segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Migradores outonais na Ria de Aveiro (III)

A cada dia que passa, os bandos migratórios vão descendo sobre os terrenos húmidos da Ria de Aveiro, pondo fim a uma epopeia, que para muitos foi trágica e ao mesmo tempo, fazendo aumentar os efectivos avifaunísticos da laguna. Prados e praias inter-tidais são das zonas preferenciais para estas aves se restabelecerem do enorme dispêndio de energia gasto. 

 

Os Estorninhos-malhados (Sturnus vulgaris) chegaram aos campos que envolvem a Ria e a sua presença, desde logo, não passou despercebida. Com uma silhueta inconfundível, de asas pontiagudas e cauda curta, sempre irrequietos, voam rápido e em grupo, ao mesmo tempo que emitem os seus chamamentos.

À distância é muito difícil distingui-los dos seus congéneres, o Estorninho-preto (Sturnus unicolor), que é residente na região. No entanto, nesta estação, e apesar de ambas as espécies apresentarem uma tonalidade geral negra e pintas brancas na plumagem, constata-se que as do Estorninho-malhado são maiores e, por conseguinte, mais perceptíveis ao olhar.

É frequente verem-se bandos mistos constituídos por ambas as espécies.

  



O Borrelho-grande-de-coleira (Charadrius hiaticula) é outro dos migrantes agora chegado. É normalmente observado nas praias de vasa, solitário ou em pequeno número, frequentemente integrado em grupos de outras limícolas.

A sua maior envergadura, a coloração da cabeça e as patas alaranjadas permitem-no diferenciar das outras espécies similares.

             



O Perna-verde-comum (Tringa nebularia) pertence ao grupo das limícolas de maiores dimensões. De bico comprido e ligeiramente arqueado para cima, tonalidades superiores acinzentadas contrastando com o branco das partes inferiores, é visto frequentemente a pescar em águas pouco profundas.

  


 

A Rola-do-mar (Arenaria interpres), é um migrador outonal que, tal como a generalidade das espécies já chegadas,  irá permanecer na Ria de Aveiro durante o Inverno.

Com uma apetência muito grande pelos habitats rochosos do litoral, pode também nesta época ser vista em praias intermareais.

Apresenta um padrão cromático muito característico que a identifica de outras limícolas.

 

 



E nós, interessados pela beleza e pela dinâmica da vida em plena natureza, vamos continuar a aguardar por novos migrantes ...


segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Migradores outonais na Ria de Aveiro (II)

 A Ria de Aveiro, como zona estuarina que é, constitui um meio natural muito produtivo, capaz de fixar durante o Outono grandes populações de aves limícolas, que aqui encontram um local extraordinário para recuperarem das longas viagens que acabaram de realizar.

Mais aves migradoras estão já instaladas nesta altura na Ria de Aveiro, alimentando-se nos seus diferentes habitats.

 


O Corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo) é uma ave de grande envergadura, globalmente negra e que pesca, mergulhando, nas águas da laguna.

Ao longo dos meses de Outono vão chegando sucessivos bandos, que por aqui vão permanecer durante o Inverno.

São observados, frequentemente, poisados na areia ou nalgum poleiro, com as asas abertas, para mais facilmente se secarem.



 

O pilrito-comum (Calidris alpina), tal como o seu nome o diz, é a mais comum das pequenas limícolas que frequentam a laguna aveirense. Tal como as restantes espécies de limícolas acaba de chegar do norte, com as suas reservas energéticas esgotadas. A sua plumagem é de um cinzento acastanhado no dorso e clara nas partes inferiores.




Outro visitante outonal na Ria é o Pilrito-das-praias (Calidris alba), que chega a esta região vindo das altas latitudes árcticas onde se reproduz. É uma espécie muito comum no Outono e Inverno também nas praias, onde é visto junto à linha de água atrás dos pequenos invertebrados trazidos pelos espraio das vagas.




Nas praias de vasa formadas na Ria de Aveiro é frequente observarem-se diferentes espécies de limícolas a alimentarem-se juntas, como acontece com as duas últimas citadas.



 


O Maçarico-galego (Numenius phaeopus) distingue-se do maçarico-real pelo seu menor tamanho do corpo e do bico e pelo padrão da sua cabeça, já que apresenta os lados da coroa acastanhados, separados de uma risca escura sobre o olho.

 


O Maçarico-de-bico-direito (Limosa limosa), é outro migrador, que chega em bandos numerosos, proveniente do árctico. Alguns indivíduos fazem a viagem sem etapas intermédias; por esta razão, a Ria de Aveiro constitui durante o Outono e Inverno um espaço onde estas aves poderão restabelecer as suas reservas de gordura para a viagem de retorno.

De envergadura um pouco menor do que a espécie anterior, distingue-se claramente daquela pela forma do bico, mas também por apresentar as partes superiores da plumagem de um acinzentado uniforme.

 


 

A Íbis-preta (Plegadis falcinellus) é uma espécie que migra preferencialmente para o continente africano, onde inverna. Contudo, na última década tem tido uma dispersão crescente pela laguna aveirense durante os meses de Outono e Inverno.

Em qualquer altura do ano esta ave pode ser identificada à distância pela sua tonalidade muito escura e pelo bico curvo. No Outono e a curta distância não se observam as diferentes tonalidades que a plumagem de Verão apresenta, mas antes toda a plumagem é de um escuro baço com a cabeça sarapintada de pequenas manchas brancas.

  


A migração outonal ainda não terminou! Outros protagonistas irão surgir na Ria de Aveiro.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Migradores outonais na Ria de Aveiro (I)

 Com a chegada do Outono começaram a chegar ao nosso país e em particular à nossa região as aves migradoras.

Umas, limitam-se a ser migradoras de passagem, mas muitas outras, por aqui vão ficar durante os meses frios de Inverno.

Estas últimas vão-se instalar em diferentes habitats consoante as suas características fenológicas. A Ria de Aveiro, pelas suas características particulares de extensa zona lagunar, oferece uma diversidade de habitats a muitas destas aves, que ocupam não só as suas águas, vasas, sapais, marinhas e prados húmidos.

 

Uma das primeiras espécies a ser avistada, em pequenos grupos, é o Colhereiro (Platalea leucorodia).

De plumagem alva, com um penacho pendente da nuca e o bico em forma de espátula, alimenta-se em águas pouco profundas, com o bico mergulhado dentro de água, ao mesmo tempo que vai movendo a cabeça para um e outro lado.

  


Outra espécie que aparece cedo neste período migratório é o Garajau-de-bico-preto (Sterna sandvicensis).

Embora neste período outonal a espécie seja observada regularmente a pescar no mar, não deixa de entrar na Ria de Aveiro, pois também aqui encontra abundante pescaria.

Distingue-se pelo bico preto com a extremidade do mesmo amarela, a testa branca, uma poupa na nuca e patas curtas e pretas.

  



A Garça-real (Ardea cinerea), de tonalidade geral cinzenta, por cima, e clara, por baixo, é a maior de entre as espécies de garças que pertencem à fauna portuguesa.

Embora seja uma espécie residente na região, é nesta altura do ano que os seus efectivos aumentam, pois chegam à Ria de Aveiro as muitas aves migrantes.

Avistada, geralmente, imóvel ou deslocando-se muito lentamente em busca de presas, explora variados habitats.

 



O Perna-vermelha-comum (Tringa totanus) é uma das limícolas de médio porte mais comuns na Ria de Aveiro.

Distingue-se claramente pelo avermelhado das patas e da base do bico. Frequenta áreas pantanosas e praias de vasa.

 



A Tarambola-cinzenta (Pluvialis squatarola) chega à Ria de Aveiro proveniente da tundra árctica, onde cria. Enquanto a maioria dos migradores desta espécie seguem a sua viagem até África, alguns exemplares por aqui ficam, passando por cá também o Inverno.

É uma ave de silhueta grande, compacta, com cabeça volumosa e bico forte. Apresenta plumagem geral pintalgada de cinzento e normalmente é avistada só ou em pequeno número.

  



sábado, 10 de outubro de 2020

Cores de Outono: os primeiros dias

O Outono nos parques e jardins da cidade chegou em tons predominantemente verdes!

                                


O arvoredo ripícola, verdadeira alma do parque urbano, começa aos poucos a dar sinais de mudança, com algumas espécies a evidenciarem o início daquela que será, daqui a umas semanas, uma verdadeira metamorfose colorimétrica.

   




É sobretudo à luz cristalina matinal desta primeira semana que o alto das copas revela que afinal o fabuloso processo outonal já começou!









quarta-feira, 7 de outubro de 2020

O Covid-19 e as aves da nossa cidade: tempo de passagens

Outono!

Este ano a estação está ensombrada pelo início de uma segunda vaga pandémica, que se estima ser bem mais grave que a primeira. Os números da DGS não enganam e continuam a colocar o município ovarense numa situação nada tranquilizadora, com cerca de 750 infectados ao quinto dia do mês de Outubro.








À margem deste clima de ansiedade para os humanos, o amanhecer nos parques e jardins da cidade de Ovar é nesta altura do ano feito de uma grande quietude. Os primeiros raios de Sol ainda não conseguem chegar a todos os cantos do arvoredo, nem tão pouco esconder o frio matinal que mantém muitos dos seres vivos ainda recatados nos seus dormitórios.



Entre os mais activos a esta hora da manhã, destacam-se as espécies mais comuns e também mais adaptadas ao homem, como os pombos-domésticos (Columba livia, raça doméstica), as rolas-turcas (Streptopelia decaoto), os melros-pretos (Turdus merula) e as pegas-rabudas (Pica pica), que esvoaçam de árvore em árvore como que em matinais exercícios de aquecimento.

Contudo, entre estes surge um personagem novo, o gaio (Garrulus glandarius). Apesar de ser uma espécie residente na região só agora é visto, regularmente, a voar, com seu voo poderoso e directo, entre as grandes manchas arbóreas da cidade, pois durante a época de criação preferiu, pela sua grande esquivez, o maior recolhimento das matas. 




Com o final do Verão começaram a regressar ao sul várias espécies de aves que tinham chegado até nós no início da Primavera, algumas das quais foram alvo de artigos anteriores. Pelo facto de não encontrarem nas nossas paragens as condições ambientais adequadas para aqui passarem o Inverno, são chamadas de espécies estivais.

Como que a preencher o vazio deixado por estas, começaram a surgir a partir dos finais de Agosto, vindas de maiores latitudes, novas espécies que, fugindo aos rigores do clima, por aqui ficarão até à Primavera do próximo ano. Logo que as condições climáticas melhorarem nos territórios do norte, aí regressarão, para fazerem criação. Chamam-se a estas, espécies invernantes.

Quer um quer outro grupo fazem parte das chamadas espécies migradoras. Um terceiro grupo de espécies migrantes são aquelas que atravessam as nossas latitudes, pousando aqui e além para recuperarem energias, mas em que o seu destino final ainda está longe. São as denominadas migradoras de passagem.

Por último, temos aquelas espécies que, tendo como área normal de distribuição territórios bem distantes do nosso, por aqui surgem de quando em vez. São as chamadas espécies acidentais.

Todas estes grupos de espécies migradoras, aquando da sua estadia entre nós, convivem com as outras que aqui permanecem durante todo o ano e que por isso constituem o grupo das espécies residentes. 


Mas voltemos às aves da nossa cidade recuando um pouco no calendário ....

Em meados de Agosto os ninhos de cegonha-branca (Ciconia ciconia) encontram-se definitivamente vazios. As aves, incluindo os juvenis, já não os usam, pois encontrando-se dispersas durante o dia pelos campos próximos aí encontram  locais favoráveis para o descanso nocturno. Em breve estas aves juntar-se-ão a outras e outras mais, em territórios  cada vez mais afastados de Ovar iniciando assim o progressivo movimento de romagem a sul.


Quem por esta data também já deixou de ser visto nas suas deambulações citadinas atrás dos pombos domésticos foi o milhafre-preto (Milvus migrans). Esta ave é das primeiras a abandonar os locais de criação e a empreender o regresso a África, tal qual, a águia-calçada (Hieraaetus pennatus), outra protagonista regular dos céus vareiros durante o estio. 


 


Também por esta altura as andorinhas-das-chaminés (Hirundo rustica) deixaram de ser vistas a voar sobre o parque urbano da cidade. Poder-se-ia pensar que teriam partido já para África...mas não. À semelhança de todas as outras espécies migradoras, elas passam sempre um largo período de tempo, antes da migração, em zonas ricas em alimento, neste caso, prados húmidos onde os insectos são abundantes. Este período de tempo é fundamental para adquirirem o suporte energético que lhes permitirá realizar essa longa epopeia transcontinental.



A sua parente, a andorinha-dos-beirais (Delichon urbica), não é tão apressada...a cidade continua a proporcionar-lhe alimento e nos primeiros dias de Outubro ainda a pudemos ver e ouvir (embora em número reduzido) cruzando o ar com seus chilreios, conjuntamente com a residente andorinha-das-rochas (Ptyonoprogne rupestris). 

Foi interessante registar o comportamento reprodutor tardio da andorinha-dos-beirais, no que respeitou aos dois ninhos que foram seguidos durante toda a Primavera e Verão e que aqui se relatou em apontamentos anteriores. É que em finais de Setembro os referidos casais continuavam a voar regularmente para os ninhos, embora com menor intensidade, tendo inclusivamente num dos casos havido a preocupação por parte do casal em recompor as paredes destruídas durante o pico da nidificação.







O mês de Setembro na cidade, além de assistir à preparação e início das viagens de várias espécies de aves para sul, assiste também à chegada crescente dos migradores vindos de latitudes setentrionais que, começando a sentir os primeiros frios, procuram temperaturas mais amenas nas nossas latitudes.

Para além da temperatura, estas aves são influenciadas por um outro factor físico decisivo no despoletar do seu instinto migratório - o fotoperíodo, isto é, a duração diária das horas de luz. Com o final do Verão no hemisfério norte a duração do período de luz começa a diminuir substancialmente obrigando algumas espécies a deslocarem-se para áreas mais meridionais onde encontram condições favoráveis à manutenção dos seus ritmos biológicos.

As migrações das aves são, de facto, um acontecimento que nos faz reflectir, mais uma vez, sobre a complexidade e funcionalidade das relações entre os seres e o meio ambiente, e que fazem da Terra o tal planeta único na vastidão do Universo! 



As aves migradoras à medida que vão chegando a Portugal vão ocupando diferentes habitats, que lhes oferecem as condições de abrigo e de alimento necessárias. Entre estas registemos algumas das primeiras migrantes outonais que começaram a frequentar os parques da cidade. 


Um dos primeiros a chegar, começa a ser visto desde Setembro, um pouco por todo o lado onde existam arvoredos. Trata-se do papa-moscas-preto (Ficedula hypoleuca). 




Já sem a sua vistosa plumagem nupcial, preta e branca, agora substituída por padrões branco sujo e castanho, mantém contudo a mancha branca nas asas. Se o observarmos com alguma demora constataremos a sua actividade irrequieta voando de um ramo para outro próximo, para pouco depois regressar ao inicial. E repete esta dança enquanto não se sentir obrigado a esvoaçar para longe. É mais uma espécie insectívora que vem muito cedo ocupar os nichos deixados livres por outras que já estão de abalada para sul.

Um migrador de passagem para África, observado frequentemente durante este mês, é a felosa-musical (Phylloscopus trochilus), muito semelhante à sua parente felosa-comum (Phylloscopus collybita), residente mas pouco frequente durante o estio. As felosas são pequenas aves, de cor cinzenta esverdeada, que procuram insistentemente insectos entre a folhagem das ramagens.



Estamos no início de Outubro e o andorinhão-preto (Apus apus) ainda anda por cá. Por vezes esta ave deixa de se avistar por uns dias mas logo reaparece, como já foi referido em apontamento anterior; as condições climatéricas são as grandes responsáveis por estas ausências, durante as quais a espécie empreende migrações internas em busca das grandes nuvens de insectos, também eles condicionados pelas deslocações constantes das massas de ar. Muito em breve andorinhão-preto empreenderá a sua migração para África.



Constata-se, assim, que a vida de cada um destes seres citadinos está condicionada não só pela do seu vizinho específico mas também pela vida das demais espécies que com ele interagem. Por outro lado, toda esta massa vivente não está encerrada em si mesma, antes depende também, dos elementos físicos ambientais. E estes, por sua vez, recebem influxos da biomassa fechando o ciclo.

Enfim, ocorrem na cidade os mesmos ciclos que em qualquer outro ecossistema natural ou semi-natural; daí a importância destes espaços citadinos para a biodiversidade em geral!



É esta teia complexa de relações, presentes em todos os biomas, que faz do planeta Terra um sistema biofísico muito complexo e extraordinariamente belo, sem dúvida!


Por estes dias de Outono, à medida que o Sol se vai elevando no horizonte e as copas das maiores árvores começam a ficar bastante iluminadas, os cantos das aves fazem-se ouvir melhor e no solo uma das residentes dos parques e jardins, a alvéola-branca (Motacilla alba alba) persegue incansável os preciosos insectos, base da sua dieta. 



A meio da tarde várias espécies de aves banham-se nas águas do rio Cáster; entre elas a alvéola-cinzenta (Motacilla cinerea), que por aqui esteve ausente durante o estio. 


Esta espécie embora residente na região vê a sua área de distribuição alargada durante o Outono com as aves migrantes vindas do norte; por essa razão passa a ser normal poder observá-la nas proximidades dos cursos de água do parque urbano.

O ritmo das estações marca a variabilidade do comportamento animal, mesmo para as espécies que não são migradoras. Por isso, é interessante referir a alteração do comportamento e da área de distribuição de duas espécies de passeriformes residentes e comuns na região. 

Uma delas conhecemos bem, o chamariz (Serinus serinus)...

Durante a época de criação os machos desta espécie, diariamente e do alto de pontos elevados, assinalavam os seus territórios cantando quase ininterruptamente. O casal constituía o núcleo familiar que seria em breve alargado com o nascimento das crias. Com a independência dos juvenis o núcleo familiar desfaz-se e as aves passam a viver em bandos que se dispersam consoante a disponibilidade alimentar do meio.

É assim que sob a luz dourada do entardecer podemos observar no parque urbano bandos ruidosos desta espécie, esvoaçando de árvore em árvore, camuflados entre a folhagem amarelada dos choupos e dos amieiros ou procurando alimento, de forma irrequieta, no solo. Ao menor distúrbio levantam voo de imediato ao mesmo tempo que vão lançando gritos de alarme.






Outra espécie, que não frequentava os parques da cidade durante a época de criação, porque preferia habitats mais selvagens, como extensos terrenos húmidos, é agora observada facilmente no parque urbano da cidade. Trata-se do cartaxo-comum (Saxicola torquata). 



A migração outonal vai sensivelmente a meio ... mais algumas espécies de aves haverão de chegar aos nossos parques e jardins durante este período ... e também para passarem por aqui o Inverno.

Os dias vão decorrendo soalheiros e sem grandes frios até à data ... as folhas das árvores continuam lentamente a acobrear lembrando que a natureza entrou decididamente no Outono, essa estação fabulosa em que as manchas arbóreas formarão belíssimos quadros multicoloridos até à chegada dos rigores do Inverno!




sábado, 1 de agosto de 2020

O Covid-19 e as aves da nossa cidade: em tempo de desconfinamento.

 

Passaram-se mais de dois meses desde o último relato sobre os comportamentos primaveris das aves da cidade de Ovar. Entretanto, os ovarenses passaram a viver, um pouco mais descontraídos mas sempre receosos, o desconfinamento autorizado pelos organismos de saúde da república portuguesa. Velhos hábitos sociais se foram recuperando embora nem sempre da forma adequada; mas a verdade é que o ser humano carece, pela sua natureza, disso mesmo … entrosamento social. 

 

 

Neste entretanto chegou o Verão e com ele dias de calor intenso e uma mudança acentuada na fenologia das aves ... é que o calor não amolenga apenas o homem…

Enquanto a espécie humana continua com as suas rotinas diárias, repetitivas, semana após semana, mês após mês, as aves urbanas deixaram velhos hábitos e adquiriram outros; e esta mudança, quase imperceptível, continuará a manifestar-se nos próximos tempos. 

Para a grande maioria das espécies a incubação cessou há mais de um mês. Outras, insistentes e pródigas na reprodução continuaram até ao presente, com ninhadas sucessivas....

A cobertura vegetal do parque urbano e demais jardins da cidade continuam densas e predominantemente verdes, embora com tons um pouco mais desmaiados do que antes. As flores silvestres começam a perder as suas cores garridas devido às altas temperaturas que se vão fazendo sentir nesta altura do ano.

 


 

É chegado, então, o momento de sairmos de casa devidamente protegidos do calor, usarmos os binóculos sempre que necessário e darmos uma nova olhada pela avifauna da cidade. Vamos lá!

 

A cegonha-branca (Ciconia ciconia) que começou a nidificar em meados de Março incubou os seus ovos durante aproximadamente um mês. Terminado este tempo os filhotes foram crescendo no ninho, alimentados por ambos os progenitores, que não se cansaram de viajar para os campos próximos em busca de alimento. 

  

Reza a tradição que, pelos santos populares os filhotes já exercitaram suficientemente o batimento das asas e por isso por volta dessa quadra os ninhos instalados nas antenas, postes, árvores ou chaminés passaram a ficar definitivamente vazios ….. 

....é que aqueles jovens, entretanto, acabaram por efectuar o seu baptismo de voo passando então a engrossar o número de aves que nesta altura do ano se concentram em número crescente pelos campos da periferia da cidade …

 


A imagem das encantadoras cegonhas-brancas volteando sobre o centro da cidade de Ovar apenas se poderá voltar a observar no próximo ano ….

  


Com o desconfinamento social deu-se também o desconfinamento dos serviços de jardinagem municipal e as máquinas cortadoras de relva desbastaram em pouco tempo as gramíneas que já iam altas nos prados do parque urbano. Estas jardinagens levadas a cabo com objectivos estéticos têm o grave inconveniente de  destruírem ninhos de aves ainda ocupados e localizados próximos do solo ou no mínimo perturbarem a criação dessas mesmas aves.

Mas não só.

Tais acções são ainda extremamente nocivas para os insectos que nesta altura do ano e consoante as espécies têm os seus ovos, ninfas ou larvas nestas mesmas gramíneas e que assim vêem afectado o seu sucesso reprodutor.

Como resultado dessa destruição, que deixa os diferentes grupos de insectos vulneráveis perante os predadores, vê-se uma variedade de aves, algumas até predominantemente granívoras, a aproveitarem este manancial disponível.

  




Olhando o céu em redor constata-se que, tanto para os impetuosos e sempre hiperactivos pombos-domésticos (Columba livia, raça doméstica) como para as elegantes rolas-turcas (Streptopelia decaoto) muito pouco mudou nos seus comportamentos, sendo este grupo uma excepção relativamente aos restantes grupos de aves da cidade. 

Os pombos, lá continuam com os seus voos rápidos, directos, permanentes, quer solitários, quer em pequenos ou grandes grupos, mantendo aquele padrão imutável de actividade ao longo do dia.

  


As rolas, por seu lado, continuam a evidenciar-se com seus abafados arrulhos logo pela manhã, escolhendo poleiros destacados e daí partindo para pequenos volteios sobre os telhados ou voando até às ramagens de uma árvore próxima.

  


Dá-se o caso de que alguns destes columbídeos ainda revelaram comportamentos reprodutores em meados de Julho …. um ou outro pombo ainda se deixou ver transportando um pequeno ramo no bico e casais de rolas sempre juntinhas em paradas nupciais…. A disponibilidade fácil de alimento permite que este grupo de aves possam realizar mais de uma postura por época.

  

 

Também os seus fiéis predadores, como os milhafres-negros (Milvus migrans) intensificaram ao longo destes dois meses e meio os seus raids sobrevoando diariamente o centro da cidade, perseguindo os columbídeos. 

 

 

Os cursos de água que atravessam o parque urbano nesta altura do ano estão cheios de insectos, entre os quais se destacam os alfaiates (Gerris lacustris), alimento das aranhas, que por sua vez são alimento dos pássaros.

  


A boa oxigenação das suas águas conseguida nas represas e açudes existentes é um factor decisivo para a qualidade das mesmas permitindo a reprodução não só dos insectos mas também dos peixes do rio.

 


Contudo, as descargas de poluentes para os cursos de água que atravessam o parque urbano, sempre que acontecem, matam a vida aquática e comprometem a biodiversidade do parque.

  








Cenários destes, são totalmente incompreensíveis nos dias de hoje, por um lado, pela sensibilização ambiental realizada ao longo de décadas junto da população em geral (a partir da idade escolar) e por outro pela inoperância da autarquia vareira que apregoa vestir sempre a camisola do “verde” mas que na prática anda sempre vestida de fato negro ….. 

Imperdoável a falta de respeito para com a natureza e para com os ovarenses quando perante atentados ambientais como o verificado no início do passado mês de Julho não há um esclarecimento oficial daquilo que correu mal!

Mas deixemos as irresponsabilidades autárquicas e olhemos o belo, a natureza, lutando e tentando sobreviver com os seus heróis, os seres vivos selvagens.


No que respeita aos pequenos cantores o padrão das suas vidas mudou e muito…

A demarcação territorial primaveril, assinalada pelo canto fervoroso dos machos, empoleirados nos arbustos e ramagens dos parques da cidade acompanhou todo o período de acasalamento e incubação. Posteriormente, esses cantos têm vindo a deixar de se fazer ouvir com a mesma intensidade ….

Bem cedo pela aurora, os cantos intensos da passarada que se ouviam há mais de dois meses deram lugar a manhãs quase silenciosas onde já não se ouvem os madrugadores melros-pretos, os rabirruivos-pretos, os verdilhões ou os chamarizes … apenas algum chilreio de andorinha-dos-beirais quando passam perto em voo.

É que, os progenitores de cada espécie passaram a ocupar-se da criação das proles nascidas. Os adultos pequenos cantores passaram a empregar todas as energias na procura de alimento de forma a taparem as bocas sempre abertas que encontravam ao chegar aos ninhos.

  


Este grupo de aves, os passeriformes, vasto em espécies, não permitiu que todas aquelas que ocorrem com regularidade no centro da urbe ovarense pudessem ter sido abordadas no texto a elas dedicado anteriormente. Procurar-se-à agora abordar mais algumas que então não puderam ser contempladas. 

Mas antes, deve ser feita uma menção especial àqueles que nesse mesmo texto intitulei de reis e rainhas dos parques, pois os mesmos continuaram ao longo destes meses a fazer jus aos epítetos, sempre muito presentes desde bem cedo pela manhã, mas muito mais silenciosos do que no passado recente… 

 

 

Um dos pequenos cantores que frequenta os parques e jardins ovarenses e ao qual ainda não foi feita qualquer referência, é um insectívoro por excelência tal como um dos seus primos já antes abordado. De canto ténue, com uma tonalidade geral escura sobretudo no dorso, neste período de pós-nidificação costuma deixar-se observar mais facilmente, saltitando de forma acrobática de ramo em ramo. Trata-se da subespécie ibérica do chapim-rabilongo (Aegithalos caudatus irbii).



Extremamente irrequietos e pequenos, descobrem-se facilmente pela sua comprida cauda e porque se movimentam nas árvores em grupo, tal qual uma onda, que entra por um lado da árvore e sai pelo lado oposto, não sem antes todos os componentes do grupo terem explorado os diversos ramos da árvore.

Ambos os cônjuges desta espécie construíram durante aproximadamente três semanas um ninho ovalado, com abertura e revestido por líquenes, assente numa bifurcação de árvore ou de arbusto próximo da água, ficando o mesmo fixo por meio de fibras naturais e teias de aranha.

Este chapim tem uma postura que varia entre oito a doze ovos brancos sarapintados de vermelho. As crias, incluindo as de uma segunda ninhada estão independentes desde o início de Junho, razão pela qual os referidos bandos quando surgem são formados pelos pais e pelos filhos de diferentes posturas.

  

Outra esbelta ave canora, insectívora no Verão, habitante dos nossos parques e jardins é a toutinegra-de-barrete (Sylvia atricapilla), o qual é preto nos machos e castanho avermelhado nas fêmeas. 

 

          


Sobretudo durante o período de nidificação os alegres trinados lançados pelos machos desta espécie não deixam ninguém, que se encontre nas proximidades, ficar indiferente, tal é a beleza dessa sonoridade. Contudo, tentar vislumbrar a ave que tão bem canta assim é uma tarefa hercúlea frequentemente infrutífera.

O ninho desta espécie é construído por ambos os cônjuges em forma de um pequenino cesto e localiza-se na parte baixa dos mais intrincados arbustos e silvados. A postura normal é de cinco pequeninos ovos, de coloração variável avermelhada ou amarelada com manchas castanhas ou cinzas, que são incubados por ambos os sexos. Caso haja uma segunda postura todos os juvenis se encontram independentes dos pais desde o início de Junho.

 

Outra bonita ave habitante dos mais densos parques da cidade é o tentilhão-comum (Fringilla coelebs). O macho apresenta na altura da nidificação um canto sonante além de uma plumagem vistosa, em que se destacam duas listas brancas nas asas e nos bordos da cauda e uma bonita cor de vinho na plumagem do peito. 

  


Esta espécie é um granívoro por excelência, embora no Verão aproveite a abundância de insectos que habitam estas áreas verdes da cidade procurando-os com o seu característico voo ondulante.

O ninho, em forma de cesto é colocado na bifurcação de ramagens e é externamente revestido por musgo e líquenes, onde a fêmea deposita e incuba sozinha quatro a cinco ovos avermelhados ou azul-acinzentados com pintas vermelho-acastanhadas. Os juvenis tornam-se independentes desde finais de Maio ou meados de Junho se houver uma segunda ninhada.

 

Um dos mais pequenos cantores da fauna portuguesa, muito discreto, de cor geral acastanhada, aspecto rechonchudo, cauda curta e sempre erecta, por aqui vive nas zonas mais interiores e baixas dos arbustos. Trata-se da carriça (Troglodytes troglodytes).

  

 

O canto melodioso desta ave rapidamente se pode transformar num outro de grande sonoridade, contrastando assim com a sua diminuta envergadura.

O macho, polígamo, constrói vários ninhos que serão usados pelas fêmeas. O ninho consiste numa robusta estrutura abobada com uma abertura e é feito de ervas, folhas e musgo, sendo forrado com penas no seu interior.

A fêmea faz uma única postura de cinco a oito ovos brancos quase sempre sarapintados, com manchas pretas ou castanho avermelhadas, sendo incubados unicamente por ela.

As crias são alimentadas por ambos os progenitores e o solícito macho atende a todas as suas proles. Os juvenis desta espécie deixam o ninho lá pela terceira semana de Maio.

 

Não é raro, pois, que durante a segunda quinzena de Maio seja frequente observarem-se juvenis destes pequenos cantores, que embora já fora do ninho, ainda são alimentados pelos seus progenitores. Os juvenis procuram atrair a atenção dos pais com insistentes chamamentos e bater de asas.

  

Deixámos para o fim o último grupo de aves abordadas em texto anterior, as andorinhas e os andorinhões.  À partida poderia justificar-se tal opção pela sequência da ordem cronológica das anteriores abordagens. Contudo, a verdadeira razão é outra.

 

A andorinha-das-rochas (Ptyonoprogne rupestres) que alimentava as suas crias voadoras já em meados de Abril, volta a deixar observar-se exactamente com o mesmo comportamento nos primeiros dias de Julho…..ou seja é possível que alguns casais da espécie possam ter tido três ninhadas este ano. 

  

 

Também a andorinha-dos-beirais que em meados de Abril se via a alimentar as suas crias fora do ninho (inclusivamente partilhava a mesma plataforma – um beiral de janela – com a andorinha-das-rochas) não parou de criar desde então em três ninhos alvo de estudo (num dos quais as paredes acabaram por ceder devido ao desgaste nele exercido pelas várias gerações de aves que por ele entravam e saíam) …. ou seja cada um destes três ninhos abrigou seguramente três posturas até ao momento presente. 

  



Estes factos são muito relevantes pois nem em todas as temporadas de criação estas aves conseguem fazer uma terceira postura...um bom sinal para a recuperação das populações de andorinhas.

  

A tarde acabou e o crepúsculo já empurrou todas as nossas aves para as ramagens mais escondidas das árvores onde irão passar a noite protegidas dos predadores nocturnos.

Nesse texto anterior dedicado aos pequenos cantores dos parques e jardins, despedimo-nos ao crepúsculo com a entrada em cena de um dos cantores da noite, o mocho-pequeno-de-orelhas (Otus scops). Hoje fazemos esta despedida com um outro personagem, bem mais familiar das gentes do campo, o icónico mocho-galego (Athene noctua). Será o seu monótono "miado" que se irá fazer ouvir até que o sono desligue por umas horas os nossos ouvidos do mundo.

 

 

Podemos afirmar assim, que este ano, de todo invulgar e preocupante para os seres humanos, foi pródigo, contudo, para as aves que vivem no meio das nossas cidades! 

Ficam os votos de que a natureza consiga vencer todas as ameaças que sobre ela pesam, mesmo quando provenientes daqueles que afirmando-se "amigos do verde" são efectivamente e de forma narcísica "amigos dos seus próprios interesses pessoais".