones como o malmequer-da-praia (Aster tripolium subsp. pannonicus), a erva-do-brejo (Triglochin marítima) e a gramata-branca (Halimione portucaloides).
O canal de Ovar, o Largo da Coroa e o Regueirão da Carvalhosa constituem três bolsas de água que, pela sua dimensão e sobretudo aquando de marés-vivas e de temporais funcionam como importantes elementos naturais de defesa das margens lagunares, incluindo aquelas onde assentam núcleos habitacionais, como a Marinha, a Ribeira e a Tijosa. Requerem, por conseguinte, dragagens regulares de forma a manterem uma satisfatória capacidade de recepção das águas afluentes à laguna.
A actividade agrícola, a pesca artesanal e a caça são praticadas nesta região, havendo a necessidade urgente de serem disciplinadas, de modo a aumentar-se o potencial biológico da área e a evitar a degradação de habitats, também eles protegidos pela Directiva Comunitária 92/43/CEE (mais conhecida por Directiva Habitats), transposta para a legislação portuguesa pelo Decreto-Lei n.º 140/99, de 24 de Abril.
Esta região que se pretende transformar em Paisagem Protegida, assenta em território de Reserva Ecológica Nacional e pelo PDM de Ovar consta como Espaço Natural Protegido, incluindo no seu seio uma “Área de Reserva”.
O referido estatuto de ‘Área de Paisagem Protegida’ pressupunha em 1994, uma colaboração conjunta entre a Câmara Municipal de Ovar e o Ministério do Ambiente na gestão da mesma. Apesar dos pareceres favoráveis emitidos pelos técnicos do Ministério do Ambiente que visitaram e avaliaram a zona para os efeitos pretendidos, a verdade é que nunca mais esta proposta foi concretizada, possivelmente pela dificuldade em ser realizada a co-gestão daquela figura jurídica.
Acontece, que em 24 de Julho do corrente ano foi publicado o Decreto-lei n.º 142/2008, que estabelece o regime jurídico da conservação da natureza e da biodiversidade, permitindo aos municípios criarem por sua iniciativa e gerirem em regime de exclusividade áreas protegidas locais.
Pois é isto mesmo que agora se pretende, dotar esta região lagunar do nosso concelho com um estatuto de protecção da natureza (o estatuto de Paisagem Protegida Local) no quadro do referido regime jurídico e integrá-la, assim, na Rede Nacional de Áreas Protegidas.
É caso para dizer: bem-vindo, pois, o DL 142/2008!


(Artigo publicado no Jornal de Ovar de 28/11/08)

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Rio Cáster em debate.

No dia 21 de Novembro o rio Cáster esteve em foco em mais uma "Ciclone Conferência" organizada pela associação ambientalista vareira Amigos do Cáster.

Como oradores estiveram presentes o vereador de Ambiente da Câmara Municipal de Ovar, prof. José Américo, o vereador da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, Dr. Emídio Sousa e o Administrador da SIMRIA, Dr. Jorge Torres.

No decorrer da sessão a sala quase encheu, tendo havido lugar no fim das comunicações a interessantes trocas de pontos de vista.

Entre muitas outras questões foi abordado o facto da Fapovar continuar a lançar no rio Cáster efluentes não tratados devido à sub-capacidade demonstrada pela sua recente ETAR.

Foi também sugerido ao vereador da Câmara Municipal de Ovar que colha junto dos municípios de Santa Maria da Feira, Estarreja e S. João da Madeira algumas dicas sobre como pôr em marcha o arranque das obras de construção do parque urbano da cidade de Ovar e mais concretamente da reabilitação das margens do rio no centro da cidade, dada a experiência destes municípios vizinhos nesta matéria.



Por último, foi abordada a questão de rapidamente se ter que definir uma Paisagem Protegida na Foz do Cáster de acordo com a proposta entregue por Álvaro Reis na Câmara de Ovar a 19 de Novembro último.

domingo, 23 de novembro de 2008

Paisagem Protegida da Foz do Cáster e Reserva Natural da Barrinha de Esmoriz

No passado dia 19 de Novembro foram entregues na Câmara Municipal de Ovar duas versões provisórias elaboradas pelo autor para constituição de áreas protegidas no concelho, a serem geridas pela autarquia no âmbito do Decreto-Lei n.º 142/2008.




Um dos documentos referia-se a um velho projecto de classificar na foz do Cáster uma Paisagem Protegida, que permitiria a salvarguarda, entre outros valores, das espécies selvagens aí ocorrentes.





O outro documento consiste numa proposta de classificação de Reserva Natural da Barrinha de Esmoriz, com o objectivo de recuperação, valorização e conservação daquela lagoa costeira, única no contexto da região norte do país.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

EROSÃO COSTEIRA debatida em Ovar

Tal como havia sido noticiado anteriormente decorreu no passado dia 31 de Outubro, pelas 21h45 no Auditório da Junta de Freguesia de Ovar, a conferência sobre “Erosão Costeira”, promovida pela associação ambientalista Amigos do Cáster.

Com a presença dos oradores, Álvaro Reis e Carlos Coelho (Univ. Aveiro) e com a presença na plateia de alguns representantes da Câmara Municipal de Ovar e da Junta de Freguesia de Maceda, a conferência decorreu viva e animada prolongando-se até cerca da uma da manhã de sábado, sob a moderação de Carlos Ramos, dos Amigos do Cáster .

Digno de registo é o facto de pela primeira vez se assistir a um posicionamento público, por parte de um representante de uma instituição não ambientalista, como o é a Universidade de Aveiro, corroborando integralmente o essencial da mensagem e das soluções que Álvaro Reis vem defendendo ao longo dos anos, primeiro numa Tese de Mestrado em Ciências das Zonas Costeiras e mais tarde e de forma mais abrangente no seu último livro "A praia dos Tubarões".



A imprensa esteve lá e registou.





Erosão costeira debatida no III Encontro Convergir

Na tarde do passado dia 25 de Outubro decorreu no Auditório do Museu Municipal de Viana do Castelo o III Encontro Convergir - Plataforma Interassociativa, subordinado ao tema " O Futuro dos Nossos Rios".

Quer a organização anfitriã, quer as múltiplas associações regionais, quer ainda as grandes associações nacionais (LPN, QUERCUS e FAPAS) envolvidas nesta plataforma estiveram de parabéns pelo êxito do evento.

Com a parte da manhã preenchida pela apresentação de diversos projectos ambientais desenvolvidos pelas diferentes associações da plataforma, foi na parte da tarde e no âmbito do segundo painel, "Litoral Oceânico, Praias e Ordenamento" que Álvaro Reis, Fátima Alves (Univ. de Aveiro) e Horácio Faria (Div. Ambiente da Câmara Municipal de Viana do Castelo) debateram os problemas de erosão e ordenamento da zona costeira, bem como, responderam às variadas questões colocadas pela vasta assistência presente.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A propósito do Dia Mundial do Habitat

Na década de noventa tive a oportunidade de delinear projectos que visavam recuperar, manter e gerir alguns espaços naturais ovarenses, relativamente aos quais considerava serem os mesmos da maior importância para a biodiversidade do concelho. Um desses espaços, sobre o qual escrevi diversos artigos e um livro, divulguei em diversas palestras, bem como, promovi a intervenção de instituições universitárias, correspondia à pretensa “Área de Paisagem Protegida da Foz do Cáster”.
A referida região, localizada no limite sul do concelho, ao integrar os terrenos da beira-ria e as águas da laguna englobava (e engloba) um conjunto de biótopos e de comunidades de grande interesse, nomeadamente, pelo facto dos primeiros representarem sistemas de alta produtividade orgânica e entre as segundas existirem espécies vulneráveis, nomeadamente pela perda de habitats e por conseguinte a necessitarem de protecção.
À data - já lá vão catorze anos - e pese embora todo o meu esforço devotado à causa, bem como, o entusiasmo demonstrado pelos técnicos do Ministério do Ambiente que se deslocaram em visita ao local, a verdade é que esta vontade de preservar a foz do Cáster apenas teve prossecução através do apoio dado por algumas associações nacionais de defesa do ambiente, de escolas e de alguns partidos políticos locais. Ao longo dos longos meses que se seguiram e da parte da Divisão de Ambiente da Câmara Municipal de Ovar apenas iam saindo palavras silenciosas… o silêncio próprio de quem não era capaz de se bater pelas grandes causas ambientais do concelho.
Ao longo destes anos, em Ovar, foi corrente ouvir-se, vindo dos Paços do Concelho, um discurso bipolar: por um lado, a retórica assumida publicamente e de forma frequente de que o ambiente era e seria sempre uma prioridade, e por outro lado, a argumentação de que não se concretizavam os projectos ambientais no concelho porque o poder central (Instituto de Conservação da Natureza e/ou Comissões de Coordenação) não facilitava, não apoiava ou não o permitia.
Foi sempre difícil interpretar tal polaridade discursiva, pelo que frequentemente se colocou a dúvida se, ser técnico ou político de ambiente numa autarquia em Portugal seria um cargo condenado à frustração da impotência ou se não seria antes um cargo tão cheio de argumentos que se auto-sustentava na busca do seu próprio « aconchego ».
Seja lá como for, desde Julho deste ano que se acabaram os pretextos para as habituais desculpas de nada se poder fazer em termos conservacionistas devido aos obstáculos levantados pelo governo central. A vinte e quatro do referido mês foi publicado em Diário da República o Decreto-Lei n.º 142/2008 que estabelece o novo regime jurídico da conservação da natureza e da biodiversidade. Segundo o artigo 11.º deste diploma as áreas protegidas podem ser de âmbito local, deliberação que só por si não constitui nenhuma novidade pois já era contemplada em legislação anterior; contudo, a grande novidade está no artigo 13.º do recente diploma, segundo o qual a gestão destas áreas cabe agora e em exclusivo às autarquias.
Deste modo, com o «papão» do governo central afastado dos processos de classificação de áreas protegidas de âmbito local resta à Câmara Municipal de Ovar assumir por inteiro o protagonismo de proteger e valorizar o seu território e os recursos nele existentes.
Aproveitando a evocação, no passado dia 6 de Outubro, do Dia Mundial do Habitat e relativamente à área abordada neste artigo, cabe dizer que a necessidade de acção não passa, de modo algum, por aquilo que é um «déjà-vue», habitual por estas bandas, sempre que está em causa espaços naturais: proceder ou apoiar a quem proceda à identificação e delimitação de trilhos. Os trilhos já lá estão e bem identificados (como o fiz na pág. 110 do meu livro). Também não é necessário gastar mais tempo com estudos sobre inventariação de espécies, pois as espécies então inventariadas (algumas de protecção urgente) são mais que suficientes para justificarem a classificação da área.
O que é realmente necessário é o órgão institucional competente mostrar aquilo que ainda não foi capaz de mostrar: o passar das palavras aos actos, ou dito de outro modo, trocar a oratória dos discursos pelo pragmatismo das intervenções. Deste modo ganhará Ovar e ganhará a Natureza.


(Artigo publicado no Jornal de Ovar de 31/10/08)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

EROSÃO COSTEIRA em debate

Ciclone de Conferências Amigos do Cáster

31 de Outubro
21h45
Auditório da Junta de Freguesia de Ovar
Álvaro Reis e Carlos Coelho
Aparece !

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Área de Paisagem Protegida da Foz do Cáster - para quando?

Em 1994 foi entregue na Câmara Municipal de Ovar uma proposta de classificação da Área de Paisagem Protegida da Foz do Cáster, uma área correspondente às águas e aos terrenos marginais da Ria de Aveiro, partes integrantes do concelho de Ovar.
Tal como no passado, esta Zona Húmida apresenta uma diversidade de espécies e habitats de grande importância que merecem uma postura conservacionista por parte da autarquia vareira.
A importância da referida classificação é tanto mais premente quanto o facto:
- positivo, de nesta região procriarem espécies muito vulneráveis à pressão humana, como a águia-sapeira (Circus aeruginosus) e a garça-vermelha (Ardea purpurea);
- positivo, de na área em causa se poderem compatibilizar as actividades agrícolas com a protecção dos recursos naturais;
- negativo, da autarquia permitir a ocupação do Domínio Público Hídrico com abarracamentos diversos.
- negativo, da autarquia não revelar sensibilidade para a valorização do espaço natural que é a Ria de Ovar.
(se te apetecer liga as colunas)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O 22 de Setembro, a Lei de Lavoisier e o carnaval

Nos últimos tempos a comunicação social fez eco de um requerimento apresentado pelo deputado do partido político Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Ovar solicitando à Câmara de Ovar explicações sobre as consequências no meio ambiente do grande incêndio ocorrido na unidade industrial de reciclagem de pneus ‘Biosafe’ no passado mês de Julho de 2007. Na verdade, tal pedido reveste-se de grande pertinência na medida em que tais explicações deveriam ter sido já dadas há muito e de forma espontânea pela autarquia a toda a população de Ovar (e é por estes factos que quero reforçar mais uma vez a ideia de que é pela gravidade que este tipo de situações representam na qualidade de vida e na saúde pública das populações atingidas que, entendo ser hoje em dia impensável e lamentável a ausência em qualquer equipe autárquica de um Vereador de Ambiente vocacionado para esta função).
Lembremo-nos que o gigantesco incêndio derivou da combustão de 10 mil toneladas de granulado de borracha de pneu (material que é constituído por cerca de 70% de carbono), tendo este processo químico sido acompanhado por um significativo aumento da temperatura do ar, de uma enorme produção de fumos tóxicos libertados para a atmosfera e por um consumo exorbitante de água (usada no combate às chamas e subsequente fase de rescaldo, fases que se prolongaram durante vários dias). Considerando que a combustão total de 1 tonelada de pneus produz, entre outros, óxidos de enxofre e de arsénio e qualquer coisa como 2,56 toneladas de dióxido de carbono, é fácil calcular só para este gás um valor de 25600 toneladas emitidas durante o acidente.
Penso que não será difícil para ninguém compreender, salvo as habituais excepções, que a ocorrência de um acidente de tal envergadura terá sempre impactes negativos sobre a qualidade do ar, do solo, do subsolo e das toalhas freáticas. Quando no século XVIII o grande químico francês Antoine Lavoisier estabeleceu a Lei da Conservação da Matéria mostrou que em qualquer transformação química (como num incêndio, por exemplo) a matéria não desaparece; apesar de poder ser transformada e apresentar novo aspecto (cinzas, resíduos, fumos, etc.) ela está sempre presente. Assim, o carbono e os outros componentes inicialmente presentes no granulado de borracha continuam a permanecer nos produtos finais, agora com novas propriedades não menos tóxicas, espalhados no ar, no solo e no subsolo.
Importante por isso teria sido a autarquia não menosprezar estas consequências, ter diligenciado no sentido de uma rápida despoluição do meio, ter informado desde logo como se iriam minimizar esses impactes e ao longo do tempo ter divulgado os resultados da monitorização realizada. É que não basta responder um ano depois (às questões levantadas pela comunicação social) que se analisou o estado do ambiente no local e que os resultados mostraram que estava tudo bem! Afinal quem é que analisou? E analisou-se o quê? E de que modo? E onde é que estão os resultados disponíveis para os cidadãos consultarem?
Todas estas considerações são importantes, não só por revelarem falta de atenção da autarquia na abordagem deste problema, com implicações na saúde pública dos cidadãos, mas também, a propósito da comemoração no próximo dia 22 de Setembro do Dia Europeu sem Carros.
E porque advogo tal importância? Por duas razões.
Primeiro, porque o problema da redução dos gases com efeito de estufa (entre os quais se destaca o dióxido de carbono), não passa exclusivamente pela poluição automóvel mas também e em larga escala pela poluição industrial! Em segundo lugar, porque uma Câmara Municipal de oratória ambientalista e que procura reduzir num dia por ano o trânsito automóvel no centro urbano da cidade de Ovar tem que efectivamente demonstrar nos outros 364 dias uma preocupação muito mais abrangente procurando eliminar todas as fontes poluidoras que afectam o concelho.
O ‘efeito de estufa’ é um fenómeno que tem sido provocado por um conjunto de poluentes atmosféricos, entre os quais se contam vários compostos produzidos durante a queima de combustíveis derivados do petróleo (como é o caso das borrachas!). Tais compostos acumulando-se na atmosfera criam uma barreira que impede a passagem das radiações reflectidas na superfície terrestre e consequentemente promovem o aumento da temperatura do ar induzindo grandes alterações climáticas. Seguramente que o incêndio de há um ano na ‘Biosafe’ deu um contributo para o agravamento deste fenómeno mundial. Terá sido por falta de condições de segurança na fábrica (já que um depósito de borracha ao ar livre constitui uma verdadeira ‘bomba’)? Por falta de atenção por parte das entidades fiscalizadoras? Por qualquer outra negligência? Por um infeliz acaso? Na verdade e independentemente da verdadeira causa, as muitas toneladas de gases tóxicos (dióxido de carbono, monóxido de carbono, diversos compostos orgânicos voláteis, compostos de arsénio e enxofre, etc.) libertados durante o incêndio, contribuíram não só para o fenómeno referido, mas também, afectaram a qualidade do ar respirado por todos nós, favorecendo a manifestação de doenças respiratórias. Mas não foi tudo. Encontrando-se a ‘Biosafe’ implantada sobre uma zona arenosa torna-se evidente a facilidade e rapidez com que os milhares de litros de água suja com resíduos e cinzas se infiltraram no subsolo atingindo os lençóis freáticos. Ora é precisamente a estes lençóis que a rede pública vai buscar a sua água!
Por tudo isto, que fique bem claro que o incêndio aqui referenciado não foi apenas o maior incêndio ocorrido em Ovar. Ele foi principalmente um enorme atentado ao ambiente desta região. Tão grande quanto a vontade de o fazer passar ao esquecimento. Por tudo isto, se pode concluir também que, gerir as questões ambientais não pode passar pelo enterrar da cabeça na areia e não é seguramente uma tarefa descontraída como brincar ao Carnaval.

(artigo publicado no Jornal de Ovar , de 05/09/08)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Palheiro Amarelo e Parque Biológico de Gaia juntos na valorização ambiental da Barrinha de Esmoriz.

Numa acção inédita no concelho de Ovar a associação ambientalista da praia de Esmoriz Palheiro Amarelo em parceria com o Parque Biológico de Gaia (uma referência mundial na gestão de espaços verdes inseridos em grandes zonas urbanas e desde há décadas perfeito conhecedor deste ecossistema abandonado que é a Barrinha de Esmoriz) levou a cabo no pasado dia 30 de Julho uma acção de libertação de três aves selvagens (dois milhafres-pretos e uma coruja-das-torres), que após terem sido capturadas feridas e recuperadas nas instalações daquele organismo municipal de Vila Nova de Gaia foram libertadas em plena Barrinha.

Com uma assistência diversificada tanto no que respeita à idade como à experiência dos presentes nestas lides, valeu esta acção não só pela valorização dos recursos faunísticos de um ecossistema ameaçado como é a Barrinha de Esmoriz, mas também pela mensagem pedagógica que o Palheiro Amarelo tem sempre como prioridade privilegiada para com os seus eco-alunos.


Finalmente deve ser louvado todo o esforço de um conjunto variado de pessoas (algumas de fora do concelho) em ultrapassarem todos os obstáculos e desinteresse demonstrados pelas Câmaras de Ovar e Espinho ao longo das últimas três décadas na recuperação ambiental da Barrinha, continuando as primeiras a acreditarem na revitalização daquele ecossistema lagunar, reconhecido com o estatuto de 'Área Importante para as Aves'.

Efeitos dos novos molhes no Douro sobre as praias do concelho

Dando cumprimento às suas responsabilidades político-partidárias em matéria ambiental, a secção de Ovar do Bloco de Esquerda através do deputado Vítor Ferreira apresentou no passado dia 11 de Agosto na Assembleia Municipal um requerimento dirigido ao Presidente da Câmara Municipal de Ovar em que questionava as medidas de monitorização adoptadas ou a adoptar pela autarquia no sentido de prevenir o agravamento da erosão nas praias do concelho provocada pela construção dos novos molhes na foz do rio Douro.


No sentido de alertar as populações sobre estas temáticas que poderão a curto prazo dificultar ainda mais a permanência das mesmas na faixa litoral o referido partido emitiu como vem sendo habitual uma nota de imprensa sobre o assunto.






Mata litoral vareira corre risco de incêndio!

Face à falta de cuidados verificados na gestão dos resíduos florestais na mata litoral do concelho de Ovar a secção ovarense do partido Bloco de Esquerda apresentou também no passado dia 11 de Agosto um requerimento em Assembleia Municipal onde era solicitada à autarquia uma nova forma de intervenção sobre as aparas de madeira acumuladas na mata de forma a minimizar os riscos de incêndio. Foi também distribuída uma nota de imprensa onde aquela força partidária apresenta as suas razões.





Nota de Imprensa
Risco ainda se mantêm na Floresta


Dois meses depois do alerta lançado pelo BE / Ovar sobre as montanhas de aparas resultantes da acção de limpeza da Floresta no litoral do concelho de Ovar que se concentraram ao longo da Estrada da Floresta entre o Furadouro e Cortegaça, como potenciais focos de risco de incêndio em época de Verão. Ainda que se reconheça que foi feito um significativo esforço para atenuar o evidente risco que pairou sobre o valioso património ambiental que representa a vasta área florestal. As medidas não foram ainda suficientes para afastar todos os riscos e garantir que o resultado do processo inerente á limpeza da Floresta não se traduza ironicamente em factor de risco para a defesa da paisagem florestal.
Ao contrário do que foi garantido pelo executivo camarário na reunião da Assembleia Municipal de Ovar no dia 27/06/2008, de que a empresa responsável pela operação que esteve em curso através da técnica do destroçador resolveria até ao final do mês de Julho o assunto. Tal, não só não aconteceu, como não foi concluída até ao momento toda esta operação, deixando ainda algumas montanhas de aparas como potenciadoras de risco para a segurança da Floresta. Ao mesmo tempo, ficaram ao longo da Estrada da Floresta vários depósitos de aparas resultantes da operação do destroçador que teve início de norte para sul e está ainda em grande parte por ser feita a sua trasfega. Concentrações de matéria para as centrais de biomassa, que, mesmo que eventualmente em menor risco, não deixará de ser factor facilitador de propagação de incêndio, que só as baixas temperaturas têm ajudado a desresponsabilizar uma operação executada de forma pouco coerente com todas as campanhas de sensibilização para a defesa das florestas, como a que foi lançada pelos Bombeiros “Portugal sem fogos depende de todos”.
Tendo por base as preocupações atrás expostas o BE / Ovar defende, que este tipo de limpeza da floresta, ainda que seja um processo fundamental, deve ser feito em função da capacidade de trasfega do material biomassa, para assim se evitar o reconhecido risco que representa o cenário potenciador de incêndio, contrariando as regras mais elementares de segurança deste património ambiental.
O BE defende ainda que as várias entidades responsáveis por esta operação de limpeza e trasfega, devem retirar as devidas ilações que evitem a repetição do cenário dantesco que esteve presente durante a época mais propicia a fogos florestais, numa área sensível ambientalmente como é a Floresta que exige o compromisso de defesa através de práticas coerentes com as campanhas de sensibilização e cada vez mais pedagógicas sobre a sua importância para a vida.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Gravíssimo atentado ambiental em Ovar provocado por incêndio industrial


No passado dia 11 de Agosto do corrente ano a secção de Ovar do partido Bloco de Esquerda através do seu deputado Vítor Ferreira apresentou em Assembleia Municipal um requerimento dirigido à Câmara Municipal de Ovar no sentido de conhecer os impactes no meio ambiente decorrentes do grande incêndio ocorrido há um ano na unidade de reciclagem de pneus BIOSAFE localizada na zona industrial de Ovar. Nesse requerimento também eram pedidas informações sobre as medidas aplicadas pela autarquia para a minimização dos danos ambientais produzidos então pela queima incontrolada de 10 mil toneladas de granulado de borracha.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Reportagem sobre a Barrinha de Esmoriz

A reportagem televisiva realizada sobre a Barrinha de Esmoriz - uma das zonas naturais propostas para serem protegidas no âmbito da Área Metropolitana do Porto - também já pode ser vista, bastando clicar aqui.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Barrinha de Esmoriz na RTP

Mais uma vez a Barrinha de Esmoriz foi motivo de reportagem televisiva!

Esta lagoa costeira é considerada por todos os que a visitam como uma Zona Húmida de elevado potencial biológico, mas que infelizmente ao longo dos anos foi sendo irracionalmente desprezada pelas administrações local e regional.

Apesar dos esforços que há mais de trinta anos foram iniciados pelo Núcleo Português de Estudo e Protecção da Vida Selvagem (NPEPVS) para a transformação da lagoa em Reserva Natural, a verdade é que tal projecto nunca chegou a ser concretizado dado as duas autarquias (de Ovar e de Espinho) a que pertence a Barrinha terem andado de costas viradas e nunca terem conseguido assumir uma gestão eficiente da mesma.

Na actualidade, a Barrinha de Esmoriz é considerada uma das zonas a incluir numa lista de sítios a proteger dentro da Área Metropolitana do Porto e simultâneamente acarinhada e valorizada por ambientalistas de todo o país e de modo especial por aqueles que pertencem à associação ambientalista local "Palheiro Amarelo".

Não te esqueças! No próximo dia 9 de Julho (Quarta-feira) pelas 19h05 liga-te à RTP2 ou em alternativa dia 10 de Julho (Quinta-feira) na RTPN pelas 13h00*. O programa BIOSFERA irá para o ar com a Barrinha em lugar de destaque.


* O programa também é transmitido na RTP Internacional no dia 11 de Julho à 1h30m e na RTP África no dia 13 de Julho às 4h15m





domingo, 15 de junho de 2008

Avivando a memória para que...NUNCA MAIS! (2)

NUNCA MAIS ! Foi um grito de revolta, um desejo ardente de mudança, uma certeza de propósitos, um estado de alma doloroso, uma forma de expurgar o inconformismo perante tanta insensatez.Foi lançado na Galiza aquando do naufrágio do superpetroleiro Prestige mas chegou rápido a Portugal.No nosso cantinho, em que as muitas palavras de promessas são levadas rapidamente pelo vento e a qualidade ambiental do concelho tem cada vez menos Prestige, convém NUNCA MAIS esquecer as lições do passado recente.




(artigo publicado no Jornal de Ovar, a 07/04/05)
Gestão Controlada da Barrinha de Esmoriz –projecto falhado ou adiado?

Há três meses atrás e neste mesmo espaço escrevi algumas linhas sobre a Barrinha de Esmoriz porque a mesma me parecia desprotegida face ao que por lá se fez, ao que não se fez e ao desconhecimento do que se perspectiva fazer. Decorrido este período de tempo, sem tormentas e sem chuvas de significado, a Barrinha parece continuar serenamente abandonada.
Na verdade e caso o Inverno tivesse sido diferente como muitos outros, com temporais e frequentes ataques do mar sobre a costa, a Barrinha provavelmente teria continuado abandonada mas nunca de uma forma tão serena. As águas oceânicas teriam galgado com facilidade a estreita praia, penetrado pelo canal que liga a lagoa ao mar e destruído tudo aquilo que lá foi instalado.
Também na verdade e caso o estado do tempo durante este último Inverno tivesse sido diferente, com fortes chuvas como é típico nesta época do ano, à Barrinha teriam chegado sem qualquer controlo as torrentes dos cursos de água que nela desaguam, provocando um aumento dos níveis da lagoa e obrigando ao escoamento directo, também ele sem qualquer controlo, para o mar.
Mas tais cenários não aconteceram e a Barrinha tem gozado deste estado de graça. O cheiro nauseabundo que emana das águas da Barrinha revela claramente a grande quantidade de detritos ali acumulados e que esperam, assim, a primeira oportunidade de virem parar ao mar sem qualquer tipo de tratamento aumentando a carga bacteriológica das águas e areais ovarenses.
Olhando hoje a obra feita no local não se consegue perceber como a mesma poderá dar resposta aos objectivos outrora anunciados. Dado não ter havido alguém com sentido de dever que informasse e esclarecesse dúvidas entretanto surgidas, resta assim, com a vontade de quem quer ser esclarecido tentar descortinar, qual puzzle a montar, o que significam cada uma das “peças” do jogo.
O dique fusível fundiu jazendo na areia o que dele resta. Então, poder-se-á desde logo perguntar, como se podem controlar neste momento as águas da Barrinha? É que, de facto, parece ter havido a preocupação de definir um nível de água dentro da laguna, provavelmente um “nível crítico” para as operações de controlo. Mas não havendo dique será difícil para não dizer impossível garantir esse nível crítico. As próprias tampas das condutas de descarga, umas abertas outras fechadas, parecem à primeira vista não servirem para coisa alguma.
Enfim, não se entendem que mudanças positivas por lá ocorreram desde que foram investidos 150 000 dos 340 000 euros destinados a esta obra de “Gestão (des)Controlada”. Apenas se constata que a Barrinha está transformada naquilo que sempre foi, desde que as autarquias de Ovar, Espinho e Feira decidiram esquecer o valor patrimonial da zona: um charco receptor de águas poluídas.
Um outro aspecto já denunciado em anterior escrito prende-se com o empobrecimento da Barrinha sob o ponto de vista dos seus recursos naturais, nomeadamente como ecossistema importante para as aves. Num curto trajecto efectuado ao longo de uma das suas margens apenas se registaram alguns patos-reais a descansar ao abrigo da vegetação, dois milhafres-negros voando sobre a zona e alguns rouxinóis-dos-caniços e pequenas limícolas que não se vendo deixavam-se, contudo, ouvir. Pese embora ter-se tratado de uma fugaz visita, muito pouco foi registado para aquilo que este espaço poderia oferecer.
Assim sendo termina-se esta abordagem ao status da Barrinha de Esmoriz salientando a dupla consternação, de que além da inexistência de uma gestão controlada das águas da Barrinha também não se vislumbram medidas para a recuperação do património natural da mesma. É por todas estas razões que se coloca com pertinência a questão: será que o projecto em causa, a quem alguém chamou de “primeira geração”, terá sucumbido ou estará apenas adiado? Muito sinceramente e a bem da Barrinha gostava que ambas as questões tivessem resposta negativa e que a resolução dos problemas da Barrinha não transitassem para as próximas gerações.

domingo, 1 de junho de 2008

Avivando a memória para que...NUNCA MAIS! (1)

NUNCA MAIS !
Foi um grito de revolta, um desejo ardente de mudança, uma certeza de propósitos, um estado de alma doloroso, uma forma de expurgar o inconformismo perante tanta insensatez.
Foi lançado na Galiza aquando do naufrágio do superpetroleiro Prestige mas chegou rápido a Portugal.
No nosso cantinho, em que as muitas palavras de promessas são levadas rapidamente pelo vento e a qualidade ambiental do concelho tem cada vez menos Prestige, convém NUNCA MAIS esquecer as lições do passado recente.



(artigo publicado no Jornal de Ovar, em 06/01/05)
Barrinha de Esmoriz: Brincando aos castelinhos de areia

As notícias que vieram a lume com regularidade durante o Verão do ano findo sobre a poluição manifestada na Barrinha de Esmoriz e praias a sul da mesma colocavam desde logo uma pertinente questão: quem seria o responsável ou responsáveis por esta falta de civismo para com toda uma região e utentes balneares da mesma? Quem seria o criminoso ou criminosos a quem não incomodava de todo o tão apregoado princípio do ‘poluidor-pagador’? Estou convencido, contudo, que todos nós mais do que conhecer a identidade de tais prevaricadores gostaríamos era que os mesmos fossem sancionados de forma convincente para que se pusesse um fim a todo este estado de terrorismo ambiental que graça na nossa região. É claro que tal não parece ter acontecido a olhar pelas acusações e desculpas que foram sendo emitidas e que não permitiram ajuizar de forma séria e imparcial sobre os verdadeiros responsáveis destas sucessivas tragédias. Uma certeza pelo menos ficou. A de que os responsáveis pela poluição da Barrinha de Esmoriz continuam a monte pois nada nem ninguém os deteve nem tão pouco se encontram impedidos de voltar a prevaricar!
Uma segunda questão, não menos importante, que se colocava passados alguns meses após o início das obras na Barrinha de Esmoriz prendia-se com as expectativas gerais da população do concelho sobre o que iria acontecer de tão importante nesta lagoa capaz de devolver à mesma uma melhor qualidade ambiental e terminar decisivamente com atentados como os que têm brindado pela negativa o concelho de Ovar vai para uma imensidão de tempo. Na verdade, nunca foi perceptível para a generalidade do público leigo (como eu) em tais matérias descortinar que princípios, métodos e objectivos de engenharia costeira e de planeamento teriam sido traçados para fazer a gestão das águas da barrinha, bem como, para a recuperação da sua fauna e do ecossistema em geral (porque me parece ser disso que se irá também tratar no futuro, ou será que não?). E também é verdade que se manteve sempre a expectativa de que alguém responsável viesse demonstrar perante a curiosidade geral não terem sido estas obras delineadas em cima do joelho entre as pressas dos calendários políticos. Dito de um outro modo, teria sido oportuno que para além daqueles poucos momentos em que soou a verborreia política de circunstância, generalista e por conseguinte sempre vaga, teria sido importante desde o início do processo uma comunicação séria (minimamente técnica) e objectiva à população, nomeadamente através dos media locais para que esta ficasse de uma vez por todas convencida de que o futuro da Barrinha não passaria nunca mais pelas vontades de ‘marginais a monte’ mas antes pela capacidade e engenho de quem poderia gerir um projecto desta envergadura. Tal não aconteceu e a incerteza permaneceu no espírito de toda a gente!
Um terceiro aspecto, decorrente do anterior, teve a ver com o términus das obras (ditas de primeira fase) na Barrinha. Todo aquele reboliço de areias tiradas dali e postas acolá, para formarem o emblemático ‘dique fusível’ não inspiravam qualquer segurança nem perspectivas de futuro a quem por lá passasse conhecendo minimamente as condições de agitação marítima da nossa costa. Era pois esperado que o mar pudesse fazer ruir a qualquer momento tais estruturas, o que infelizmente não demorou a tornar-se uma realidade.
Em face destes acontecimentos e da necessidade urgente de defender a Barrinha e zona litoral adjacente é importante uma reflexão sobre o assunto. Primeiro ponto. Ao contrário dos meninos que brincam na beira do mar gozando sempre que a água chega e leva seus castelinhos de areia permitindo-lhes acorrerem a levantar outros no lugar dos anteriores, sem outros custos que não umas quantas pazadas de areia, a gestão de uma intervenção como a que se pretendia para a Barrinha não deveria ter passado pela construção de ‘castelos de areia’, porque os custos destas brincadeiras são grandes e somos todos nós a pagá-los, de uma maneira ou de outra! Segundo ponto. Todos nós que nos preocupamos com esta “nau” chamada Barrinha de Esmoriz acabamos por demonstrar determinadas posturas para com a mesma. Seria importante, a bem da Barrinha, que cada um com honestidade reflectisse sobre o seu papel para com esta “nau”. Estaremos nós, como meros espectadores na margem a vê-la passar, seremos timoneiros capazes ou simplesmente nela apanhamos uma boleia para irmos à outra banda? É que independentemente dos que permanecem especados na margem (e que por lá poderão continuar) ou dos inveterados das boleias (que hoje andam de barco porque ainda não podem andar de avião), esta “nau” para não meter mais água (poluída) precisa é mesmo de quem a saiba levar a bom porto!

sexta-feira, 23 de maio de 2008

A propósito do Dia Internacional da Terra



O Dia da Terra assinalou-se internacionalmente no passado dia 22 de Abril. Por cá, o ponto alto da celebração deste evento aconteceu no salão Nobre dos Paços do Concelho, passavam das 21h30.
Perante a apresentação de uma moção que visava corrigir os impactos ambientais negativos de um apoio de praia licenciado pela Câmara Municipal de Ovar para Esmoriz, a Assembleia Municipal ao invés de ter aprovado prontamente este documento para ser enviado posteriormente às entidades ministeriais competentes, entendeu ser muito mais profícuo formalizar a proposta apresentada, fazendo-a baixar para análise à Comissão Permanente, ganhando assim um compasso de espera. Afinal, são atentados ambientais como este praticado em Esmoriz, acompanhados de uma falta de celeridade na resolução dos mesmos, fruto quiçá da falta de sensibilidade ambiental dos políticos e técnicos envolvidos, que originam transtornos graves ao ambiente, os quais se reflectem a nível mundial. São atentados como este e como outros, repetidos múltiplas vezes por todo o mundo, que levaram as Nações Unidas a declararem o ano de 2008 como sendo o Ano Internacional do Planeta Terra. Neste âmbito estão a decorrer desde Janeiro de 2007 e até Dezembro de 2009 um conjunto de iniciativas que visam a abordagem de temas tão diversos, como o são, a preservação dos recursos naturais, as alterações climáticas, a biodiversidade e os desastres naturais, entre outros. Recordemos, deste modo, o dramatismo que os números afectos a alguns outros items ambientais a nível mundial deixam antever.
Água: de toda a água líquida existente no nosso planeta, somente 0,35% corresponde a água doce e desta só uma parte está efectivamente disponível para o homem, devido à contaminação de muitos destes mananciais. É por esta razão que 17% da população mundial não tem acesso a água potável, prevendo a UNESCO que nas próximas duas décadas e a nível mundial haja uma diminuição de 30% na quantidade de água disponível.
Poluição marinha: os esgotos lançados no mar afectam não só as espécies marinhas mas também a qualidade de vida do homem, o turismo e as pescas, entre outras actividades. As Nações Unidas estimam que 80% da poluição marinha tenha origem terrestre e que este valor possa aumentar significativamente até 2050. Os efluentes e os resíduos sólidos urbanos, os adubos e os dejectos descarregados nas águas costeiras provocam a sua eutrofização, o aparecimento de algas tóxicas, a carência de oxigénio dissolvido e em última estância a morte das zonas costeiras. A agravar os efeitos da poluição de origem terrestre acham-se os despejos de resíduos, frequentemente não biodegradáveis, efectuados pelas embarcações em mar alto.
Resíduos sólidos urbanos: a estratégia europeia para a gestão dos resíduos sólidos urbanos passa pela aplicação da política dos 3 R’s (Reduzir, Reutilizar e Reciclar), de tal modo que, opções alternativas como a deposição do lixo em aterros e a queima em incineradoras constituem medidas de excepção. Contudo, o nosso país tem revelado sérias dificuldades em cumprir as metas estabelecidas pelo Protocolo de Quioto, contribuindo de forma significativa para o aumento do efeito de estufa (todos os anos são emitidas 440 mil toneladas de CO2 que Portugal paga sob a forma de pesadas multas).
A saúde da humanidade: os ecossistemas do planeta sofreram durante a segunda metade do século XX mais transformações do que em todos os séculos anteriores, reflectindo-se estas mudanças no aparecimento de novas e graves doenças para a humanidade, sobretudo nos países mais pobres. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), uma sexta parte da população mundial (mais de 1 bilião de pessoas) não tem acesso a água potável e quase metade da população mundial (2,6 biliões de pessoas) não possui saneamento básico. A contaminação da água é responsável por cerca de 6% da mortalidade mundial (3,2 milhões de mortes por ano) enquanto a falta de saneamento básico é responsável por cerca de 3% das mortes em todo o mundo (1,7 milhões de mortes por ano). A poluição atmosférica está na base do crescimento de diversas doenças respiratórias, como a asma, e de um elevado número de mortes em todo o mundo. Também as ondas de calor, ocorridas em diferentes locais do planeta, como resultado das profundas alterações climáticas, têm sido responsáveis por muitas mortes em todo o mundo.
É este cenário de ameaças constantes ao ambiente e à existência da própria humanidade que o homem, os homens, alguns homens, parecem desconhecer ou esquecer em cada dia que delapidam recursos, poluem os ecossistemas ou não sabem exercer de forma consciente as funções executivas que num dado momento da história, a humanidade, a nação, a cidade, lhes conferiu.
(artigo publicado no Jornal de Ovar , de 16/05/08)

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Obras escandalosas na Praia de Esmoriz



O 'Grande' e o 'pequeno'
‘Grande’ e ‘pequeno’ são dois termos de medida de significado antagónico. Em alguns casos, contudo, estes dois termos podem-se aplicar em simultâneo à mesma situação sem que a mensagem se contradiga, antes pelo contrário, fique muito mais esclarecida. Vem este intróito a propósito do mais recente atentado ambiental praticado na fustigada praia de Esmoriz.
O início da construção, nos primeiros dias de Março, de uma ‘grande’ estrutura fixa no areal desta praia, no local onde funcionou nos últimos anos um bar de praia, começou logo por indiciar a ‘pequenez’ de critérios usados pelas entidades responsáveis pelo licenciamento da obra. É que a natureza desta obra, situada em local facilmente atingido pelas águas do mar durante marés-vivas e tempestades, vai de encontro frontal aos princípios orientadores da ocupação litoral enunciados em qualquer Plano de Ordenamento da Orla Costeira. Por conseguinte, esta intervenção, se legal como à partida se depreenderá, só pode ser encarada como o resultado de uma decisão profundamente leviana.
Os alertas de sensibilização, face à obra aberrante que estava a nascer, lançados pela associação ambientalista de Esmoriz, Palheiro Amarelo e os pedidos de esclarecimento que se seguiram efectuados pelo Bloco de Esquerda à Câmara Municipal de Ovar sobre este assunto revelaram qual a estratégia de abordagem a este projecto-atentado: o aparente desconhecimento por parte da CMO de situações graves no terreno, a promessa de que se irá investigar o caso, o descartar de responsabilidades para a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro como entidade licenciadora (quando a actividade deste organismo é sempre desenvolvida em consonância com os pareceres emitidos pelas autarquias!) e … o deixar prosseguir as obras… porque estão devidamente autorizadas! De forma semelhante chega a resposta aos pedidos de esclarecimento efectuados à CCDR-C sobre o mesmo assunto: reconhecimento de que já foram efectuadas diligências no sentido de minorar o impacto negativo do projecto e …. o silêncio absoluto sobre o futuro da obra, nomeadamente sobre a forma como será feita a ligação à rede de saneamento. ‘Grande’ conluio este, entre os dois organismos públicos, embora de muito ‘pequeno’ nível.
Entretanto, ficaram por esclarecer três pontos essenciais. Primeiro. Tendo o POOC Ovar-Marinha Grande sido aprovado em 20 de Outubro de 2000, qual a razão pela qual o primeiro apoio de praia construído em data posterior (a umas dezenas de metros para sul da obra em causa) ter sido edificado mediante estrutura e materiais compatíveis com os princípios definidos no POOC e este novo apoio seguir agora uma linha completamente diferente? Segundo. Que garantia haverá de que à semelhança do que aconteceu com o primeiro apoio de praia também agora a tubagem de ligação à rede de saneamento passará pelo areal sem que haja lugar à destruição das dunas? Terceiro. Estando desde 23 de Outubro de 2003 a praia de Esmoriz inserida numa ‘Área Crítica de Recuperação Ambiental’, contemplará o POOC Ovar-Marinha Grande esta situação, de acordo com o prescrito na alínea g) do ponto 1, da Portaria 767/96, de 30 de Dezembro? É que se não contempla, não podem existir razões que abonem legalidade alguma!
E eis que o pior aconteceu! O futuro repentinamente passou a presente e todos os receios se vieram a concretizar!
Retro-escavadoras avançam a 27 de Março de 2008 sobre as dunas edificadas desde 13 de Maio de 1998 graças ao esforço e trabalho pioneiro e voluntário dos pescadores locais, destruindo em poucas horas aquilo que demorou uma década a construir-se. Tratar-se-á de ‘grande’ cegueira por parte de quem permite este estado de coisas? Creio que não, pois alertas atempados não têm faltado ao longo dos anos recentes (jornais, televisão, publicações, jornadas, exposições, associações ambientalistas, intervenção partidária, etc., etc., etc.) sobre a conveniência em bem tratar o litoral do concelho. Antes, acredito que este retrocesso ambiental seja devido a uma ‘pequenez’ de capacidade em descortinar quão nefasta vai sendo a gestão do bem público concelhio e consequentemente da capacidade de reconhecimento do erro. Ao invés de uma verdadeira preocupação pelo Ambiente, teimosamente assiste-se no concelho a brincadeiras de mau gosto que passam por atitudes de ‘grande’ desprezo (ou provocação) pelos recursos naturais que ainda subsistem e pelo trabalho e empenho dos concidadãos na preservação dos mesmos.
‘Grande’ e ‘pequeno’, afinal, dois sentidos eventualmente antagónicos mas na realidade pertencentes à mesma família. Infelizmente, ambos têm servido em Ovar para aquilo de que Ovar não precisava mesmo: estagnação e/ou retrocesso.

(artigo publicado no Jornal de Ovar de 03/04/08)

Atentados na Praia de Esmoriz


A praia de Esmoriz está mais uma vez a ser vítima de graves atentados ambientais.




Quem são os responsáveis?
foto de José Lopes

Arranque do Blogue

Para trás ficam um conjunto de textos do autor deste blogue que, foram sendo publicados em diferentes periódicos, fizeram parte do seu site pessoal WWW. oceanus.web.pt  e constituem um Arquivo Documental.

Inicia-se, assim, uma nova fase de intervenção escrita, em prol do Ambiente no concelho de Ovar.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Casos do Magreb: o “Capitão Gancho”


Já nos aconteceu a todos, por certo, num dia de Verão estarmos sentados a tomar um café, um refresco ou outro qualquer alimento ou bebida na esplanada de um apoio de praia (já agora para os menos habituados a esta linguagem técnica, falar de apoios de praia é o mesmo que falar dos bares assentes no areal da praia!) e sentirmos a necessidade imperiosa de recorrermos à casa de banho. Teremos, tão-somente, que nos levantar e dirigirmo-nos para o local apropriado que, fazendo parte do mesmo apoio de praia, não distará da nossa mesa mais que uma meia dúzia de metros.
Ora este cenário que se acabou de desenhar acontecer-nos-á quer estejamos a desfrutar a praia na Póvoa de Varzim, na Figueira-da-Foz, na Caparica ou em Portimão. E isto deve ser mesmo assim e não de outra forma, até porque os chamados POOC’s (Planos de Ordenamento da Orla Costeira) assim o exigem! É que os POOC’s surgiram, precisamente, para ordenar os diferentes usos e actividades balneares de uma praia, estabelecendo critérios de ocupação e exploração destes espaços litorais, os quais se pretendem uniformes para o conjunto do território nacional.

E o que dizem concretamente estes Planos de Ordenamento sobre as praias ditas “urbanas de uso intensivo” (isto é, as praias adjacentes a núcleos consolidados e sujeitas a forte procura, como o são as nossas praias do Furadouro, de Cortegaça e de Esmoriz)?
Dizem que as referidas praias têm que respeitar os seguintes requisitos: a) possuírem vias de acesso automóvel e parques de estacionamento delimitados e pavimentados; b) possuírem acessos pedonais; c) apresentarem acessos à praia por parte das embarcações, bem demarcados; d) definirem os condicionamentos à pesca e à caça submarina; e) as suas águas serem submetidas a um controlo de qualidade; f) possuírem serviço de assistência e salvamento a banhistas; g) possuírem apoios de praia completos (integrando vestiário, balneário, instalações sanitárias, posto de socorros, comunicações de emergência, salvamento a banhistas, limpeza de praia e recolha de lixo, para além das eventuais funções comerciais); h) possuírem infra-estruturas de saneamento básico, de abastecimento de água, de energia e comunicações de emergência.

Se fizermos vista grossa sobre as três estâncias balneares atrás referidas, todas brindadas mais uma vez no início da época balnear com a cada vez mais desacreditada bandeirinha azul, até poderia parecer que tudo está conforme a lei. Mas se fizermos um ‘zoom’ sobre a praia de Esmoriz (um pouco mais a sul do local onde a Barrinha de tão cheia de imundice parece sentir-se tão enojada de si própria que só se alivia sempre que se abre ao mar) verificamos que as coisas não são assim tão claras e muito menos ambientalmente sustentáveis.
É que, pasme-se (!), existe um apoio de praia que pelo segundo ano consecutivo está a funcionar sem instalações sanitárias, obrigando durante o dia os seus clientes a procurarem instalações sanitárias noutro qualquer local (para chegarem ao WC mais próximo terão de atravessar o passadiço até à estrada onde se encontram duas cabines WC distanciadas cerca de uns 150 metros do dito bar). Refira-se, contudo, que à noite seja provável que este problema da distância seja minimizado já que os frequentadores do referido bar poderão sempre optar como alternativa, entre as dunas da praia ou o mar próximo, de modo a que se sintam mais rapidamente aliviados.
Ora bem, este foi assim e mais uma vez, um ritual de Verão na praia de Esmoriz, abrangendo várias horas por noite, todos os dias do mês, alguns meses no ano. Feitas as contas, imagina-se a quantidade de detritos espalhados entre a areia da praia de Esmoriz! Como se já não bastassem os detritos provenientes da Barrinha!
Pois que vivam as noites de Verão na praia de Esmoriz! Mas por favor, não ao estilo dos nómadas do Magreb. Evidentemente, que se o bar lá está é porque alguém o licenciou. Deste modo não se pode deixar de questionar muito directamente o papel da Câmara Municipal de Ovar em todo este processo.

Que se passa aqui? Que pesos e que medidas se aplicam nesta concessão que a tornam diferente das restantes? Porque se autoriza o licenciamento de um bar de praia sem condições sanitárias básicas? Será que existe alguma cláusula de excepção para o funcionamento deste bar? Ou será que pelo facto do referido bar se designar “Capitão Gancho” lhe confere automaticamente direito a uma arquitectura pirata?

(Artigo publicado a 11.10.07 no Jornal de Ovar)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Casos do Magreb: a verdadeira história de uma Bandeira Azul !


Na madrugada do passado dia 14 de Julho, sábado, mais uma vez e como que a cumprir uma fatal tradição por esta altura do ano, as águas da Barrinha de Esmoriz romperam com o frágil dique de areia que as sustém arrastando consigo um turbilhão de poluentes químicos e biológicos que conspurcaram a água do mar, a areia da praia e o ar que por aquelas bandas se respira.
Após este incidente procedeu-se de imediato ao hastear da bandeira vermelha na praia de Esmoriz, como forma de impedir os incautos banhistas de mergulharem na fossa em que entretanto se havia transformado o mar. No entanto e por incrível que pareça, a Câmara Municipal de Ovar não teve a sensatez (que seria de esperar) de ordenar a retirada imediata da Bandeira Azul, enganando deste modo todos os utilizadores daquela praia.

Nesse mesmo dia de sábado e face ao dramatismo da situação que se estava a viver em Esmoriz, foram efectuadas pela associação ambientalista “Palheiro Amarelo” várias chamadas telefónicas para os números disponibilizados pelas entidades governamentais envolvidas na gestão da Bandeira Azul (Câmara Municipal de Ovar e Associação da Bandeira Azul), tendo as mesmas mostrado-se infrutíferas, já que do outro lado da linha nunca ouve ninguém para atender o telefone.
Provavelmente, será natural ser assim em Portugal: não haver ninguém disponível durante o fim-de-semana para tratar de questões urgentes como estas; restou, então, aguardar por segunda-feira, apesar da Barrinha não ter parado de lançar os efluentes para o oceano durante todo o fim-de-semana! Por este facto, no Domingo, o Jornal de Notícias abordava já este desastre ambiental no concelho de Ovar.
Segunda-feira, dia 16. A RTP fazia também notícia do acontecimento. Apesar do grave atentado ambiental que decorria em Esmoriz, parecia que para a Câmara Municipal de Ovar a grande preocupação era que a Bandeira Azul, sinónimo de praia com qualidade, continuasse hasteada. Pois não é que a mesma lá continuava desfraldada ao vento no cimo do mastro! É caso para questionar: será que estes autarcas seriam capazes de se banharem no mar de Esmoriz no meio de tanta imundície? Ou de deixar os seus filhos brincarem no areal contaminado da beira-mar? Sinceramente, acho que não! E pergunto-me, porquê então, um “não” para os senhores da Câmara e um “sim” para os demais veraneantes?
Entretanto e novamente por diligências da associação ambientalista “Palheiro Amarelo” ocorrem uma série de contactos telefónicos entre a referida associação e a Associação da Bandeira Azul, quer a dinamarquesa, quer a portuguesa e entre esta última e a Câmara Municipal de Ovar, no sentido da autarquia proceder ao arriar da dita bandeira, pondo fim a uma reincidência de más práticas que têm servido apenas para descredibilizar o significado daquele galardão. A Bandeira Azul acabaria por ser retirada somente na tarde de terça-feira, dia 17, tendo sido necessário deslocar-se ao local uma autoridade marítima proveniente da Capitania do Porto do Douro.
Terça, dia 24. Durante a tarde, a Barrinha, que entretanto havia sido fechada, volta de novo a abrir continuando a poluir as praias do concelho.
Quarta, dia 25. Numa tentativa camuflada, a capitania (solicitada, sabe-se lá por quem!) volta a Esmoriz para proceder à entrega da Bandeira Azul, num momento em que a Barrinha ainda se encontrava a deitar para o mar. Imagine-se!!! A entidade marítima disposta a hastear a Bandeira Azul, quando na praia se encontrava afixado o seguinte edital: última colheita de água do mar realizada a 18/07 e respectivos resultados das análises com data de 20/07!!! Verdadeiramente inacreditável !!!
Quinta, dia 26. É o veredicto final. A presidente nacional da Associação da Bandeira Azul, finalmente cônscia da anarquia que em Ovar se vive, ordena que a Bandeira Azul não seja mais hasteada em Esmoriz até que se encontre uma solução para a Barrinha.

Aquela postura irreflectida demonstrada por parte da Câmara Municipal de Ovar acontece porque estamos em Portugal, onde o ambiente só é tido em consideração para efeitos de marketing eleitoralista. Porque estamos num país que, cada vez mais, reúne características terceiro-mundistas. Num país onde é possível a certos autarcas secundarizarem a saúde pública face à ambição cega por um galardão indevido, como seja a Bandeira Azul, mesmo que  hasteada numa praia poluída. Num país onde pululam autarcas, sem dúvida, habilitadíssimos para promoverem qualidade ambiental em favelas da América do Sul ou nalgum território do Magreb, mas sem capacidade para produzirem ganhos ambientais num concelho da Europa.

A terminar e perante atitudes como as que se viveram em Esmoriz saliento dois pontos relevantes.
Por um lado, o importante papel dos cidadãos (isolados ou em associações) na denúncia e correcção de situações ambientalmente insustentáveis, de que a celebração da festa da Bandeira Negra levada a cabo pelo Palheiro Amarelo pelo terceiro ano consecutivo é disso testemunho.
Por outro lado, a obrigação dos autarcas envolvidos nesta palhaçada assumirem as suas responsabilidades políticas por este atentado à saúde pública do concelho!

(Artigo publicado a 02.08.07 no Jornal de Ovar)

terça-feira, 1 de maio de 2007

A propósito do Dia Internacional da Terra


        No passado dia 22 de Abril celebrou-se o Dia Internacional da Terra. Acredito que para a maioria das pessoas esta data seja totalmente desconhecida e para as restantes, acredito mesmo, que a data pouco ou nada diga de concreto. Mas a verdade é que a mesma existe, porque alguém entendeu haver razões para isso. Alguém entendeu (e bem no meu ponto de vista) que a resolução dos problemas ambientais tem de ser encarada numa perspectiva global, balizando, corrigindo e incentivando o contributo dado por cada um em particular. Terá sido com estes objectivos que ocorreu a nascença deste memorial.

Caberá perguntar: qual o contributo dado pelos responsáveis políticos cá de Ovar para esta preocupação mundial? Entre vários outros, há dois que se destacam este ano e por esta ocasião.
        Primeiro contributo. Alguns meses antes desta data comemorativa inicia-se em Ovar, em zona anteriormente florestada e protegida, presentemente desafectada e destruída, a construção daquela que viria a ser encarada, de modo particular pelos autarcas locais, como um marco no desenvolvimento do concelho e uma panaceia para minimizar o desemprego local. Estou a referir-me, evidentemente, ao tão esperado Dolce Vita, uma obra que cresceu numa corrida contra o tempo, como se ela própria do tempo tivesse necessidade de fugir. Mas o que é afinal este Dolce Vita?
        Não é o moderno e espaçoso museu onde o espólio ovarense bem merecia ter assento, nem tão pouco a casa da cultura há tanto requisitada, nem qualquer outra infra-estrutura de desenvolvimento social, cultural ou desportiva vocacionada para usufruto generalizado das colectividades locais ou da população vareira. É antes e tão-somente um centro comercial, associado a uma arena desportiva dita multi-usos (mas efectivamente de uso muito restringido) e baptizada com um nome bastante jocoso (pois Dolce Vita será sem dúvida a dos promotores do projecto, pois tanto quanto é conhecido dos grandes grupos económicos, estes não dão nada a ninguém e quando dão umas migalhas é com o sentido de irem buscar o bolo por inteiro).
E foi assim, entre a correria do povo a este local nos primeiros dias de inauguração, as promoções, a festa, os convidados vip’s e o samba, que o governo local quis mais uma vez fazer esquecer os exemplos de outros aqui bem perto de nós que marcam a diferença pela positiva. Outros que não tendo no seu território apenas um mas vários centros comerciais não necessitaram, contudo, de agredir a natureza desencadeando um processo de destruição maciça dos espaços verdes existentes.
Creio, pois, que este não será de modo algum, um evento que fique para a história por motivos nobres. Tão pouco esta hora é de regozijo, como alguns querem fazer crer.
        Não é de regozijo ver a destruição da mata a norte da cidade, como resultado da voracidade dos grandes grupos económicos, que fazem no Portugal desgovernado aquilo que não podem fazer noutros países, nomeadamente em Espanha.
Não é de regozijo perspectivar que este empreendimento torne mais justificável a ocupação imobiliária entre Ovar e o Furadouro daqueles que foram e deveriam continuar a ser solos florestais.
Não é de regozijo continuar a ver que Ovar não tem um plano estratégico de desenvolvimento sustentável para a sede do concelho.
        Não é de regozijo contemplar a impunidade com que se deixa rasgar uma estrada florestal, à pressa e sem qualquer estudo sobre o impacte ambiental da mesma, transformando aquilo que era um recanto habitacional numa das mais movimentadas vias da cidade.
        Não é de regozijo ver a grande quantidade de areias que foram retiradas dos campos dunares intervencionados, bem antigos e conservados e que estiveram este tempo todo à espera de serem finalmente saqueadas.
        Não é de regozijo, já o tenho afirmado várias vezes, constatar que o ‘ambiente´ ovarense continua a não ter a nível institucional quem por ele olhe.
        É claro que também não é de regozijo ver os números de desemprego na cidade de Ovar. Seiscentos, quinhentos ou até mesmo outro qualquer número menor de desempregados devem constituir sempre motivo de preocupação. Não está em causa a criação de mais postos de trabalho, mas antes, a forma irreflectida como se aceitam as propostas que conduzem à empregabilidade na nossa cidade.
Refira-se, que também não é de regozijo para qualquer ovarense saber que é grande o buraco financeiro herdado por esta câmara e que é difícil fazer obra sem fundos. Mas, de modo algum se pode continuar a pactuar com a política de “dar a mata e cinco tostões” ao primeiro que aparece, como forma de tapar rapidamente esse buraco. Há que arranjar alternativas credíveis, substituindo os métodos politiqueiros do século passado por uma moderna e arejada gestão autárquica.
Resta esperar, que o projecto Dolce Vita depois de ter constituído um elevado custo ambiental, pelo menos traga para Ovar benefícios económicos efectivos resolvendo as situações dramáticas do desemprego. Se assim for poder-se-á justificar, que afinal, Dolce Vita em Ovar não é um enorme elefante branco.
        Segundo contributo. É natural, que ao longo do passado século, os ovarenses tivessem sonhado e arquitectado projectos de desenvolvimento turístico ao longo do litoral do concelho. Mas, o que provavelmente esses sonhadores de então não sonhavam era que o mar estava a tornar-se cada vez mais implacável na sua vontade de avançar sobre terra firme. E assim, ideias tão “bonitas” como aquela de fazer atravessar o cordão frontal por uma avenida marginal, que ligasse o topo norte ao topo sul do concelho, tiveram que ficar com data de inauguração agendada para as calendas gregas.
Vem isto a propósito de que, actualmente, parecem continuar omnipresentes no nosso concelho esse tipo de almas peregrinas, completamente desenquadradas do contexto temporal em que se encontram e até das funções de que estão imbuídas, teimando em levar por diante ideias sem nexo e ambientalmente insustentáveis, como aquela de realizar um projecto turístico para o golfe entre a ria de Ovar e a zona sul do Furadouro. 
Há muito, muito tempo, que venho alertando para o avanço do mar em todo o litoral do concelho, chamando particular atenção, precisamente para a zona localizada a sul do Furadouro. Independentemente da insistência dos autarcas ovarenses em quererem fazer ouvidos moucos dos alertas lançados (uma atitude que só lhes tem trazido desilusões e contrariedades) a verdade é que, como se viu recentemente com a reprovação do referido projecto por parte do Ministério do Ambiente, estes autarcas insistem em continuar a criar situações de risco em vez de as evitarem.

Incrível, não é? É caso para pensar o que levará esta gente a estrebuchar tanto, a clamar justiça e intervenções ao mais alto nível, quando está em causa o ‘chumbo’ de um projecto imobiliário planeado para uma zona de risco... Insistir em edificar sobre a orla costeira, mesmo quando o avanço do mar é cada vez mais evidente... É, sem dúvida, esta teimosia em projectos contra natura que revelam, muito claramente, como algumas pessoas se encontram desfasadas da sua missão sócio-política...

Perante a inviabilização por parte do Ministério do Ambiente do complexo turístico a construir no Carregal, face às previsões que apontam para 2140 o posicionamento da linha de costa neste local, a Câmara Municipal de Ovar reagiu, classificando esta medida como “irresponsável”. Irresponsável porque, segundo a Câmara, este intervalo de tempo de cerca de 130 anos chegaria sobejamente para o projecto em causa atingir os objectivos dos seus promotores!
Não conheço, de facto, quais os objectivos (claramente financeiros, em última análise) dos promotores do projecto. Mas estou seguro de que não seriam precisos 130 anos, nem tão-pouco 30 anos, para o contribuinte anónimo, aquele que não irá usufruir qualquer rendimento do empreendimento em causa, estar a pagar mais impostos por causa deste mesmo projecto. 
É que daqui a 3, 4 ou meia dúzia de anos apenas, quando o mar a sul do Furadouro começar a derrubar os primeiros pinheiros da mata, alguém irá entender com a maior das razões, que o empreendimento turístico estará, então, a ser ameaçado pelo mar e que será necessário reivindicar a construção de mais defesas (em pedra, claro!), custe o que custar. E será nesta altura que entra em jogo o cidadão anónimo; aquele que nunca foi ao complexo jogar uma só partida de golfe, nem fez uso das instalações hoteleiras, mas que agora é “chamado à pedra”.
Chamado à pedra, porque as verbas que são gastas na defesa da costa para proteger empreendimentos bestiais, como este que em Ovar se quer construir, serão subtraídas ao orçamento do Estado (o que implicará menos verbas para a educação, para a segurança social, para a saúde, etc.). E se o orçamento não chegar, sobem-se os impostos e as taxas, disto e daquilo, ou então, cortam-se os subsídios e os apoios, daquilo ou daqueloutro. Sempre tudo muito linear para o cidadão anónimo, como eu.

E dizem os senhores autarcas de Ovar que, não sei quê..., que o PDM diz que aquele território é Espaço Turístico! Pois se diz, não devia dizer! Ou pelo menos não deveria permitir que o uso turístico daquela faixa costeira implicasse edificações fixas do género daquelas que se pretendem para o local.
Um PDM não é, nem nunca foi uma Bíblia. Não é, nem nunca foi um conjunto de dogmas irrefutáveis que não se possam alterar. Por isso é que existem revisões do mesmo. O PDM de Ovar tem de ser um documento alicerçado em condicionantes reais e não utópicas. Tem de ser um instrumento de ordenamento, com dinâmica suficiente para corrigir o que em cada momento deixa de fazer sentido, sobretudo quando estão em causa situações conflituosas como aquela que é provocada pelo mencionado projecto.

Talvez pela milésima vez afirmarei que a actual faixa costeira ovarense não reúne condições para que nela se executem, de forma conscienciosa, projectos de ocupação imobiliária, sejam eles de cariz turístico ou outro! E talvez pela centésima vez afirmarei que o actual Plano de Desenvolvimento de Ovar está errado nas suas premissas. Ovar não deve crescer na direcção do mar e da ria, mas sim em sentido oposto! 
Certo de que os autarcas de hoje acabarão por me dar razão num futuro próximo, termino este escrito, salientando que não será certamente com contributos como estes dois que retratei, que a autarquia de Ovar algum dia poderá celebrar de forma responsável o Dia Internacional da Terra.

 (Artigo publicado a 10.05.07 e a 17.05.07 no Jornal de Ovar)